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            Zygmunt Bauman




    AMOR LQUIDO
Sobre a fragilidade dos laos humanos




                Traduo:
            Carlos Alberto Medeiros




  Capa: Srgio Campante, composio sobre foto
                                                                                                    3
Informaes:

B341a

BAUMAN, Zygmunt. Amor lquido: sobre a fragilidade dos laos humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Ed., 2004.

ISBN: 978-85-7110-795-3

Ttulo original: Liquid love: on the frailty of human bonds

1. Isolamento social. 2. Distncia social. 3. Relaes interpessoais. 4. Relaes intergrupais.
                                                                                                    4
Apresentao

A era da modernidade lquida em que vivemos -- um mundo repleto de sinais confusos, propenso a
mudar com rapidez e de forma imprevisvel --  fatal para nossa capacidade de amar, seja esse amor
direcionado ao prximo, nosso parceiro ou a ns mesmos.

Zygmunt Bauman, um dos mais originais e perspicazes socilogos ainda em atividade, Investiga aqui de
que forma nossas relaes tornam-se cada vez mais "flexveis", gerando nveis de insegurana sempre
maiores. Uma vez que damos prioridade a relacionamentos em "redes", as quais podem ser tecidas ou
desmanchadas com igual facilidade -- e freqentemente sem que isso envolva nenhum contato alm do
virtual --, no sabemos mais manter laos a longo prazo.

E no apenas relaes amorosas e vnculos familiares so afetados: Bauman verifica ainda que nossa
capacidade de tratar um estranho com humanidade  prejudicada. Como exemplo, ele examina a crise na
atual poltica imigratria de diversos pases da Unio Europia e a forma como a sociedade tende a
creditar seus medos, sempre crescentes, a estrangeiros e refugiados.

Sensvel e brilhante como de hbito, Zygmunt Bauman faz deste Amor lquido mais que uma mera e triste
constatao, um alerta revigorante.


Sobre o autor

ZYGMUNT BAUMAN  um dos socilogos mais respeitados da atualidade. Com extensa produo
intelectual, tem se destacado como um dos pensadores mais clarividentes do nosso tempo. Professor
emrito de sociologia da universidade de Leeds e Varsvia, Bauman tem outros 15 livros publicados por
esta editora, dentre os quais destacam-se: Comunidade; Identidade; O mal-estar da ps-modernidade;
Modernidade liquida; Vida lquida, Tempos lquidos; e Medo lquido.


Texto de quarta-capa

A modernidade lquida em que vivemos traz consigo uma misteriosa fragilidade dos laos humanos --
um amor lquido. A insegurana inspirada por essa condio estimula desejos conflitantes de estreitar
esses laos e ao mesmo tempo mant-los frouxos.

Zygmunt Bauman radiografa esse amor, tanto nos relacionamentos pessoais e familiares quanto no
convvio social com estranhos. Com a percepo fina e apurada de sempre, busca esclarecer, registrar e
apreender de que forma o homem sem vnculos -- figura central dos tempos modernos -- se conecta.

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Sumrio

Prefcio..........................................................................................................................................................6
1. Apaixonar-se e desapaixonar-se................................................................................................................9
2. Dentro e fora da caixa de ferramentas da sociabilidade..........................................................................27
3. Sobre a dificuldade de amar o prximo...................................................................................................46
4. Convvio destrudo...................................................................................................................................66
Notas............................................................................................................................................................84
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                                               Prefcio

Ulrich, o heri do grande romance de Robert Musil, era -- como anunciava o ttulo da obra -- Der Mann
ohne Eigenschaften: o homem sem qualidades. No tendo qualidades prprias, herdadas ou adquiridas e
incorporadas, Ulrich teve de produzir por conta prpria quaisquer qualidades que desejasse possuir,
usando a perspiccia e a sagacidade de que era dotado; mas nenhuma delas tinha a garantia de perdurar
indefinidamente num mundo repleto de sinais confusos, propenso a mudar com rapidez e de forma
imprevisvel.
        O heri de seu livro  Der Mann ohne Verwandtschaften -- o homem sem vnculos, e
particularmente vnculos imutveis como os de parentesco no tempo de Ulrich. No tendo ligaes
indissolveis e definitivas, o heri de seu livro -- o cidado de nossa lquida sociedade moderna -- e
seus atuais sucessores so obrigados a amarrar um ao outro, por iniciativa, habilidades e dedicao
prprias, os laos que porventura pretendam usar com o restante da humanidade. Desligados, precisam
conectar-se... Nenhuma das conexes que venham a preencher a lacuna deixada pelos vnculos ausentes
ou obsoletos tem, contudo, a garantia da permanncia. De qualquer modo, eles s precisam ser
frouxamente atados, para que possam ser outra vez desfeitos, sem grandes delongas, quando os cenrios
mudarem -- o que, na modernidade liquida, decerto ocorrer repetidas vezes.
        A misteriosa fragilidade dos vnculos humanos, o sentimento de insegurana que ela inspira e os
desejos conflitantes (estimulados por tal sentimento) de apertar os laos e ao mesmo tempo mant-los
frouxos,  o que este livro busca esclarecer, registrar e apreender.
        Carecendo da viso aguda de Musil, tanto quanto da riqueza de sua palheta e da sutileza de suas
pinceladas -- de fato, de quaisquer dos requintados talentos que fizeram de Der Mann ohne
Eigenschaften um retrato definitivo do homem moderno --, devo restringir-me a traar um painel de
esboos imperfeitos e fragmentrios, em lugar de tentar produzir uma imagem completa. O mximo que
posso esperar obter  um kit identitrio, um retraio compsito capaz de conter tanto lacunas e espaos em
branco quanto sees completas. Mesmo essa composio final, contudo, ser um trabalho inacabado, a
ser concludo pelos leitores.
        O principal heri deste livro  o relacionamento humano. Seus personagens centrais so homens e
mulheres, nossos contemporneos, desesperados por terem sido abandonados aos seus prprios sentidos e
sentimentos facilmente descartveis, ansiando pela segurana do convvio e pela mo amiga com que
possam contar num momento de aflio, desesperados por "relacionar-se" e, no entanto desconfiados da
condio de "estar ligado" em particular de estar ligado "permanentemente" para no dizer eternamente,
pois temem que tal condio possa trazer encargos e tenses que eles no se consideram aptos nem
dispostos a suportar, e que podem limitar severamente a liberdade de que necessitam para -- sim, seu
palpite est certo -- relacionar-se...
        Em nosso mundo de furiosa "individualizao", os relacionamentos so bnos ambguas.
Oscilam entre o sonho e o pesadelo, e no h como determinar quando um se transforma no outro. Na
maior parte do tempo, esses dois avatares coabitam embora em diferentes nveis de conscincia. No
lquido cenrio da vida moderna, os relacionamentos talvez sejam os representantes mais comuns,
agudos, perturbadores e profundamente sentidos da ambivalncia.  por isso, podemos garantir, que se
encontram to firmemente no cerne das atenes dos modernos e lquidos indivduos-por-decreto, e no
topo de sua agenda existencial.
        "Relacionamento"  o assunto mais quente do momento, e aparentemente o nico jogo que vale a
pena, apesar de seus bvios riscos. Alguns socilogos, acostumados a compor teorias a partir de
questionrios, estatsticas e crenas baseadas no senso comum, apressam-se em concluir que seus
contemporneos esto totalmente abertos a amizades, laos, convvio, comunidade. De fato, contudo
(como se segussemos a regra de Martin Heidegger de que as coisas s se revelam  conscincia por meio
da frustrao que provocam -- fracassando, desaparecendo, comportando-se de forma inadequada ou
negando sua natureza de alguma outra forma), hoje em dia as atenes humanas tendem a se concentrar
nas satisfaes que esperamos obter das relaes precisamente porque, de alguma forma, estas no tm
sido consideradas plena e verdadeiramente satisfatrias. E, se satisfazem, o preo disso tem sido com
freqncia considerado excessivo e inaceitvel. Em seu famoso experimento, Miller e Dollard viram seus
ratos de laboratrio atingirem o auge da excitao e da agitao quando "a atrao se igualou  repulso"
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ou seja, quando a ameaa do choque eltrico e a promessa de comida saborosa finalmente atingiram o
equilbrio...
        No admira que os "relacionamentos" estejam entre os principais motores do atual "boom do
aconselhamento". A complexidade  densa, persistente e difcil demais para ser desfeita ou destrinchada
sem auxlio. A agitao dos ratos de Miller e Dollard resultava freqentemente na paralisia da ao. A
incapacidade de escolher entre atrao e repulso, entre esperanas e temores, redundava na incapacidade
de agir. De modo diferente dos ratos, os seres humanos que se vem em tais circunstncias podem pedir
ajuda a especialistas que oferecem seus prstimos em troca de honorrios. O que esperam ouvir deles 
algo como a soluo do problema da quadratura do crculo: comer o bolo e ao mesmo tempo conserv-lo;
desfrutar das doces delcias de um relacionamento evitando, simultaneamente, seus momentos mais
amargos e penosos; forar uma relao a permitir sem desautorizar, possibilitar sem invalidar, satisfazer
sem oprimir...
        Os especialistas esto prontos a condescender, confiantes em que a procura por suas
recomendaes ser infinita, uma vez que nada que digam poder tornar um crculo no-circular, e
portanto passvel de ser transformado num quadrado... Suas recomendaes so copiosas, embora
geralmente se resumam a pouco mais do que elevar a prtica comum ao nvel do conhecimento comum, e
da ao status de teoria autorizada e erudita. Gratos beneficirios dessas recomendaes percorrem as
colunas de "relacionamento" em publicaes sofisticadas e nos suplementos semanais de jornais srios ou
nem tanto, para ouvir o que queriam de pessoas que "esto por dentro" (uma vez que so tmidos ou
envergonhados demais para falarem por si mesmos), para espreitar os feitos e procedimentos de "outros
como eles" e conseguir o mximo conforto possvel por saberem que no esto sozinhos em seus
solitrios esforos para enfrentar a incerteza.
        E assim os leitores aprendem com a experincia de outros leitores, reciclada pelos especialistas,
que  possvel buscar "relacionamentos de bolso" do tipo de que se "pode dispor quando necessrio" e
depois tornar a guardar. Ou que os relacionamentos so como a vitamina C: em altas doses, provocam
nuseas e podem prejudicar a sade. Tal como no caso desse remdio,  preciso diluir as relaes para
que se possa consumi-las. Ou que os CSSs -- casais semi-separados merecem louvor como
"revolucionrios do relacionamento que romperam a bolha sufocante dos casais". Ou ainda que as
relaes, da mesma forma que os automveis, devem passar por revises regulares para termos certeza de
que continuaro funcionando bem. No todo, o que aprendem  que o compromisso, e em particular o
compromisso a longo prazo,  a maior armadilha a ser evitada no esforo por "relacionar-se". Um
especialista informa aos leitores: "Ao se comprometerem, ainda que sem entusiasmo, lembrem-se de que
possivelmente estaro fechando a porta a outras possibilidades romnticas talvez mais satisfatrias e
completas". Outro mostra-se ainda mais insensvel: "A longo prazo, as promessas de compromisso so
irrelevantes. Como outros investimentos, elas alternam perodos de alta e baixa". E assim, se voc deseja
"relacionar-se", mantenha distncia; se quer usufruir do convvio, no assuma nem exija compromissos.
Deixe todas as portas sempre abertas.
        Se lhes perguntassem, os habitantes de Lenia, uma das cidades invisveis de talo Calvino, diriam
que sua paixo  "desfrutar coisas novas e diferentes": De fato. A cada manh eles "vestem roupas novas
em folha, tiram latas fechadas do mais recente modelo de geladeira, ouvindo jingles recm-lanados na
estao de rdio mais quente do momento". Mas a cada manh "as sobras da Lenia de ontem aguardam
pelo caminho de lixo" e cabe indagar se a verdadeira paixo dos leonianos na verdade no seria "o
prazer de expelir, descartar, limpar-se de uma impureza recorrente". Caso contrrio, por que os varredores
de rua seriam "recebidos como anjos" mesmo que sua misso fosse "cercada de um silncio respeitoso"
(o que  compreensvel: "ningum quer voltar a pensar em coisas que j foram rejeitadas")?
        Pensemos...
        Ser que os habitantes de nosso lquido mundo moderno no so exatamente como os de Lenia,
preocupados com uma coisa e falando de outra? Eles garantem que seu desejo, paixo, objetivo ou sonho
 "relacionar-se", Mas ser que na verdade no esto preocupados principalmente em evitar que suas
relaes acabem congeladas e coaguladas? Esto mesmo procurando relacionamentos duradouros, como
dizem, ou seu maior desejo  que eles sejam leves e frouxos, de tal modo que, como as riquezas de
Richard Baxter, que "cairiam sobre os ombros como um manto leve" possam "ser postos de lado a
qualquer momento"? Afinal, que tipo de conselho eles querem de verdade: como estabelecer um
relacionamento ou -- s por precauo -- como romp-lo sem dor e com a conscincia limpa? No h
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uma resposta fcil a essa pergunta, embora ela precise ser respondida e v continuar sendo feita, 
medida que os habitantes do lquido mundo moderno seguirem sofrendo sob o peso esmagador da mais
ambivalente entre as muitas tarefas com que se defrontam no dia-a-dia.
        Talvez a prpria idia de "relacionamento" contribua para essa confuso. Apesar da firmeza que
caracteriza as tentativas dos infelizes caadores de relacionamentos e seus especialistas, essa noo resiste
a ser plena e verdadeiramente purgada de suas conotaes perturbadoras e preocupantes. Permanece cheia
de ameaas vagas e premonies sombrias; fala ao mesmo tempo dos prazeres do convvio e dos horrores
da clausura. Talvez seja por isso que, em vez de relatar suas experincias e expectativas utilizando termos
como "relacionar-se" e "relacionamentos" as pessoas falem cada vez mais (auxiliadas e conduzidas pelos
doutos especialistas) em conexes, ou "conectar-se" e "ser conectado". Em vez de parceiros, preferem
falar em "redes". Quais so os mritos da linguagem da "conectividade" que estariam ausentes da
linguagem dos "relacionamentos"?
        Diferentemente de "relaes", "parentescos", "parcerias" e noes similares -- que ressaltam o
engajamento mtuo ao mesmo tempo em que silenciosamente excluem ou omitem o seu oposto, a falta de
compromisso --, uma "rede" serve de matriz tanto para conectar quanto para desconectar; no  possvel
imagin-la sem as duas possibilidades. Na rede, elas so escolhas igualmente legtimas, gozam do mesmo
status e tm importncia idntica. No faz sentido perguntar qual dessas atividades complementares
constitui "sua essncia"! A palavra "rede" sugere momentos nos quais "se est em contato" intercalados
por perodos de movimentao a esmo. Nela as conexes so estabelecidas e cortadas por escolha. A
hiptese de um relacionamento "indesejvel, mas impossvel de romper"  o que torna "relacionar-se" a
coisa mais traioeira que se possa imaginar. Mas uma "conexo indesejvel"  um paradoxo. As conexes
podem ser rompidas, e o so, muito antes que se comece a detest-las.
        Elas so "relaes virtuais". Ao contrrio dos relacionamentos antiquados (para no falar daqueles
com "compromisso" muito menos dos compromissos de longo prazo), elas parecem feitas sob medida
para o lquido cenrio da vida moderna, em que se espera e se deseja que as "possibilidades romnticas"
(e no apenas romnticas) surjam e desapaream numa velocidade crescente e em volume cada vez maior,
aniquilando-se mutuamente e tentando impor aos gritos a promessa de "ser a mais satisfatria e a mais
completa". Diferentemente dos "relacionamentos reais"  fcil entrar e sair dos "relacionamentos
virtuais". Em comparao com a "coisa autntica", pesada, lenta e confusa, eles parecem inteligentes e
limpos, fceis de usar, compreender e manusear. Entrevistado a respeito da crescente popularidade do
namoro pela Internet, em detrimento dos bares para solteiros e das sees especializadas dos jornais e
revistas, um jovem de 28 anos da Universidade de Bath apontou uma vantagem decisiva da relao
eletrnica: "Sempre se pode apertar a tecla de deletar".
        Como que obedecendo  lei de Gresham, as relaes virtuais (rebatizadas de "conexes")
estabelecem o padro que orienta todos os outros relacionamentos. Isso no traz felicidade aos homens e
mulheres que se rendem a essa presso; dificilmente se poderia imagin-los mais felizes agora do que
quando se envolviam nas relaes pr-virtuais. Ganha-se de um lado, perde-se de outro.
        Como apontou Ralph Waldo Emerson, quando se esquia sobre gelo fino, a salvao est na
velocidade. Quando se  trado pela qualidade, tende-se a buscar a desforra na quantidade. Se "os
compromissos so irrelevantes" quando as relaes deixam de ser honestas e parece improvvel que se
sustentem, as pessoas se inclinam a substituir as parcerias pelas redes. Feito isso, porm, estabelecer-se
fica ainda mais difcil (e adivel) do que antes -- pois agora no se tem mais a habilidade que faz, ou
poderia fazer, a coisa funcionar. Estar em movimento, antes um privilgio e uma conquista, torna-se uma
necessidade. Manter-se em alta velocidade, antes uma aventura estimulante, vira uma tarefa cansativa.
Mais importante, a desagradvel incerteza e a irritante confuso, supostamente escorraadas pela
velocidade, recusam-se a sair de cena. A facilidade do desengajamento e do rompimento (a qualquer
hora) no reduzem os riscos, apenas os distribuem de modo diferente, junto com as ansiedades que
provocam.
        Este livro  dedicado aos riscos e ansiedades de se viver junto, e separado, em nosso lquido
mundo moderno.
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                             1. Apaixonar-se e desapaixonar-se

"Meu caro amigo, estou lhe enviando um pequeno trabalho do qual se poderia dizer, sem injustia,
que no  cabea nem rabo, j que tudo nele , ao contrrio, uma cabea e um rabo, alternada e
reciprocamente. Suplico-lhe que leve em considerao a convenincia admirvel que tal
combinao oferece a todos ns -- a voc, a mim e ao leitor. Podemos abreviar -- eu, meus
devaneios; voc, o texto; o leitor, sua leitura. Pois eu no atrelo interminavelmente a fatigada
vontade de qualquer um deles a uma trama suprflua. Retire um anel, e as duas partes desta
tortuosa fantasia voltaro a se unir sem dificuldade. Corte em pedacinhos e vai descobrir que cada
um deles tem vida prpria. Na expectativa de que alguma dessas fatias possa agrad-lo e diverti-lo,
ouso dedicar-lhe a cobra inteira."
        Foi assim que Charles Baudelaire apresentou Le spleen de Paris a seus leitores. Que pena. No
fosse por isso, eu gostaria de escrever esse mesmo prembulo, ou um parecido, sobre o texto que segue.
Mas ele o escreveu e s me resta cit-lo. Evidentemente, Walter Benjamin enfatizaria na ltima sentena
a palavra "s". E eu tambm, pensando bem.
        "Corte-a em pedacinhos e vai descobrir que cada um deles tem vida prpria." Os fragmentos que
fluam da pena de Baudelaire tinham. Se os dispersos retalhos de pensamento reunidos a seguir tambm
tero, no cabe a mim decidir, mas ao leitor.
        A famlia dos pensamentos est repleta de anes.  por isso a lgica e o mtodo foram inventados
e, depois de descobertos, adotados pelos pensadores de idias. Pigmeus podem esconder-se e acabar
esquecendo sua insignificncia em meio ao esplendor de colunas em marcha e formaes de batalha.
Cerradas as fileiras, quem vai notar o tamanho diminuto dos soldados? E possvel reunir um exrcito de
aparncia extremamente poderosa alinhando-se para o combate fileiras aps fileiras de pigmeus...
        S para satisfazer os viciados em metodologia, talvez eu devesse ter feito o mesmo com estes
fragmentos. Mas como no tenho tempo para levar a cabo essa tarefa, seria tolice de minha parte pensar
primeiro na ordem das fileiras e deixar a convocao para o final...
        Pensando bem: talvez o tempo de que disponho parea curto demais no por minha idade
avanada, mas porque, quanto mais velho voc , mais sabe que os pensamentos, embora possam parecer
grandiosos, jamais sero grandes o suficiente para abarcar a generosa prodigalidade da experincia
humana, muito menos para explic-la. O que sabemos, o que desejamos saber, o que lutamos para saber,
o que devemos tentar saber sobre amor ou rejeio, estar s ou acompanhado e morrer acompanhado ou
s - ser que tudo isso poderia ser alinhado, ordenado, adequado aos padres de coerncia, coeso e
completude estabelecidos para assuntos de menor grandeza? Talvez sim - quer dizer, na infinitude do
tempo.
        No  verdade que, quando se diz tudo sobre os principais temas da vida humana, as coisas mais
importantes continuam por dizer?

O amor e a morte -- os dois personagens principais desta histria sem trama nem desfecho, mas
que condensa a maior parte do som e da fria da vida -- admitem, mais que quaisquer outros, esse
tipo de devaneio/escrita/leitura.
        Para Ivan Klima, poucas coisas se parecem tanto com a morte quanto o amor realizado. Cada
chegada de um dos dois  sempre nica, mas tambm definitiva: no suporta repetio, no permite
recurso nem promete prorrogao. Deve sustentar-se "por si mesmo" - e consegue. Cada um deles nasce,
ou renasce, no prprio momento em que surge, sempre a partir do nada, da escurido do no-ser sem
passado nem futuro; comea sempre do comeo, desnudando o carter suprfluo das tramas passadas e a
utilidade dos enredos futuros.
        Nem no amor nem na morte pode-se penetrar duas vezes - menos ainda que no rio de Herclito.
Eles so, na verdade, suas prprias cabeas e seus prprios rabos, dispensando e descartando todos os
outros.
        Bronislaw Malinowski ironizava os difusionistas por confundirem colees de museu com
genealogias. Tendo visto toscos utenslios de pederneira expostos em estojos de vidro diante de
instrumentos mais refinados, eles falavam de uma "histria das ferramentas". Era, zombava Malinowski,
corno se um machado de pedra gerasse um outro, da mesma forma que, digamos, o hipparion deu origem,
                                                                                                        10
na plenitude do tempo, ao equus caballus. Os cavalos podem derivar de outros cavalos, mas as
ferramentas no tm ancestralidade nem descendncia. Diferentemente dos cavalos, no tm uma histria
prpria. Pode-se dizer que elas pontuam as biografias individuais e as histrias coletivas dos seres
humanos, das quais so emanaes ou sedimentos.
        Quase o mesmo se pode dizer do amor e da morte. Parentesco, afinidade, elos causais so traos
da individualidade e/ou do convvio humanos. O amor e a morte no tm histria prpria. So eventos
que ocorrem no tempo humano - eventos distintos, no conectados (muito menos de modo causal) com
eventos "similares", a no ser na viso de instituies vidas por identificar - (por inventar) -
retrospectivamente essas conexes e compreender o incompreensvel.
        Assim, no se pode aprender a amar, tal como no se pode aprender a morrer. E no se pode
aprender a arte ilusria -- inexistente, embora ardentemente desejada -- de evitar suas garras e ficar fora
de seu caminho. Chegado o momento, o amor e a morte atacaro -- mas no se tem a mnima idia de
quando isso acontecer. Quando acontecer, vai pegar voc desprevenido. Em nossas preocupaes
dirias, o amor e a morte aparecero ab nihilo -- a partir do nada. Evidentemente, todos ns tendemos a
nos esforar muito para extrair alguma experincia desse fato; tentamos estabelecer leis antecedentes,
apresentar o princpio infalvel de um post hoc corno se fosse um propter hoc, construir uma linhagem
que "faa sentido" -- e na maioria das vezes obtemos sucesso. Precisamos desse sucesso pelo conforto
espiritual que ele nos traz: faz ressurgir, ainda que de forma circular, a f na regularidade do mundo e na
previsibilidade dos eventos, indispensvel para a nossa sade mental. Tambm evoca uma iluso de
sabedoria conquistada, de aprendizado, e sobretudo de uma sabedoria que se pode aprender, tal como
aprendemos a usar os cnones da induo de J. S. Mill, a dirigir automveis, a comer com pauzinhos em
vez de garfos ou a produzir uma impresso favorvel em nossos entrevistadores.
        No caso da morte, o aprendizado se restringe de fato  experincia de outras pessoas, e portanto
constitui uma iluso in extremis. A experincia alheia no pode ser verdadeiramente aprendida como tal;
no  possvel distinguir, no produto final da descoberta do objeto, entre o Erlebnis original e a
contribuio criativa trazida pela capacidade de imaginao do sujeito. A experincia dos outros s pode
ser conhecida como a histria manipulada e interpretada daquilo por que eles passaram. No mundo real,
tal como nos desenhos de Tom & Jerry, talvez alguns gatos tenham sete vidas ou at mais, e talvez alguns
convertidos possam acreditar na ressurreio - mas permanece o fato de que a morte, assim como o
nascimento, s ocorre uma vez. No h como aprender a "fazer certo na prxima oportunidade" com um
evento que jamais voltaremos a vivenciar.

O amor parece desfrutar de um status diferente do de outros acontecimentos nicos.
        De fato,  possvel que algum se apaixone mais de uma vez, e algumas pessoas se gabam - ou se
queixam - de que apaixonar-se ou desapaixonar-se  algo que lhes acontece (assim como a outras pessoas
que vm a conhecer nesse processo) de modo muito fcil. Todos ns j ouvimos histrias sobre essas
pessoas particularmente "propensas" ou "vulnerveis" ao amor.
        H bases bastante slidas para se ver o amor, e em particular a condio de "apaixonado" como --
quase que por sua prpria natureza -- uma condio recorrente, passvel de repetio, que inclusive nos
convida a seguidas tentativas. Pressionados, a maioria de ns poderia enumerar momentos em que nos
sentimos apaixonados e de fato estvamos. Pode-se supor (mas ser uma suposio fundamentada) que
em nossa poca cresce rapidamente o nmero de pessoas que tendem a chamar de amor mais de uma de
suas experincias de vida, que no garantiriam que o amor que atualmente vivenciam  o ltimo e que
tm a expectativa de viver outras experincias como essa no futuro. No devemos nos surpreender se essa
suposio se mostrar correta. Afinal, a definio romntica do amor como "at que a morte nos separe"
est decididamente fora de moda, tendo deixado para trs seu tempo de vida til em funo da radical
alterao das estruturas de parentesco s quais costumava servir e de onde extraia seu vigor e sua
valorizao. Mas o desaparecimento dessa noo significa, inevitavelmente, a facilitao dos testes pelos
quais uma experincia deve passar para ser chamada de "amor": Em vez de haver mais pessoas atingindo
mais vezes os elevados padres do amor, esses padres foram baixados. Como resultado, o conjunto de
experincias s quais nos referimos com a palavra amor expandiu-se muito. Noites avulsas de sexo so
referidas pelo codinome de "fazer amor".
        A sbita abundncia e a evidente disponibilidade das "experincias amorosas" podem alimentar (e
de fato alimentam) a convico de que amar (apaixonar-se, instigar o amor)  uma habilidade que se pode
                                                                                                        11
adquirir, e que o domnio dessa habilidade aumenta com a prtica e a assiduidade do exerccio. Pode-se
at acreditar (e freqentemente se acredita) que as habilidades do fazer amor tendem a crescer com o
acmulo de experincias que o prximo amor ser uma experincia ainda mais estimulante do que a que
estamos vivendo atualmente, embora no to emocionante ou excitante quanto a que vir depois.
        Essa , contudo, outra iluso... O conhecimento que se amplia juntamente com a srie de eventos
amorosos  o conhecimento do "amor" como episdios intensos, curtos e impactantes, desencadeados
pela conscincia a priori de sua prpria fragilidade e curta durao. As habilidades assim adquiridas so
as de "terminar rapidamente e comear do incio" das quais, segundo Soren Kierkegaard, o Don Giovanni
de Mozart era o virtuoso arquetpico. Guiado pela compulso de tentar novamente, e obcecado em evitar
que cada sucessiva tentativa do presente pudesse atrapalhar uma outra no futuro, Don Giovanni era
tambm um arquetpico "impotente amoroso". Se o propsito dessa busca e experimentao infatigveis
fosse o amor, a compulso a experimentar frustraria esse propsito.  tentador afirmar que o efeito dessa
aparente "aquisio de habilidades" tende a ser, como no caso de Don Giovanni, o desaprendizado do
amor - uma "exercitada incapacidade" para amar.
        Um resultado como esse - a vingana do amor, por assim dizer, sobre aqueles que ousam desafiar-
lhe a natureza - seria de se esperar. Pode-se aprender a desempenhar uma atividade em que haja um
conjunto de regras invariveis correspondendo a um cenrio estvel e monotonamente repetitivo que
favorea o aprendizado, a memorizao e a manuteno dessa simulao. Num ambiente instvel, fixar e
adquirir hbitos - marcas registradas do aprendizado exitoso - no so apenas contraproducentes, mas
podem mostrar-se fatais em suas conseqncias. O que  mortal para os ratos dos esgotos urbanos -
aquelas criaturas inteligentssimas capazes de aprender rapidamente a distinguir comidas de iscas
venenosas -  o elemento de instabilidade, de desafio s regras, inserido na rede de calhas e dutos
subterrneos pela "alteridade" irregular, inapreensvel, imprevisvel e verdadeiramente impenetrvel de
outras criaturas inteligentes - os seres humanos, com sua notria tendncia a quebrar a rotina e derrubar a
distino entre o regular e o contingente. Se essa distino no se sustenta, o aprendizado (entendido
como a aquisio de hbitos teis) est fora de questo. Os que insistem em orientar suas aes de acordo
com precedentes, como aqueles generais conhecidos por lutar novamente sua ltima guerra vitoriosa,
assumem riscos suicidas e no favorecem a eliminao dos problemas.

 da natureza do amor -- como Lucano observou h dois milnios e Francis Bacon repetiu muitos
sculos depois -- ser refm do destino.
        No Banquete de Plato, a profetisa Diotima de Mantinia ressaltou para Scrates, com a sincera
aprovao deste, que "o amor no se dirige ao belo, como voc pensa; dirige-se  gerao e ao
nascimento no belo". Amar  querer "gerar e procriar", e assim o amante "busca e se ocupa em encontrar
a coisa bela na qual possa gerar". Em outras palavras, no  ansiando por coisas prontas, completas e
concludas que o amor encontra o seu significado, mas no estmulo a participar da gnese dessas coisas. O
amor  afim  transcendncia; no  seno outro nome para o impulso criativo e como tal carregado de
riscos, pois o fim de uma criao nunca  certo.
        Em todo amor h pelo menos dois seres, cada qual a grande incgnita na equao do outro.  isso
que faz o amor parecer um capricho do destino  aquele futuro estranho e misterioso, impossvel de ser
descrito antecipadamente, que deve ser realizado ou protelado, acelerado ou interrompido. Amar significa
abrir-se ao destino, a mais sublime de todas as condies humanas, em que o medo se funde ao regozijo
num amlgama irreversvel. Abrir-se ao destino significa, em ltima instncia, admitir a liberdade no ser:
aquela liberdade que se incorpora no Outro, o companheiro no amor. "A satisfao no amor individual
no pode ser atingida sem a humildade, a coragem, a f e a disciplina verdadeiras", afirma Erich Fromm 
apenas para acrescentar adiante, com tristeza, que em "uma cultura na qual so raras essas qualidades,
atingir a capacidade de amar ser sempre, necessariamente, uma rara conquista" 1.
        E assim  numa cultura consumista como a nossa, que favorece o produto pronto para uso
imediato, o prazer passageiro, a satisfao instantnea, resultados que no exijam esforos prolongados,
receitas testadas, garantias de seguro total e devoluo do dinheiro. A promessa de aprender a arte de
amar  a oferta (falsa, enganosa, mas que se deseja ardentemente que seja verdadeira) de construir a

1
    Erich Fromm, The Art of Loving. Londres, Thorsons, (1957), 1995, p.vii.
                                                                                                      12
"experincia amorosa"  semelhana de outras mercadorias, que fascinam e seduzem exibindo todas
essas caractersticas e prometem desejo sem ansiedade, esforo sem suor e resultados sem esforo.
       Sem humildade e coragem no h amor. Essas duas qualidades so exigidas, em escalas enormes e
contnuas, quando se ingressa numa terra inexplorada e no-mapeada. E  a esse territrio que o amor
conduz ao se instalar entre dois ou mais seres humanos.

Eros, como insiste Levinas2, difere da posse e do poder; no  nem uma batalha nem uma fuso -- e
nem tampouco conhecimento.
        Eros  "uma relao com a alteridade, com o mistrio, ou seja, com o futuro, com o que est
ausente do mundo que contm tudo o que ..". "O pathos do amor consiste na intransponvel dualidade
dos seres". Tentativas de superar essa dualidade, de abrandar o obstinado e domar o turbulento, de tornar
prognosticvel o incognoscvel e de acorrentar o nmade tudo isso soa como um dobre de finados para o
amor. Eros no quer sobreviver  dualidade. Quando se trata de amor, posse, poder, fuso e desencanto
so os Quatro Cavaleiros do Apocalipse.
        Nisso reside a assombrosa fragilidade do amor, lado a lado com sua maldita recusa em suportar
com leveza a vulnerabilidade. Todo amor empenha-se em subjugar, mas quando triunfa encontra a
derradeira derrota. Todo amor luta para enterrar as fontes de sua precariedade e incerteza, mas, se obtm
xito, logo comea a se enfraquecer -- e definhar. Eros  possudo pelo fantasma de Tanatos, que
nenhum encantamento mgico  capaz de exorcizar. A questo no  a precocidade de Eros, e no h
instruo ou expedientes autodidticos que possam libert-lo de sua mrbida -- suicida -- inclinao.
        O desafio, a atrao e a seduo do Outro tornam toda distncia, ainda que reduzida e minscula,
insuportavelmente grande. A abertura tem a aparncia de um precipcio. Fuso e subjugao parecem ser
as nicas curas para o tormento. E no h seno uma tnue fronteira,  qual facilmente se fecham os
olhos, entre a carcia suave e gentil e a garra que aperta, implacvel. Eros no pode ser fiel a si mesmo
sem praticar a primeira, mas no pode pratic-la sem correr o risco da segunda. Eros move a mo que se
estende na direo do outro -- mas mos que acariciam tambm podem prender e esmagar.

No importa o que voc aprendeu sobre amor e amar, sua sabedoria s pode vir, tal como o Messias
de Kafka, um dia depois de sua chegada.
       Enquanto vive, o amor paira  beira do malogro. Dissolve seu passado  medida que prossegue.
No deixa trincheiras onde possa buscar abrigo em caso de emergncia. E no sabe o que est pela frente
e o que o futuro pode trazer. Nunca ter confiana suficiente para dispersar as nuvens e abafar a
ansiedade. O amor  uma hipoteca baseada num futuro incerto e inescrutvel.
       O amor pode ser, e freqentemente , to atemorizante quanto a morte. S que ele encobre essa
verdade com a comoo do desejo e do excitamento. Faz sentido pensar na diferena entre amor e morte
como na que existe entre atrao e repulsa. Pensando bem, contudo, no se pode ter tanta certeza disso.
As promessas do amor so, via de regra, menos ambguas do que suas ddivas. Assim, a tentao de
apaixonar-se  grande e poderosa, mas tambm o  a atrao de escapar. E o fascnio da procura de uma
rosa sem espinhos nunca est muito longe, e  sempre difcil de resistir.

Desejo e amor. Irmos. Por vezes gmeos; nunca, porm, gmeos idnticos (univitelinos).
       Desejo  vontade de consumir. Absorver, devorar, ingerir e digerir -- aniquilar. O desejo no
precisa ser instigado por nada mais do que a presena da alteridade. Essa presena  desde sempre uma
afronta e uma humilhao. O desejo  o mpeto de vingar a afronta e evitar a humilhao.  uma
compulso a preencher a lacuna que separa da alteridade, na medida em que esta acena e repele, em que
seduz com a promessa do inexplorado e irrita por sua obstinada e evasiva diferena. O desejo  um
impulso que incita a despir a alteridade dessa diferena; portanto, a desempoder-la [disempower].
Provar, explorar, tornar familiar e domesticar. Disso a alteridade emergiria com o ferro da tentao
arrancado e partido -- quer dizer, se sobrevivesse ao tratamento. Mas so grandes as chances de que,
nesse processo, suas sobras indigestas caiam do reino dos produtos de consumo para o dos refugos.
       Os produtos de consumo atraem, os refugos repelem. Depois do desejo vem a remoo dos
refugos. , ao que parece, como forar o que  estranho a abandonar a alteridade e desfazer-se da
2
    Emmanuel Levinas, Le temps et i'autre. Paris, Presses Universitaires de France, 1991, p 81, 78.
                                                                                                       13
carapaa dissecada que se congela na alegria da satisfao, pronta a dissolver-se to logo se conclua a
tarefa. Em sua essncia, o desejo  um impulso de destruio. E, embora de forma oblqua, de
autodestruio: o desejo  contaminado, desde o seu nascimento, pela vontade de morrer. Esse , porm,
seu segredo mais bem guardado -- sobretudo de si mesmo.
        O amor, por outro lado,  a vontade de cuidar, e de preservar o objeto cuidado. Um impulso
centrfugo, ao contrrio do centrpeto desejo. Um impulso de expandir-se, ir alm, alcanar o que "est l
fora". Ingerir, absorver e assimilar o sujeito no objeto, e no vice-versa, como no caso do desejo. Amar 
contribuir para o mundo, cada contribuio sendo o trao vivo do eu que ama. No amor, o eu , pedao
por pedao, transplantado para o mundo. O eu que ama se expande doando-se ao objeto amado. Amar diz
respeito a auto-sobrevivncia atravs da alteridade. E assim o amor significa um estmulo a proteger,
alimentar, abrigar; e tambm  carcia, ao afago e ao mimo, ou a -- ciumentamente -- guardar, cercar,
encarcerar. Amar significa estar a servio, colocar-se  disposio, aguardar a ordem. Mas tambm pode
significar expropriar e assumir a responsabilidade. Domnio mediante renncia, sacrifcio resultando em
exaltao. O amor  irmo xifpago da sede de poder --nenhum dos dois sobreviveria  separao.
        Se o desejo quer consumir, o amor quer possuir. Enquanto a realizao do desejo coincide com a
aniquilao de seu objeto, o amor cresce com a aquisio deste e se realiza na sua durabilidade. Se o
desejo se autodestri, o amor se autoperpetua.
        Tal como o desejo, o amor  uma ameaa ao seu objeto. O desejo destri seu objeto, destruindo a
si mesmo nesse processo; a rede protetora carinhosamente tecida pelo amor em torno de seu objeto
escraviza esse objeto. O amor aprisiona e coloca o detido sob custdia. Ele prende para proteger o
prisioneiro.
        Desejo e amor encontram-se em campos opostos. O amor  uma rede lanada sobre a eternidade, o
desejo  um estratagema para livrar-se da faina de tecer redes. Fiis a sua natureza, o amor se empenharia
em perpetuar o desejo, enquanto este se esquivaria aos grilhes do amor.

"Seus olhos se cruzam na sala lotada; o brilho da atrao est l. Voc conversa, dana, ri,
compartilha um drinque ou uma piada, e quando se d conta um dos dois pergunta: 'Na sua casa
ou na minha?' Nenhum dos dois est a fim de nada srio, mas de algum modo uma noite pode virar
uma semana, depois um ms, um ano ou mais" -- observa Catherine Jarvie (no Guardian
Weekend)3.
        Esse resultado inesperado do lampejo do desejo e da noite de sexo destinada a aplac-lo , na
expresso de Jarvie, "um meio-termo emocional entre a liberdade do encontro e a seriedade de um
relacionamento significativo" (embora a "seriedade" como lembra ela a seus leitores, no impea que um
"relacionamento significativo" termine em "dificuldades e amarguras" quando um dos parceiros "mantm
o compromisso de levar a relao adiante enquanto o outro est vido por caar em outras pastagens"). As
solues de meio-termo -- como todos os outros arranjos "at segunda ordem" num ambiente fluido no
qual amarrar o futuro  algo to irrealizvel quanto apreciado -- no so necessariamente ruins (na
opinio tanto de Jarvie quanto da dra. Valerie Lamont, psicloga e especialista por ela citada). Mas
quando "voc se comprometer, mesmo que sem entusiasmo", "lembre-se de que pode estar fechando as
portas a outras possibilidades romnticas" (ou seja, renunciando ao direito de "caar em novas pastagens",
ao menos at que o parceiro reivindique esse direito antes de voc).
        Uma observao brilhante, uma avaliao sbria: voc est numa situao de escolha obrigatria.
Desejo e amor so e/ou.
        Mais observaes brilhantes: seus olhos se cruzam na sala, e quando voc se d conta... O desejo
de brincar juntos na cama se insinua do nada, e no precisa bater muito  porta para que o deixem entrar.
Talvez de modo inusual num mundo obcecado pela segurana, esse tipo de porta tem poucas fechaduras,
se  que chega a t-las. Nada de circuito fechado de televiso para examinar detidamente os intrusos e
distinguir os gatunos dos visitantes de boa-f. Verificar a compatibilidade dos signos (como nos
comerciais televisivos de uma marca de telefones celulares) pode resolver o problema.
        Dizer "desejo" talvez seja demais.  como num shopping: os consumidores hoje no compram
para satisfazer um desejo, como observou Harvie Ferguson -- compram por impulso. Semear, cultivar e
alimentar o desejo leva tempo (um tempo insuportavelmente prolongado para os padres de uma cultura

3
    Guardian Weekend, 12 jan 2002.
                                                                                                        14
que tem pavor em postergar, preferindo a "satisfao instantnea"). O desejo precisa de tempo para
germinar, crescer e amadurecer. Numa poca em que o "longo prazo"  cada vez mais curto, ainda assim
a velocidade de maturao do desejo resiste de modo obstinado  acelerao. O tempo necessrio para o
investimento no cultivo do desejo dar lucros parece cada vez mais longo -- irritante e insustentavelmente
longo.
        Os administradores de shopping centers no tm sido agraciados com esse tempo por seus
acionistas, mas tampouco desejam que as decises de compra sejam tomadas por motivos nascidos e
amadurecidos ao acaso, nem deixar seu cultivo nas mos leigas dos consumidores. Todos os motivos
necessrios para faz-los comprar devem nascer instantaneamente, enquanto passeiam pelo shopping.
Tambm podem ter morte instantnea (por suicdio assistido, na maioria dos casos), uma vez concluda a
tarefa. Sua expectativa de vida no precisa ser maior do que o tempo gasto pelos consumidores vagando
entre a entrada e a sada do shopping.
        Nos dias de hoje, os shopping centers tendem a ser planejados tendo-se em mente o sbito
despertar e a rpida extino dos impulsos, e no a incmoda e prolongada criao e maturao dos
desejos. O nico desejo que pode (e deve) ser implantado por meio da visita a um shopping  o de repetir,
vezes e vezes seguidas, o momento estimulante de "abandonar-se aos impulsos" e permitir que estes
comandem o espetculo sem que haja um cenrio predefinido. A curta expectativa de vida  o trunfo dos
impulsos, dando-lhes uma vantagem sobre os desejos. Render-se aos impulsos, ao contrrio de seguir um
desejo,  algo que se sabe ser transitrio, mantendo-se a esperana de que no deixar conseqncias
duradouras capazes de impedir novos momentos de xtase prazeroso. No caso das parcerias, e
particularmente das parcerias sexuais, seguir os impulsos em vez dos desejos significa deixar as portas es-
cancaradas "a novas possibilidades romnticas" que, como sugere a ora. Lamont e pondera Catherine
Jarvie, podem ser "mais satisfatrias e completas".

Com a ao por impulso profundamente incutida na conduta cotidiana pelos poderes supremos do
mercado de consumo, seguir um desejo  como caminhar constrangido, de modo desastrado e
desconfortvel, na direo do compromisso amoroso.
        Em sua verso ortodoxa, o desejo precisa ser cultivado e preparado, o que envolve cuidados
demorados, a rdua barganha com conseqncias inevitveis, algumas escolhas difceis e concesses
dolorosas. Mas, pior que tudo, impe que se retarde a satisfao, sem dvida o sacrifcio mais detestado
em nosso mundo de velocidade e acelerao. Em sua reencarnao radical, aguada e sobretudo compacta
como impulso, o desejo perdeu a maior parte de tais atributos protelatrios, enquanto focalizava mais de
perto o seu alvo. Tal como nos comerciais que anunciavam o surgimento dos cartes de crdito, agora no
precisamos esperar para satisfazer nossos desejos.
        Guiada pelo impulso ("seus olhos se cruzam na sala lotada"), a parceria segue o padro do
shopping e no exige mais que as habilidades de um consumidor mdio, moderadamente experiente. Tal
como outros bens de consumo, ela deve ser consumida instantaneamente (no requer maiores
treinamentos nem uma preparao prolongada) e usada uma s vez, "sem preconceito" , antes de mais
nada, eminentemente descartvel.
        Consideradas defeituosas ou no "plenamente satisfatrias", as mercadorias podem ser trocadas
por outras, as quais se espera que agradem mais, mesmo que no haja um servio de atendimento ao
cliente e que a transao no inclua a garantia de devoluo do dinheiro. Mas, ainda que cumpram o que
delas se espera, no se imagina que permaneam em uso por muito tempo. Afinal, automveis,
computadores ou telefones celulares perfeitamente usveis, em bom estado e em condies de
funcionamento satisfatrias so considerados, sem remorso, como um monte de lixo no instante em que
"novas e aperfeioadas verses" aparecem nas lojas e se tornam o assunto do momento. Alguma razo
para que as parcerias sejam consideradas uma exceo  regra?

As promessas de compromisso, escreve Adrienne Burgess, "so irrelevantes a longo prazo"4.
       E ela prossegue explicando: "O compromisso  uma conseqncia aleatria de outras coisas:
nosso grau de satisfao com o relacionamento; se ns vemos uma alternativa vivel para ele; e se lev-lo
adiante nos causaria uma perda importante em matria de investimentos (tempo, dinheiro, propriedades
4
    Adrienne Burgess, Will You StilI Love me Tomorrow (Londres, Vermilion,
2001), citado no Guardian Weckend, 26 jan 2002.
                                                                                                        15
em comum, filhos)." Mas, segundo Caryl Rusbult, "especialista em relacionamentos" da Universidade
da Carolina do Norte, "esses fatores tm altas e baixas, da mesma forma que os sentimentos de
compromisso'.
        Um dilema, de fato: voc reluta em cortar seus gastos, mas abomina a perspectiva de perder ainda
mais dinheiro na tentativa de recuper-los. Um relacionamento, como lhe dir o especialista,  um
investimento como todos os outros: voc entrou com tempo, dinheiro, esforos que poderia empregar para
outros fins, mas no empregou, esperando estar fazendo a coisa certa e esperando tambm que aquilo que
perdeu ou deixou de desfrutar acabaria, de alguma forma, sendo-lhe devolvido -- com lucro. Voc
compra aes e as mantm enquanto seu valor promete crescer, e as vende prontamente quando os lucros
comeam a cair ou outras aes acenam com um rendimento maior (o truque  no deixar passar o
momento em que isso ocorre). Se voc investe numa relao, o lucro esperado , em primeiro lugar e
acima de tudo, a segurana -- em muitos sentidos: a proximidade da mo amiga quando voc mais
precisa dela, o socorro na aflio, a companhia na solido, o apoio para sair de uma dificuldade, o consolo
na derrota e o aplauso na vitria; e tambm a gratificao que nos toma imediatamente quando nos
livramos de uma necessidade. Mas esteja alerta: quando se entra num relacionamento, as promessas de
compromisso so "irrelevantes a longo prazo".
         claro. Relacionamentos so investimentos como quaisquer outros, mas ser que alguma vez lhe
ocorreria fazer juras de lealdade s aes que acabou de adquirir? Jurar ser fiel para sempre, nos bons e
maus momentos, na riqueza e na pobreza, "at que a morte nos separe"? Nunca olhar para os lados, onde
(quem sabe?) prmios maiores podem estar acenando?
        A primeira coisa que os bons acionistas (prestem ateno: os acionistas s detm as aes, e 
possvel desfazer-se daquilo que se detm) fazem de manh  abrir os jornais nas pginas sobre mercado
de capitais para saber se  hora de manter suas aes ou desfazer-se delas.  assim tambm com outro
tipo de aes, os relacionamentos. S que nesse caso no existe um mercado em operao e ningum far
por voc o trabalho de ponderar as probabilidades e avaliar as chances (a menos que voc contrate um
especialista, da mesma forma que contrata um consultor financeiro ou um contador habilitado, embora no
caso dos relacionamentos haja uma infinidade de programas de entrevistas e "dramas da vida real"
tentando ocupar esse espao). E assim voc tem que seguir, dia aps dia, por conta prpria. Se cometer
um erro, no ter direito ao conforto de pr a culpa numa informao equivocada. Precisa estar em alerta
constante. Se cochilar ou reduzir a vigilncia, problema seu. "Estar num relacionamento" significa muita
dor de cabea, mas sobretudo uma incerteza permanente. Voc nunca poder estar plena e
verdadeiramente seguro daquilo que faz -- ou de ter feito a coisa certa ou no momento preciso.
        Parece que esse dilema no tem uma boa soluo. Pior ainda, que ele est impregnado de um
paradoxo do tipo mais desagradvel: no apenas a relao falha em termos da necessidade que deve-ria (e
espervamos que pudesse) cumprir, mas torna essa necessidade ainda mais afrontosa e exasperante. Voc
busca o relacionamento na expectativa de mitigar a insegurana que infestou sua solido; mas o
tratamento s fez expandir os sintomas, e agora voc talvez se sinta mais inseguro do que antes, ainda que
essa "nova e agravada" insegurana provenha de outras paragens. Se voc pensava que os juros de seu
investimento em companhia seriam pagos na moeda forte da segurana, parece que sua iniciativa se
baseou em falsos pressupostos.
        Isso significa problemas e nada mais que problemas -- mas no todo o problema. Comprometer-
se com um relacionamento, "irrelevante a longo prazo" (fato de que ambos os lados esto cientes!)  uma
faca de dois gumes. Faz com que manter ou confiscar o investimento seja uma questo de clculo e
deciso. Mas no h motivo para supor que seu parceiro ou parceira no deseje, se for o caso, exercitar
uma escolha semelhante, e que no esteja livre para faz-lo se e quando desejar. Essa conscincia
aumenta ainda mais sua incerteza -- e a parte acrescentada  a mais difcil de suportar. Ao contrrio de
uma escolha pessoal do tipo "pegar ou largar", no est em seu poder evitar que o parceiro ou parceira
prefira sair do negcio. H muito pouco que voc possa fazer para mudar essa deciso a seu favor. Para o
parceiro, voc  a ao a ser vendida ou o prejuzo a ser eliminado -- e ningum consulta as aes antes
de devolv-las ao mercado, nem os prejuzos antes de cort-los.
        Por todos os motivos, a viso do relacionamento como uma transao comercial no  a cura para
a insnia. Investir no relacionamento  inseguro e tende a continuar sendo, mesmo que voc deseje o
contrrio:  uma dor de cabea, no um remdio. Na medida em que os relacionamentos so vistos como
investimentos, como garantias de segurana e soluo de seus problemas, eles parecem um jogo de cara-
                                                                                                                      16
ou-coroa. A solido produz insegurana -- mas o relacionamento no parece fazer outra coisa. Numa
relao, voc pode sentir-se to inseguro quanto sem ela, ou at pior. S mudam os nomes que voc d 
ansiedade.

Se no h uma boa soluo para um dilema, se nenhuma medida aparentemente sensata e efetiva
consegue fazer com que a sada parea ao menos um pouco mais prxima, as pessoas tendem a se
comportar de modo irracional, aumentando o problema e tornando ainda menos plausvel resolv-
lo.
        Christopher Clulow, do Instituto Tavistock de Estudos Matrimoniais, outro especialista citado por
Adrienne Burges, conclui: "Quando se sentem inseguros, os amantes tendem a se portar de modo no-
construtivo, seja tentando agradar ou controlar, talvez at agredindo fisicamente -- o que provavelmente
afastar o outro ainda mais." Quando a insegurana sobe a bordo, perde-se a confiana, a ponderao e a
estabilidade da navegao.  deriva, a frgil balsa do relacionamento oscila entre as duas rochas nas
quais muitas parcerias esbarram: a submisso e o poder absolutos, a aceitao humilde e a conquista
arrogante, destruindo a prpria autonomia e sufocando a do parceiro. Chocar-se contra uma dessas rochas
afundaria at mesmo uma boa embarcao com tripulao qualificada -- o que dizer de uma balsa com
um marinheiro inexperiente que, criado na era dos acessrios, nunca teve a oportunidade de aprender a
arte dos reparos? Nenhum marinheiro atualizado perderia tempo consertando uma pea sem condies
para a navegao, preferindo troc-la por outra sobressalente. Mas na balsa do relacionamento no h
peas sobressalentes.

        O fracasso no relacionamento  muito freqentemente um fracasso na comunicao.
        Como observou Knud Lgstrup -- inicialmente o insinuante evangelista da parquia de Funen,
mais tarde o estridente filsofo da tica da Universidade de Aarhus --, h duas "perverses divergentes" 
espreita do comunicador imprevidente ou descuidado 5. Uma delas  "o tipo de associao que, devido 
preguia, ao medo ou a uma propenso  acomodao no relacionamento, consiste simplesmente em
tentar agradar um ao outro enquanto se continua fugindo do problema. Com a possvel exceo de uma
causa comum contra uma terceira pessoa, no h nada que promova mais uma relao confortvel do que
a louvao mtua". Outra perverso consiste em "nosso desejo de mudar os outros. Temos opinies
definidas sobre como fazer as coisas e sobre como os outros deveriam ser. Essas opinies carecem de
critrio, pois, quanto mais definitivas, mais necessrio se torna que evitemos ser confundidos por uma
compreenso excessiva daqueles que devem ser mudados".
         O problema  que essas perverses so, muito freqentemente, filhas do amor. A primeira delas
pode resultar do desejo de paz e conforto, como est implcito na afirmao de Lgstrup. Mas tambm
pode ser, e com freqncia , o produto do respeito amoroso pelo outro: eu amo voc, e assim permito
que voc seja como  e insiste em ser, apesar das dvidas que eu possa ter quanto  sensatez de sua
escolha. No importa o mal que sua obstinao possa me causar: no ousarei contradizer voc, muito
menos pressionar para que voc escolha entre a sua liberdade e o meu amor. Voc pode contar com a
minha aprovao, acontea o que acontecer... E j que o amor no pode deixar de ser possessivo, minha
generosidade amorosa  baseada na esperana: aquele cheque em branco  um presente do meu amor, um
presente precioso que no se encontra em outros lugares. Meu amor  o refgio tranqilo que voc
procurava e de que precisava mesmo que no procurasse. Agora voc pode sossegar e suspender a
busca...
        Eis a a possessividade amorosa -- mas uma possessividade que procura realizar-se por meio do
autocontrole.
        A segunda perverso vem de se deixar a possessividade amorosa correr livre e raivosa. O amor 
uma das respostas paliativas a essa bno/maldio da individualidade humana, que tem como um de
seus muitos atributos a solido que tende a advir da (como insinua Erich Fromm 6, seres humanos de
todas as idades e culturas so confrontados com a soluo de uma nica e mesma questo: como superar a
separao, como alcanar a unio, como transcender a vida individual e encontrar a "harmonia com o
todo"). Todo amor  matizado pelo impulso antropofgico. Todos os amantes desejam suavizar, extirpar e
5
  Knud Lngstrup, Den Etiske Fordring. [Ed. ing.: The Ethical Demand. Notre Dame, University of Notre Dame Press, 1997,
p.24-5.]
6
  Erich Fromm, The Art of Loving, op.cit.
                                                                                                                   17
expurgar a exasperadora e irritante alteridade que os separa daqueles a que amam. Separar-se do ser
amado  o maior medo do amante, e muitos fariam qualquer coisa para se livrarem de uma vez por todas
do espectro da despedida. Que melhor maneira de atingir esse objetivo do que transformar o amado numa
parte inseparvel do amante? Aonde eu for voc tambm vai; o que eu fao voc tambm faz; o que eu
aceito voc tambm aceita; o que me ofende tambm ofende a voc. Se voc no  nem pode ser meu
gmeo siams, seja o meu clone!
        A segunda perverso tem tambm outra raiz, fincada na adorao que o amante tem pelo ente
amado. Em sua introduo a uma coletnea de textos intitulada Philosophies of love 7, David L. Norton e
Mary E. Kille contam a histria de um homem que convidou alguns amigos para um jantar em que estes
conheceriam "a perfeita encarnao da Beleza, Virtude, Sabedoria e Graa -- em suma, a mais adorvel
mulher do mundo": Mais tarde no mesmo dia,  mesa do restaurante, os convidados "se esforaram para
esconder seu assombro": seria aquela "a criatura que superava Vnus, Helena e Lady Hamilton em
beleza"? Por vezes  difcil separar a adorao do ser amado da auto-adorao. Pode-se observar um trao
de um ego expansivo e no entanto inseguro, desesperado por confirmar seus mritos incertos por meio de
seu reflexo no espelho, ou, melhor ainda, num retrato lisonjeiro, cuidadosamente retocado. No  verdade
que uma parte de meu singular valor foi repassada para a pessoa que eu (lembrem-se: eu, a minha pessoa,
exercendo a minha vontade e o meu arbtrio soberanos) escolhi -- que recolhi na multido de annimos e
comuns para ser minha, somente minha, companheira? No brilho ofuscante da pessoa escolhida, minha
prpria incandescncia encontra seu reflexo resplandecente. Ele aumenta, confirma e endossa a minha
glria, levando consigo, aonde quer que v, notcias e provas dela.
        Mas ser que posso estar seguro? Eu estaria, caso no houvesse dvidas agitando-se naquela
escura masmorra do inesperado onde as tranquei na v esperana de nunca mais ouvir falar nelas.
Aflies, apreenses, receios de que a virtude possa ser imperfeita, a glria fantasiosa... de que a distncia
entre eu tal como sou e o verdadeiro eu que anseia por vir  tona, mas ainda no conseguiu, precisa ser
negociada -- e isso  uma exigncia exorbitante.
        Meu ser amado poderia ser um quadro no qual minha perfeio fosse retratada em toda a sua
magnificncia e esplendor -- mas ser que as ndoas e manchas tambm no apareceriam? Para limp-las
-- ou escond-las, caso sejam pegajosas demais para serem apagadas --,  necessrio lavar e preparar a
tela antes de se iniciar o trabalho de pintura. E depois observar cuidadosamente para garantir que traos
das antigas imperfeies no venham a surgir de seu esconderijo debaixo de sucessivas camadas de tinta.
Cada momento de sossego  prematuro -- restaurar e pintar de novo, sem folgas...
        Esse esforo incessante  tambm um trabalho de amor. O amor explode de energia criativa, que
inmeras vezes  liberada numa exploso ou fluxo contnuo de destruio.
        Nesse processo, o ser amado transformou-se numa tela -- em branco, de preferncia. Suas cores
naturais empalideceram, de modo a no se chocar com a figura do pintor, nem desfigur-la. O pintor no
precisa indagar da tela como esta se sente, l embaixo, sob toda aquela tinta. As telas de lona ou de linho
no apresentam relatrios voluntariamente -- embora as telas humanas por vezes o faam.

Pode ser amor num lampejo, amor  primeira vista; mas o tempo, longo ou curto, deve transcorrer
entre a pergunta e a resposta, a proposta e sua aceitao.
        O tempo transcorrido nunca  to curto a ponto de permitir que aquele que perguntou e aquele que
respondeu permaneam, no momento em que chega a resposta, os mesmos seres que eram quando o
relgio foi posto para funcionar. Como diz Franz Rosenzweig, "a resposta  dada por uma pessoa
inevitavelmente diferente daquela a quem foi feita a pergunta, e ela  dada a algum que mudou desde
que perguntou.  impossvel saber a profundidade dessa mudana" 8. Fazer a pergunta, esperar a resposta,
ser indagado, esforar-se para responder -- isso  que fez a diferena.
        Ambos os parceiros sabiam que a mudana estava ocorrendo e lhe deram boas-vindas.
Mergulharam de cabea em guas inexploradas. A oportunidade de se abrirem  aventura do
desconhecido e do imprevisvel era a maior das sedues do amor. "O primeiro alvio da tenso no jogo
encantado do amor geralmente vem quando os amantes se chamam um ao outro pelo primeiro nome. Esse
ato se coloca como a solitria garantia de que os passados dos dois indivduos sero incorporados aos
7
 David L. Norton e Mary E. KiIle (orgs.), Philosophies of Love. Nova York, Helix Books, 1971.
8
 Franz Rosenzweig, Das Bchlein vom gesunden und kranken Menschenverstand. {Ed. ing.: Understanding the sick and the
healthy. Org. N.N. Glatzer, Harvard, Harvard University Press, 1999.]
                                                                                                       18
seus presentes." E -- permitam-me acrescentar -- a presteza em incorporar futuros compartilhados aos
presentes individuais parcialmente compartilhados, parcialmente separados. O futuro que se segue a essa
incorporao diferir, forosamente, do presente, tal como este difere do passado. Joo ser Joo e Maria,
Maria ser Maria e Joo.
        Odo Marquard falou, no necessariamente com ironia, do parentesco etimolgico entre zwei e
Zweifel ("dois" e "dvida") e insinuou que o elo entre essas palavras vai alm da simples aliterao. Onde
h dois no h certeza. E quando o outro  reconhecido como um "segundo" plenamente independente,
soberano -- e no uma simples extenso, eco, ferramenta ou empregado trabalhando para mim, o
primeiro -- a incerteza  reconhecida e aceita. Ser duplo significa consentir em indeterminar o futuro.
        Franz Kafka observou que somos duplamente distintos de Deus. Tendo comido da rvore do bem
e do mal, ns nos distinguimos Dele, enquanto o fato de no termos comido da rvore da vida O distingue
de ns. Ele (a eternidade, na qual se abraam todos os seres e seus feitos, em que tudo que pode ser , e
tudo que pode acontecer acontece) est prximo de ns. Fadado a permanecer secreto -- eternamente
alm de nossa compreenso. Mas sabemos disso, o que no nos permite ter sossego. Desde a fracassada
tentativa de erigir a Torre de Babel, no podemos deixar de tentar e errar e fracassar e tentar novamente.
        Tentar o qu? Rejeitar essa distino, rejeitara negao do direito aos frutos da rvore da vida.
Prosseguir tentando e fracassar nas tentativas  humano, demasiadamente humano. Se a alteridade ,
segundo Levinas, o derradeiro mistrio, o absolutamente desconhecido e o totalmente impenetrvel, isso
no pode ser uma ofensa e um desafio -- precisamente por ser divino: barrando o acesso, negando o
ingresso, inatingvel e eternamente alm do nosso alcance. Mas (como Rozenberg insiste em nos lembrar)
"o ilimitado no pode ser alcanado por meio da organizao... As coisas mais elevadas no podem ser
planejadas. Imediatez  tudo para elas".
        Imediatez para qu? "O discurso  amarrado ao tempo e por ele nutrido... No sabe de antemo
onde vai terminar. Segue o exemplo de outros. De fato, vive em virtude da vida de outro... Na conversa
real, alguma coisa acontece." Rosenzwelg explica quem  esse "outro", por cuja vida vive o discurso de
modo a que alguma coisa possa acontecer na conversa: esse outro " sempre um algum bem definido"
que no tem "apenas ouvidos, como 'todo o mundo, mas tambm uma boca".
         exatamente isso que faz o amor: destaca um outro de "todo mundo" e por meio desse ato
remodela "um" outro transformando-o num "algum bem definido, dotado de uma boca que se pode ouvir
e com quem  possvel conversar de modo a que alguma coisa seja capaz de acontecer.
        E o que seria essa "alguma coisa"? Amar significa manter a resposta pendente ou evitar fazer a
pergunta. Transformar um outro num algum definido significa tornar indefinido o futuro. Significa
concordar com a indefinibilidade do futuro. Concordar com uma vida vivida, da concepo ao
desaparecimento, no nico local reservado aos seres humanos: aquela vaga extenso entre a finitude de
seus feitos e a infinidade de seus objetivos e conseqncias.

"As relaes de bolso" explica Catherine Jarvie, comentando as opinies de Gillian Walton, do
Guia Matrimonial de Londres 9, so assim chamadas porque voc as guarda no bolso de modo a
poder lanar mo delas quando for preciso.
       Uma relao de bolso bem sucedida, diz Jarvie,  doce e de curta durao. Podemos supor que seja
doce porque tem curta durao, e que sua doura se abrigue precisamente naquela reconfortante
conscincia de que voc no precisa sair do seu caminho nem se desdobrar para mant-la intacta por um
tempo maior. De fato, voc no precisa fazer nada para aproveit-la. Uma "relao de bolso"  a
encarnao da instantaneidade e da disponibilidade.
       No que o seu relacionamento v adquirir essas assombrosas qualidades sem que algumas
condies tenham sido previamente atendidas. Observe que  voc quem deve atend-las -- outro ponto
favorvel a um relacionamento "de bolso", sem dvida, j que  voc e s voc que est no controle, e
nele permanece por toda a curta vida dessa relao.
       Primeira condio: deve-se entrar no relacionamento plenamente consciente e totalmente sbrio.
Lembre-se: nada de "amor  primeira vista" aqui. Nada de apaixonar-se... Nada daquela sbita torrente de
emoes que nos deixa sem flego e com o corao aos pulos. Nem as emoes que chamamos de "amor"
nem aquelas que sobriamente descrevemos como "desejo". No se deixe dominar nem arrebatar, e acima
de tudo no deixe que lhe arranquem das mos a calculadora. E no se permita tomar o motivo da relao
9
    Guardian Weekend, 9 mar 2002.
                                                                                                        19
em que voc est para entrar por aquilo que ele no  nem deve ser. A convenincia  a nica coisa que
conta, e isso  algo para uma cabea fria, no para um corao quente (muito menos superaquecido).
Quanto menor a hipoteca, menos inseguro voc vai se sentir quando for exposto s flutuaes do mercado
imobilirio futuro; quanto menos investir n o relacionamento, menos inseguro vai se sentir quando for
exposto s flutuaes de suas emoes futuras.
        Segunda condio: mantenha-o do jeito que . Lembre-se de que no  preciso muito tempo para
que a convenincia se converta no seu oposto. Assim, no deixe o relacionamento escapar  superviso do
chefe, no lhe permita desenvolver sua lgica prpria e, especialmente, adquirir direitos de propriedade
-- no deixe que caia do bolso, que  seu lugar. Fique alerta. No durma no ponto. Observe atentamente
at mesmo as menores mudanas naquilo que Jarvie chama de "subcorrentes emocionais" (obviamente, as
emoes tendem a se transformar em "subcorrentes" quando deixadas livres das amarras do clculo). Se
notar alguma coisa que voc no negociou e para a qual no liga, saiba que " hora de seguir adiante".  o
trfego que sustenta todo o prazer.
        Mantenha o bolso livre e preparado. Logo vai precisar pr alguma coisa nele e -- cruze os dedos
-- voc vai conseguir...

A seo "Esprito dos relacionamentos" do Guardian Weekend vale ser lida toda semana, mas 
melhor ainda ler vrias edies de uma vez.
        A cada semana ela oferece conselhos sobre como proceder diante de um "problema" que, cedo ou
tarde, a maioria dos homens e mulheres (principalmente leitores do Guardian) deve --mais propriamente
espera -- enfrentar. A cada semana um problema; mas depois de uma seqncia de semanas o leitor
dedicado e atento pode obter bem mais do que algumas habilidades especficas em matria de poltica de
vida, que podem ser teis em situaes especficas que surgem quando se lida com problemas especficos;
habilidades que, uma vez adquiridas e combinadas, podem ajudar a criar os tipos de situaes para cujo
manejo foram concebidas, assim como a identificar e localizar os problemas para cujo enfrentamento
foram planejadas. Um leitor regular e dedicado que seja abenoado com uma capacidade de memorizao
por um tempo maior do que uma semana pode desenhar e preencher um mapa de vida completo no qual
os "problemas" tendam a aflorar, registrar um inventrio total desses problemas e formar uma opinio
sobre sua relativa freqncia ou raridade. Num mundo em que a seriedade de algo  representada apenas
por nmeros, e portanto s pode ser apreendida dessa maneira (a qualidade de um sucesso musical pelo
nmero de discos vendidos, de um evento ou performance pblicos pelo nmero de espectadores de
televiso, de uma figura pblica pelo nmero de pessoas presentes ao seu enterro, de intelectuais na
opinio do pblico pelo nmero de citaes e referncias), a elevada freqncia com que alguns
"problemas" retornam  coluna, semana aps semana aps semana,  a prova de sua relevncia para uma
vida de sucesso, e assim da importncia das habilidades concebidas para enfrent-los.
        Desse modo, vendo-se os relacionamentos pelo prisma da coluna "Esprito dos relacionamentos",
o que um leitor fiel pode aprender sobre a importncia relativa das coisas e das tcnicas para lidar com
elas?
        O leitor pode ter uma srie de dicas teis sobre os lugares onde podem ser encontrados, em
quantidades maiores que o usual, parceiros para possveis relacionamentos, assim como sobre as situaes
em que  mais provvel que estes possam ser convencidos ou persuadidos a assumir esse papel. E ele ou
ela deve saber que iniciar um relacionamento  um "problema" -- ou seja, apresenta uma dificuldade que
produz confuso e ocasiona tenses desagradveis que, para serem enfrentadas e afastadas, tornam
necessria certa dose de conhecimento e know-how. Isso pode ser aprendido --sem muito esforo, apenas
seguindo-se regularmente, semana aps semana, a verso de esprito do relacionamento do Guardian
Weekend.
        Essa no ser, contudo, a principal verso passvel de se capilarizar e enraizar na viso de vida e
de poltica de vida do leitor regular. A arte de romper o relacionamento e dele emergir inclume -- com
poucas (se  que alguma) feridas infeccionadas que exijam muito tempo para cicatrizar e muito cuidado
para se evitar os "danos colaterais" (tais como o afastamento de amigos, ou o surgimento de crculos nos
quais no se  bem-vindo ou em que se preferiria no entrar) -- bate de longe a arte de constituir
relacionamentos, pela pura freqncia com que se expressa.
        Se Richard Baxter, o inflamado profeta puritano, fosse em vez disso o profeta da estratgia
existencial adequada para a lquida vida moderna, ele provavelmente diria de tais relacionamentos o que
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disse sobre a aquisio de bens externos e o cuidado com eles -- que "devem apenas cair sobre os
ombros como um manto leve que pode ser posto de lado a qualquer momento", e que se deve ter o maior
cuidado para que no se transformem, inadvertida e sub-repticiamente, em "caixas de ao".. No se levam
riquezas para o tmulo, advertia o santo-profeta Baxter seu rebanho, reforando o senso comum daqueles
que viviam suas vidas como servos do alm-tmulo. No se levam relaes para o prximo captulo,
advertiria o especialista seus clientes, fazendo coro s premonies transformadas em certezas de pessoas,
ensinadas pela experincia, que tiveram as vidas fatiadas em episdios e que vivem como servas dos
episdios futuros.  provvel que seu relacionamento se rompa bem antes do fim do captulo. Mas se isso
no acontecer dificilmente haver outro. Com certeza, no um captulo a ser saboreado e desfrutado.

O surpreendente sucesso de EastEnders* transmite uma mensagem aparentemente diferente...
        O encantado/viciado pblico cresce, da mesma forma que a autoconfiana dos roteiristas,
produtores e atores. Essa telenovela parece ter atingido um pblico-alvo que outras desprezaram ou
perderam, e continuam perdendo. Qual o segredo?
        A maioria dos relacionamentos em que os personagens de EastEnders se envolvem parece to
frgil quanto qualquer outro que os espectadores conhecem a partir de suas prprias frustraes ou dos
relatos de advertncia de outras pessoas (incluindo as mensagens que aparecem semanalmente na coluna
"Esprito dos relacionamentos"). Dificilmente algum dos vnculos estabelecidos pelos personagens de
EastEnders consegue sobreviver ao fluxo regular dos episdios por mais que alguns meses -- por vezes
duram apenas umas poucas semanas -- e, entre os relacionamentos fracassados, so poucos e bem
espaados os que terminam por "causas naturais" Para os espectadores dotados de melhor memria,
Albert Square, ou simplesmente a Praa, deve ser vista como o tmulo dos relacionamentos humanos...
        Envolver-se em relacionamentos como os de EastEnders no  absolutamente fcil. Exige esforo
e habilidades considerveis, que muitos personagens infelizes no possuem e que so caractersticas
inatas de apenas uns poucos (embora algumas vezes tambm se faa necessria certa dose de sorte,
distribuda esparsamente e ao acaso). Os problemas no terminam quando os casais passam a viver juntos.
Os quartos compartilhados podem ser um local de alegria e diverso, mas raramente de segurana e
sossego. Alguns deles so palcos de dramas cruis, cheios de escaramuas verbais que resultam em brigas
aos socos e (se o casal no se separa antes) amplas hostilidades com desfecho semelhante ao de um Ces
de aluguel. Belas cerimnias de casamento no ajudam; festas s para homens ou s para mulheres no
pem fim ao Desconhecido, repleto de riscos e propenso a acidentes, e os aniversrios de npcias no so
novos incios que estimulem os casais a fazer "algo totalmente diferente", apenas pequenos intervalos
num drama sem cenrios nem textos definidos.
        A parceria  somente uma coalizo de "interesses confluentes" e, no mundo fluido de EastEnders,
as pessoas vm e vo, as oportunidades batem  porta e desaparecem novamente logo aps serem
convidados a entrar, as fortunas aumentam e diminuem, e as coligaes tendem a ser flutuantes, frgeis e
flexveis. As pessoas procuram parceiros e buscam "envolver-se em relacionamentos" a fim de escapar 
aflio da fragilidade, s para descobrir que ela se torna ainda mais aflitiva e dolorosa do que antes. O que
se propunha/ansiava/esperava ser um abrigo (talvez o abrigo) contra a fragilidade revela-se sempre como
a sua estufa...
        Milhes de fs e espectadores habituais de EastEnders assistem e balanam a cabea em
concordncia. Sim, sabemos disso tudo, j vimos isso tudo, j vivemos isso tudo. O que aprendemos com
a amarga experincia  que essa situao de ter sido abandonado  prpria sorte, sem ter com quem contar
quando necessrio, quem nos console e nos d a mo,  terrvel e assustadora, mas nunca se est mais s e
abandonado do que quando se luta para ter a certeza de que agora existe de fato algum com quem se
pode contar, amanh e depois, para fazer tudo isso se -- quando -- a roda da fortuna comear a girar em
outra direo.  impossvel predizer os resultados de nossa luta -- e a luta em si cobra o seu preo.
Diariamente se exigem sacrifcios.  difcil que se passe um dia sem uma desavena ou troca de sopapos.
Esperar at que a deusa escondida (como voc deseja ardentemente acreditar e to apaixonadamente

*
  Seriado da BBC exibido com enorme sucesso desde 1985. Ambientado em Walford, regio fictcia do "east end" de Londres,
aborda o cotidiano de famlias operrias, vizinhas e por vezes aparentadas, que vivem em Albert Square. Os relacionamentos
familiares e amorosos ocupam papel central em EastEnders; a personagem Little Mo, mencionada mais adiante, caracteriza-se
por colocar os outros antes de si prpria, e entre outros infortnios enfrentou anos de violncia domstica por parte do marido e
meses de priso por supostamente ter tentado assassin-lo. (N.T.)
                                                                                                       21
acredita) bem l dentro do parceiro consiga romper a couraa maligna e enfim se revele pode levar
mais tempo do que voc  capaz de agentar. E enquanto voc espera h muita dor para sentir, lgrimas
para verter e sangue para derramar...
        Os episdios de EastEnders so repeties, trs vezes por semana, daquilo que  o nosso
conhecimento do dia-a-dia. Reafirmaes regulares e confiveis para a pessoa insegura: sim, esta  sua
vida, e a verdade sobre a vida de outros como voc. No entre em pnico, v levando, e no se esquea
nem por um momento de que isso vai acontecer -- pode estar certo. Ningum est dizendo que seja fcil
transformar as pessoas em parceiras do destino, mas no existe alternativa seno tentar, repetidamente.
        Essa no , porm, a nica mensagem que EastEnders leva  sua casa trs vezes por semana, e
graas  qual o programa se tornou e permanece to obrigatrio para tantas pessoas. H tambm uma
outra. Caso voc tenha esquecido, existe uma segunda linha de trincheiras naquele infinito campo de
batalha existencial, um ltimo fosso defensivo pronto para ser usado contra os extravagantes caprichos da
sorte e as surpresas que aquele mundo de rosto impenetrvel mantm guardadas na manga da camisa. As
trincheiras j foram cavadas para voc antes que voc mesmo comeasse a cavar a sua; esto esperando
que voc pule para dentro delas. Ningum vai lhe fazer perguntas, questionar o que voc fez para obter o
direito de pedir socorro e ajuda. No importa o que tenha feito, ningum lhe recusar a entrada.
        H os Butcher, os Mitchell, os Slater, os Clan, a cujo grupo voc pertence sem jamais ter se
juntado a ele nem pedido para entrar. Voc no precisa fazer absolutamente nada para se tornar "um
deles" -- embora no haja muito o que possa fazer para deixar de ser. Eles estaro prontos a faz-lo
lembrar, caso voc esquea essas simples verdades.
        E assim voc se encontra diante de um dilema. A menos que seja um daqueles canalhas e prias
"naturais", excepcionalmente inescrupulosos, indisciplinados, aventureiros ou psicticos, fadado a ter de
se esconder, ser atropelado, expulso pelos vizinhos ou trancafiado na priso -- ou a usar outras sadas j
testadas para sumir de Albert Square --, voc vai preferir lanar mo das duas ncoras que a vida lhe deu
para se atracar  companhia de outras pessoas. Vai querer juntar-se ao parceiro de sua escolha e ao cl
que o destino escolheu para voc.
        Isso, porm, pode no ser fcil -- tal como aproveitar ao mesmo tempo o calor da lareira e os
prazeres de nadar no mar. Os labirintos que os personagens de Albert Square so obrigados a atravessar
ampliam e retratam com nitidez os obstculos que se acumulam em nosso caminho, o que  outra razo
para observar suas proezas trs vezes por semana. Voc v aquilo que vinha sentindo o tempo todo: que
voc  o nico elo a unir o parceiro que voc ama, e pelo qual deseja ser amado, ao cl familiar a que
voc pertence e deseja pertencer, o qual, por sua vez, deseja que voc pertena a ele e lhe obedea. E
ento voc , afinal, "o elo mais fraco" -- onde a corda arrebenta no cabo-de-guerra entre as duas causas.
        A guerra de atrito, sempre quente e por vezes em ebulio, cujas primeiras vtimas so os que
sonham em reconciliar-se, chegou ao seu clmax dramtico -- de fato, atingiu os pncaros da tragdia de
Antgona -- no julgamento de Little Mo, verso atualizada da imortal pea de Sfocles e da histria
imortal por ela registrada...
        Diz Antgona: "Oh, mas eu no teria feito a coisa proibida/ Por nenhum marido nem por nenhum
filho/ Para qu? Eu poderia ter tido outro marido/ e por meio dele outros filhos, se perdesse algum;/ mas,
perdidos o pai e a me, onde eu conseguiria/ outro irmo?" Perder um marido no  o fim do mundo.
Maridos, mesmo na antiga Grcia (embora nem tanto quanto para os contemporneos de Little Mo), so
apenas temporrios. Perd-los , sem dvida, doloroso, mas tem cura. A perda dos pais, ao contrrio, 
irrevogvel. Ser essa deferncia suficiente para que a famlia suprima o dbito para com o marido?
Talvez esse clculo ponderado no bastasse, no fosse por uma outra razo: as exigncias de um parceiro
escolhido, um companheiro temporrio de viagem pela vida e em princpio substituvel, tm menos peso
que as exigncias provenientes das profundezas do passado insondvel e inescrutvel: "Aquela ordem no
veio de Deus. A justia que reside com os deuses l embaixo no conhece tal lei./ Eu no pensei que seus
mandados fossem suficientemente poderosos/ para sobrepujar as inalterveis leis no-escritas/ de Deus e
do cu, sendo voc apenas um homem. Elas no so de ontem nem de hoje, mas eternas,/ embora, de
onde vieram, nenhum de ns possa dizer."
        Aqui, diria voc, Little Mo e Antgona se separam. De fato,  difcil ouvir um morador de Albert
Square mencionar Deus (os poucos que o fazem logo desaparecem da novela, como que obviamente
deslocados). Naquela rea, tal como em tantas outras praas e ruas de nossas cidades, Deus est h muito
tempo absconditus. No usa celular, e assim ningum pode afirmar com segurana que sabe exatamente
                                                                                                     22
como soariam as Suas instrues, caso se pudesse ouvi-Ias. Os direitos da famlia podem ser mais
duradouros que o dever para com o parceiro escolhido, mas em Albert Square nem este nem aqueles
parecem portadores da sano divina. A triste situao de Little Mo no vem do temor a Deus. Assim
sendo, de que maneira, se  que h alguma, o drama de Little Mo seria uma repetio da tragdia de
Antgona?
        Na verso de Sfocles, o Mensageiro entra no palco para resumir o significado do relato, mas
tambm para antever, e responder, nossa pergunta.  uma questo que, diferentemente das palavras
usadas a fim de torn-la compreensvel para os espectadores, no envelheceu -- e no envelhece: "O que
 a vida do homem? Algo que no e orientado/ para o bem ou para o mal, nem moldado para louvar ou
censurar. A oportunidade leva o homem s alturas, a oportunidade o arremessa para baixo/ e ningum
pode prever o que ser a partir daquilo que ."
        Assim  o futuro, assustadoramente desconhecido e impenetrvel (ou seja, como insistia Levinas,
o eptome, o modelo, a mais completa encarnao da "alteridade absoluta"), e no a dignidade de um
passado que, embora venervel, se oculta por trs do dilema com que se confrontou Little Mo, assim
como Antgona. "Ningum pode prever o que ser a partir daquilo que " -- mas ningum pode suportar
com leveza essa impossibilidade. No mar da incerteza, procura-se a salvao nas ilhotas da segurana.
Ser que, aquilo que ostenta um passado mais longo tem maiores probabilidades de ingressar no futuro
intacto e inclume do que algo,admitidamente feito e desfeito pelo homem, ostensivamente "de ontem ou
de hoje"? No se sabe, mas  tentador pensar que sim. De qualquer modo, h pouco a escolher nessa
interminvel, eternamente infinda e frustrante busca pela certeza...
        Tendo ouvido o veredicto adverso do jri, ser que  ao Pai que Little Mo dirige o seu
arrependimento?

Na lngua alem, afinidade  o termo adjetivado, em oposio a parentesco.
        "Afinidade"  parentesco qualificado -- parentesco, mas... (Wahlverwandschaft, expresso que se
costuma traduzir, errada e enganosamente, por "afinidade eletiva", um pleonasmo gritante, j que
nenhuma afinidade pode ser no-eletiva; somente o parentesco , pura e simplesmente, quer se queira ou
no, uma coisa dada...) A escolha  o fator qualificante: ela transforma o parentesco em afinidade. Mas
tambm trai a ambio desta ltima: sua inteno  ser como o parentesco, to incondicional, irrevogvel
e indissolvel quanto ele (no final, a afinidade vai acabar se entretecendo com a linhagem e se tornar
indistinguvel do restante da rede de parentesco; a afinidade de uma gerao se transforma no parentesco
da gerao seguinte). Mas nem mesmo os casamentos, ao contrrio da insistncia sacerdotal, so feitos no
cu, e o que foi unido por seres humanos estes podem -- e tm permisso para --desunir, e o faro se
tiverem uma oportunidade.
        Seria altamente desejvel que o parentesco fosse precedido da escolha, mas que a conseqncia
desta fosse exatamente aquilo que o parentesco j : indiscutivelmente slido, confivel, duradouro,
indissolvel. Essa  a ambivalncia endmica a toda Wahlverwandschaft -- sua marca de nascena (praga
e encantamento, bno e maldio) indelvel. O ato fundador da escolha  ao mesmo tempo o poder de
seduo da afinidade e a sua perdio. A memria da escolha, seu pecado original, tende a lanar uma
longa sombra e a obscurecer at mesmo o convvio mais glorioso, chamado "afinidade": a escolha,
diferentemente da sina do parentesco,  uma via de mo dupla. Sempre se pode dar meia-volta, e a
conscincia de tal possibilidade torna ainda mais desanimadora a tarefa de manter a direo.
        A afinidade nasce da escolha, e nunca se corta esse cordo umbilical. A menos que a escolha seja
reafirmada diariamente e novas aes continuem a ser empreendidas para confirm-la, a afinidade vai
definhando, murchando e se deteriorando at se desintegrar. A inteno de manter a afinidade viva e
saudvel prev uma luta diria e no promete sossego  vigilncia. Para ns, os habitantes deste lquido
mundo moderno que detesta tudo o que  slido e durvel, tudo que no se ajusta ao uso instantneo nem
permite que se ponha fim ao esforo, tal perspectiva pode ser mais do que aquilo que estamos dispostos a
exigir numa barganha. Estabelecer um vnculo de afinidade proclama a inteno de tornar esse vnculo
semelhante ao parentesco -- mas tambm a presteza em pagar o preo pelo avatar na moeda corrente da
labuta diria e enfadonha. Quando no h disposio (ou, dado o treinamento oferecido e recebido,
solvncia de ativos), fica-se inclinado a pensar duas vezes antes de agir para concretizar a inteno.
        Assim, viver juntos ("e vamos esperar para ver como isso funciona e aonde vai nos levar") ganha
o atrativo de que carecem os laos de afinidade. Suas intenes so modestas, no se prestam juramentos,
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e as declaraes, quando feitas, so destitudas de solenidade, sem fios que prendam nem mos atadas.
Com muita freqncia, no h congregao diante da qual se deva apresentar um testemunho nem um
todo-poderoso para, l do alto, consagrar a unio. Voc pede menos, aceita menos, e assim a hipoteca a
resgatar fica menor e o prazo de resgate, menos desestimulante. O futuro parentesco, quer desejado ou
temido, no lana a sua longa sombra sobre o "viver juntos". "Viver juntos"  por causa de, no a fim de.
Todas as opes mantm-se abertas, no se permite que sejam limitadas por atos passados.
        As pontes so inteis, a menos que cubram totalmente a distncia entre as margens -- mas no
"viver juntos" a outra margem est envolta numa neblina que nunca se dissipa, que ningum deseja
dissolver nem tenta afastar. No h como saber o que se vai ver quando (se) a nvoa se dispersar -- nem
se de fato existe alguma
        Apaixonar-se e desapaixonar-se       47
        coisa encoberta. A outra margem est mesmo l, ou ser ela apenas uma fata morgana, uma iluso
criada pela neblina, uma fantasia da imaginao que nos faz ver formas bizarras nas nuvens que passam?
        Viver juntos pode significar dividir o barco, a rao e o leito da cabine. Pode significar navegar
juntos e compartilhar as alegrias e agruras da viagem. Mas nada tem a ver com a passagem de uma
margem  outra, e portanto seu propsito no  fazer o papel das slidas pontes (ausentes). Pode-se
manter um dirio de aventuras passadas, mas nele h apenas uma ligeira referncia ao itinerrio e ao porto
de destino.  possvel que a neblina que cobre a outra margem -- desconhecida, inexplorada -- se
suavize e desaparea, que venham a emergir os contornos de um porto, que se tome a deciso de atracar,
mas nada disso , nem deve ser, anotado nos registros de navegao.
        A afinidade  uma ponte que conduz ao abrigo seguro do parentesco. Viver juntos no representa
essa ponte nem o trabalho de constru-la. O convvio do "viver juntos" e a proximidade consangnea so
dois universos diferentes, com espao-tempos distintos, cada qual um universo completo, com suas leis e
lgicas prprias. Nenhuma passagem de um para outro foi previamente explorada -- embora se possa,
fortuitamente, defrontar-se ou chocar-se com um deles. No h como saber, pelo menos com
antecedncia, se viver juntos acabar se revelando uma via de trfego intenso ou um beco sem sada. A
questo  atravessar os dias como se essa diferena no contasse, e portanto de uma forma que torne
irrelevante o problema de "colocar os pingos nos Is".
        O fato de a afinidade ortodoxa estar fora de moda e fora de forma no pode ser rebatido  custa do
parentesco. Carecendo de pontes estveis para suportar o trfego crescente, as redes de parentesco se
sentem frgeis e ameaadas. Suas fronteiras se tornam embaadas e contestadas, e as redes se dissolvem
num terreno sem ttulos de posse nem propriedade hereditria -- uma terra de fronteira. Algumas vezes
um campo de batalha, outras vezes o objeto de pendengas judiciais no menos amargas. As redes de
parentesco no podem estar seguras de suas chances de sobrevivncia, muito menos calcular suas
expectativas de vida. Sua fragilidade as torna ainda mais preciosas. Elas agora so tnues, sutis, delicadas;
provocam sentimentos de proteo; fazem com que se deseje abra-las, acarici-las e mim-las; anseiam
por serem tratadas com um carinho amoroso. E no so mais arrogantes e pretensiosas como costumavam
ser quando nossos ancestrais explodiram e se rebelaram contra a rigidez e a viscosidade do anelo familiar.
No se sentem mais seguras de si mesmas -- ao contrrio, esto dolorosamente conscientes de como um
simples passo em falso pode ser fatal. Antolhos e protetores de ouvidos caram em desuso: -- as famlias
olham e ouvem atentamente, cheias de disposio para corrigir suas rotas e prontas a pagar na mesma
moeda o carinho e o amor.
        Paradoxalmente -- ou no fim nem tanto --, os poderes de atrao e enlace da parentela ganham
impulso  medida que o magnetismo e o poder de controle da afinidade diminuem...
        De modo que aqui estamos, manobrando, vacilantes e desconfortveis, entre dois mundos
notoriamente distantes um do outro e com pendncias entre si, mas ambos desejveis e desejados -- sem
passagens claramente traadas, para no falar de caminhos trilhados entre ambos.

Trinta anos atrs (em O declnio do homem pblico), Richard Sennett observou o advento de uma
"ideologia da intimidade" que "transmuta categorias polticas em psicolgicas" 10
       Um resultado particularmente portentoso dessa nova ideologia foi a substituio dos "interesses
compartilhados" pela "identidade compartilhada". A fraternidade de base identitria estava para se tornar
10
  Richard Sennett, The Fall of Public Man. Londres/Nova York, Random House, 1978, p.259ss. [Ed. bras.: (O declnio do
homem pblico, So Paulo, Companhia das Letras, 1988.]
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-- prevenia Sennett -- a "empada por um grupo seleto de pessoas aliada  rejeio das que no
estiverem dentro do crculo local". "Forasteiros, desconhecidos, diferentes tornam-se criaturas a serem
afastadas."
        Alguns anos mais tarde, Benedict Anderson cunhou o termo "comunidade imaginada" para dar
conta do mistrio da auto-identificao com uma ampla categoria de desconhecidos com quem se acredita
compartilhar alguma coisa suficientemente importante para que se fale deles como um "ns" do qual eu,
que falo,sou parte. O fato de Anderson ter percebido essa identificao com uma populao dispersa de
pessoas desconhecidas como um mistrio a exigir explicao confirmava, ainda que de forma oblqua, os
palpites de Sennett -- era, na verdade, um tributo a estes.  poca em que Anderson desenvolveu seu
modelo de "comunidade imaginada", a desintegrao dos vnculos e liames impessoais (e com eles, como
apontaria Sennett, da arte da "civilidade" -- de "usar a mscara" que simultaneamente protege e permite
que se aprecie a companhia) havia atingido um estgio avanado, e assim a frico e os afagos de ombros,
a contigidade, a intimidade, a "sinceridade", o "entrar dentro do outro", sem guardar segredos,
confessando de modo compulsivo e compulsrio, estavam se tornando rapidamente as nicas defesas
humanas contra a solido e o nico fio disponvel para se tecer o ansiado convvio. S era possvel
conceber totalidades mais amplas do que o crculo de confisses mtuas como um "ns" intumescido e
esticado; como a mesmidade, mal referida como "identidade", em letras grandes. A nica forma de incluir
os "desconhecidos" em um "ns" era reuni-los como potenciais parceiros em rituais confessionais,
tendentes a revelar um "interior" semelhante (e portanto familiar), quando pressionados a compartilhar
suas ntimas sinceridades.
        A comunho de eus secretos baseada em revelaes mutuamente estimuladas pode ser o ncleo do
relacionamento amoroso. Pode fincar razes, germinar, desenvolver-se dentro da ilha auto-sustentada, ou
quase, das biografias compartilhadas. Mas, exatamente como a unio moral de dois -- que, quando
ampliada para incluir um Terceiro, e ento colocada cara a cara com a "esfera pblica", descobre serem
suas instituies e impulsos morais insuficientes para confrontar e administrar as questes da justia im-
pessoal geradas por essa esfera --, assim tambm a comunho do amor  apanhada pelo mundo exterior
despreparada para competir e ignorante das habilidades que isso exige.
        Dentro de uma comunho amorosa,  apenas natural ver a frico e o desacordo como irritaes
temporrias que logo iro embora; mas tambm como o apelo a uma ao remediadora que estimular sua
partida. Uma perfeita mistura de eus parece nesse caso uma perspectiva realista, dada uma dose suficiente
de pacincia e dedicao -- qualidades que o amor acredita poder suprir em profuso. Ainda que a
mesmidade espiritual dos amantes continue um pouco distante, certamente no  um sonho infundado
nem uma iluso fantasiosa. Decerto pode ser alcanada -- e com recursos que j se encontram 
disposio dos amantes, em sua condio de amantes.
        Mas tentar ampliar as legtimas expectativas amorosas de forma a domar, domesticar e
desenvenenar a atordoante miscelnea de sons e vises que povoa o mundo alm da ilha do amor... Nesse
caso, os testados e confiveis estratagemas do amor no sero de muita ajuda. Na ilha do amor, a
concordncia, a compreenso e a ansiada unicidade a dois jamais estaro alm do alcance, mas isso no 
vlido para o infinito mundo exterior (a menos que transmutado, por um passe de mgica, no colquio em
busca do consenso de Jrgen Habermas). As ferramentas do convvio eu-Vs, ainda que perfeitamente
dominadas e impecavelmente manejadas, se mostraro vulnerveis  variao,  disparidade e  discrdia
que separam e mantm em p de guerra as multides daqueles que constituem um "Vs" potencial:
dispostos a atirar em vez de conversar. Exige-se o domnio de tcnicas muito diferentes quando a
discordncia  um desconforto transitrio que logo ser dissipado e quando a discrdia (assinalando a
determinao de defender seus direitos) est a para ficar por tempo indeterminado. A esperana de
consenso atrai as pessoas e as estimula a se esforarem mais. A descrena na unidade, alimentando a
gritante inadequao dos instrumentos  mo e sendo por esta alimentada, impele as pessoas a se
afastarem umas das outras e estimula que elas se esquivem.
        A primeira conseqncia da crescente descrena na possibilidade de unidade  a diviso do mapa
do Lebenswelt, o mundo da vida, em dois continentes amplamente destitudos de comunicao. Um deles
 onde se busca a todo custo o consenso (embora na maioria das vezes, talvez o tempo todo, com as
habilidades adquiridas e aprendidas no abrigo da intimidade) -- mas onde sobretudo se presume que ele
j esteja "ali", predeterminado pela identidade compartilhada, esperando para ser acordado e reafirmar-se.
E o outro  onde a esperana de unidade espiritual, e assim tambm qualquer esforo para revel-la ou
                                                                                                           25
constru-la a partir do zero, foi abandonada a priori, de modo que o nico intercmbio vislumbrado  o
de msseis, no palavras.
        Atualmente, porm, essa dualidade de posturas (teorizada para uso privado como a diviso da
humanidade) parece estar gradualmente recuando para o segundo plano da vida cotidiana -- juntamente
com as dimenses espaciais da proximidade e da distncia humanas. Tal como nas vastas extenses da
terra de fronteira global, tambm no nvel popular, no domnio da poltica de vida, o palco para a ao 
um recipiente cheio de amigos e inimigos potenciais, no qual se espera que coalizes flutuantes e inimi-
zades  deriva se aglutinem por algum tempo, apenas para se dissolverem outra vez e abrirem espao para
outras e diferentes condensaes. As "comunidades da mesmidade", predeterminadas, mas aguardando
serem reveladas e preenchidas com matria slida, esto cedendo vez a "comunidades de ocasio", que se
espera serem autoconstrudas em torno de eventos, dolos, pnicos ou modas. Mais diversificadas como
pontos focais, porm compartilhando a caracterstica de uma curta, e decrescente, expectativa de vida.
Elas no duram mais que as emoes que as mantm no foco das atenes e estimulam a conjuno de
interesses -- fugaz, mas no por isso menos intensa -- a se coligar e aderir " causa".

Todo esse aproximar-se e afastar-se para longe torna possvel seguir simultaneamente o impulso de
liberdade e a nsia por pertencimento -- e proteger-se, se no recuperar-se totalmente, dos
embustes de ambos os anseios.
        Os dois estmulos se fundem e se misturam no trabalho extremamente absorvente e exaustivo de
"tecer redes" e "surfar nelas". O ideal de "conectividade" luta para apreender a difcil e irritante dialtica
desses dois elementos inconciliveis. Ele promete uma navegao segura (ou pelo menos no-fatal) por
entre os recifes da solido e do compromisso, do flagelo da excluso e dos frreos grilhes dos vnculos
demasiadamente estreitos, de um desprendimento irreparvel e de uma irrevogvel vinculao.
        Ns entramos nos chats e temos "camaradas" que conversam conosco. Os camaradas, como bem
sabe todo viciado em chat, vm e vo, entram e saem do circuito -- mas sempre h na linha alguns deles
se coando para inundar o silncio com "mensagens" No relacionamento "camarada/camarada", no so
as mensagens em si, mas seu ir e vir, sua circulao, que constitui a mensagem -- no importa o
contedo. Ns pertencemos ao fluxo constante de palavras e sentenas inconclusas (abreviadas, truncadas
para acelerar a circulao). Pertencemos  conversa, no quilo sobre o que se conversa.
        No confundam a atual obsesso por confisses compulsivas com as confidncias espalhafatosas
sobre as quais Sennett nos advertia 30 anos atrs. O propsito de produzir sons e digitar mensagens no 
mais submeter os recnditos da alma  inspeo e aprovao do parceiro. As palavras vocalizadas ou
digitadas no mais se esforam por relatar a viagem de descoberta espiritual. Como Chris Moss
admiravelmente exps (no Guardian Weekend)", por meio de "nossas conversas em chats, telefones
celulares, servios de textos 24 horas", "a introspeco  substituda por uma interao frentica e frvola
que revela nossos segredos mais profundos juntamente com nossas listas de compras". Permitam-me
comentar, no entanto, que essa "interao", embora frentica, pode no parecer to frvola, uma vez que
voc perceba e tenha em mente que a questo -- a nica questo --  manter o chat funcionando. Os
provedores de acesso  internet no so sacerdotes santificando a inviolabilidade das unies. Estas no
tm nada em que se apoiar seno nossos papos e textos; a unio s se mantm na medida em que
sintonizamos, conversamos, enviamos mensagens. Se voc interromper a conversa, est fora. O silncio
equivale  excluso. De fato, 11 n'y a pas dehors du texte -- no h nada fora do texto --, embora no
apenas no sentido pretendido por Derrida...

OM, a sofisticada revista encartada em um dos mais venerveis, respeitados e amados jornais de
domingo, dirigida e avidamente lida e discutida pelo jet-set, as elites de Bloomsbury ou Chelsea e
todo o resto, ou quase, das classes tagarelas...
        Peguemos ao acaso a edio de 16 de junho de 2002 -- embora a data aqui no tenha muita
importncia, pois o contedo, com pequenas variaes,  imune s convulses, reviravoltas ou turbu-
lncias da grande histria em construo, assim como a toda espcie de poltica, exceto a poltica de vida.
As aceleraes ou redues de ritmo do tempo das grandes polticas tambm passam ao largo...
        Cerca de metade da revista OM, semana aps semana,  ocupada por uma seo intitulada "Vida"
Explicam os editores: "Vida"  "o manual da vida moderna". A seo tem suas subsees: primeiro vem
"Moda" que informa sobre os problemas e tribulaes da "aplicao de cosmticos", com uma subseo,
                                                                                                       26
"Ela moda", que exorta as leitoras a "no medir esforos para encontrar o par de sapatos certo". 
seguida pela subseo "Interiores", com um breve interldio sobre "Casas de bonecas" Depois vem a
parte de "Jardins", que explica como "manter as aparncias" e "impressionar os hspedes", apesar da
aborrecida verdade de que "o trabalho de um jardineiro nunca termina". A subseo seguinte  "Comida"
e depois "Restaurantes", que mostra onde procurar comida gostosa quando se sai para jantar, e ento
"Vinhos", indicando onde encontrar vinhos saborosos para consumir em casa. Tendo chegado a esse
ponto, o leitor est bem preparado para examinar atentamente as trs pginas da subseo "Viver" --
dividida em "amor, sexo, famlia, amigos"
         Na semana de 16 de junho de 2002, "Viver"  dedicada aos CSSs -- "casais semi-separados",
"revolucionrios do relacionamento", que "romperam a sufocante bolha do casal" e "seguem seus
prprios caminhos" Sua dana a dois  em tempo parcial. Odeiam a idia de compartilhar o lar e as
atividades domsticas, preferindo manter domiclios, contas bancrias e crculos de amizade separados, e
estarem juntos quando esto a fim. Tal como o trabalho ao estilo antigo, hoje dividido numa sucesso de
horrios flexveis, tarefas nicas ou projetos de curto prazo, e da mesma forma que a compra ou o aluguel
de uma propriedade, que agora tende a ser substituda pela ocupao time-share e pelos pacotes de fim de
semana, o casamento ao estilo antigo, "at que a morte nos separe", j desestabilizado pela coabitao
"vamos ver como funciona", reconhecidamente temporria,  substitudo pelo "ficar juntos", de horrio
parcial ou flexvel.
        Os especialistas, como os leitores poderiam esperar, se dividem. Suas opinies variam das boas-
vindas ao modelo CSS -- visto como o to almejado nirvana (tornar quadrado o crculo da doao
genuna sem ter de pagar com a perda da independncia) finalmente transformado em realidade -- 
condenao dos praticantes por sua covardia: a indisposio de enfrentar os testes e dificuldades
decorrentes da criao e perpetuao de um relacionamento plenamente amadurecido. Prs e contras so
dolorosamente expostos, solenemente ponderados e escrupulosamente avaliados, embora o efeito do
estilo de vida dos CSSs sobre o seu ambiente humano no aparea em nenhuma dessas folhas de balano
(curiosamente, dada a sensibilidade ecolgica de nossa poca).
        Depois que "Viver" apresentou seu argumento, o que  necessrio para preencher as pginas de
"Vida"? H subsees intituladas "Sade", "Bem-estar", "Nutrio' (ateno: separada de "Comida",
"Restaurantes" e "Vinhos") e "Estilo" (totalmente feita de anncios de mobilirio). A seo se completa
com a parte do "Horscopo" -- na qual, dependendo da data de seu nascimento, alguns leitores so
aconselhados a esquecer "o trabalho montono -- a mobilidade  essencial neste momento. Voc deve
circular, sacar o celular e fazer negcios", enquanto a outros se diz: "Este  exatamente o seu momento --
novos incios o tempo todo e nada de negcios muito antigos para oprimir sua alma sempre otimista."
                                                                                                        27

                2. Dentro e fora da caixa de ferramentas da sociabilidade

Homo sexualis: abandonado e destitudo

        Como afirmou Lvi-Strauss, o encontro dos sexos  o terreno em que natureza e cultura se
deparam um com o outro pela primeira vez. , alm disso, o ponto de partida, a origem de toda cultura. O
sexo foi o primeiro ingrediente de que o homo sapiens foi naturalmente dotado sobre o qual foram
talhadas distines artificiais, convencionais e arbitrrias -- a atividade bsica de toda cultura (em
particular, o ato fundador da cultura, a proibio do incesto: a diviso das fmeas em categorias
disponveis e indisponveis para a coabitao sexual).
         fcil perceber que esse papel do sexo no foi acidental. Das muitas tendncias, inclinaes e
propenses "naturais" dos seres humanos, o desejo sexual foi e continua sendo a mais bvia, indubitvel e
incontestavelmente social. Ele se estende na direo de outro ser humano, exige sua presena e se esfora
para transform-la em unio. Ele anseia por convvio. Torna qualquer ser humano -- ainda que realizado
e, sob todos os outros aspectos, auto-suficiente -- incompleto e insatisfeito, a menos que esteja unido a
um outro.
        Do encontro dos sexos nasceu a cultura. Nesse encontro ela praticou pela primeira vez sua arte
criativa da diferenciao. Desde ento, nunca mais foi suspensa, muito menos abandonada, a ntima
cooperao da cultura e da natureza em tudo que se refere ao sexo. A ars erotica, criao eminentemente
cultural, guiou a partir de ento o impulso sexual na direo de sua satisfao no convvio humano.

Salvo raras excees, nossa cultura "no produziu uma ars erotica, mas sim uma scientia sexualis",
afirma o eminente sexlogo alemo Volkmar Sigusch. (1)
         como se Antero, irmo de Eros e "gnio vingativo do amor rejeitado", tivesse tomado de seu
irmo o domnio sobre o reino do sexo. "Hoje, a sexualidade no condensa mais o potencial de prazer e
felicidade. Ela no  mais mistificada positivamente como xtase e transgresso, mas negativamente,
como fonte de opresso, desigualdade, violncia, abuso e infeco mortal."
        Antero era conhecido por ser altamente passional, excitvel, lascivo e exaltado, mas, uma vez
transformado em senhor indiscutvel do reino, teve de proibir a paixo entre seus sditos e proclamar que
o sexo devia ser um ato racional, calculado com sobriedade, realizado considerando todos os riscos e
regras e, acima de tudo, totalmente desmistificado e desprovido de iluso. "O olhar do cientista", afirma
Sigusch, "sempre foi frio e distante: no devia haver segredos." Resultado? "Hoje todo mundo est por
dentro, e ningum tem a mnima a idia."
        No que esse frustrante efeito da postura fria e da viso distante tenha depreciado a autoridade de
Antero e de sua agncia, a scientia sexualis, nem tampouco reduzido as fileiras de seus devotados,
agradecidos e esperanosos seguidores. A demanda por seus servios (por servios novos e aperfeioados,
e no entanto apenas "mais do mesmo") tende a crescer, no a diminuir, j que eles sempre adiam o
cumprimento de suas promessas. "A cincia sexual, no obstante, continua a existir, porque a misria
sexual se recusa a desaparecer."
        A scientia sexualis prometia livrar os homini sexuali de sua misria; ela continua prometendo
exatamente a mesma coisa, e essa promessa continua motivando confiana e crena pela simples razo de
que, uma vez cortados de todas as outras modalidades humanas e entregues a seus prprios meios, os
homini sexuali se tornaram "objetos naturais" da investigao cientfica -- sentem-se em casa apenas no
laboratrio e no consultrio teraputico, e visveis para si mesmos e para os outros somente  luz dos
projetores dos cientistas. Alm disso, o homo sexualis, abandonado [orphaned] e destitudo, no tem mais
a quem recorrer em busca de conselho, socorro e ajuda.

Orfo de Eros. Eros com certeza no est morto. Mas, exilado de seu domnio hereditrio -- tal como
Ahaspher, o Judeu Errante --, ele foi condenado a perambular pelas ruas numa infindvel e eternamente
v procura de abrigo. Eros agora pode ser encontrado em toda parte, mas no permanecer por muito
tempo em lugar nenhum. Ele no tem endereo fixo: se voc quiser encontr-lo, escreva para a posta-
restante e mantenha a esperana.
                                                                                                           28
Destitudo pelo futuro. E portanto pela expectativa e pelo compromisso que so as propriedades
legtimas e monopolizadoras do futuro. Abandonado pelos espectros da paternidade e da maternidade,
esses mensageiros da eternidade e do Grande Alm que costumavam pairar sobre os encontros sexuais e
incutir na unio fsica algo daquela mstica surreal e da mistura sublime de f e apreenso, alegria e terror,
que eram sua marca registrada.

Atualmente a medicina compete com o sexo pela responsabilidade da "reproduo".
        Os mdicos competem com os homini sexuali pelo papel de autores principais do drama. O
resultado da disputa  uma concluso inevitvel: agradece-se pelo que a medicina pode fazer, mas
tambm pelo que se espera que ela faa e pelo que dela desejam os estudantes e ex-alunos da escola de
marketing da vida dos consumidores. A possibilidade fascinante que se encontra bem ali na esquina  a
oportunidade (para citar Sigusch novamente) de "escolher um filho num catlogo de doadores atraentes
quase da mesma forma como eles [os consumidores contemporneos] esto acostumados a comprar pelo
correio ou por meio de revistas de moda" -- e adquirir a criana escolhida no momento preferido. Seria
contrrio  natureza de um consumidor experiente no ter o desejo de dobrar aquela esquina.

Houve uma poca (de lares/oficinas, de agricultura familiar) em que os filhos eram produtores.
        Nessa poca, a diviso do trabalho e a distribuio dos papis familiares se superpunham. O filho
deveria juntar-se ao oikos familiar, somar-se  fora de trabalho da oficina ou da fazenda -- e assim,
naquela poca, quando a riqueza derivava ou era extrada do trabalho, a chegada de um filho trazia
consigo a expectativa de melhoria do bem-estar da famlia. Os filhos podiam ser tratados com dureza,
mantidos sob rdea curta, mas esse era um tratamento comum a todos os outros trabalhadores. No se
esperava que o trabalho trouxesse alegria ou causasse prazer ao empregado -- a idia de "satisfao no
trabalho' ainda estava para ser inventada. Os filhos eram, na viso de todos, bons investimentos, e como
tal eram saudados. Quanto mais, melhor. Alm disso, dizia a voz da razo, era uma aposta: a expectativa
de vida era curta e todos se perguntavam se o recm-nascido viveria o suficiente para que suas
contribuies  renda familiar pudessem se fazer sentir. Para os autores da Bblia, a promessa de Deus a
Abrao -- "Vossa semente haver de multiplicar-se como as estrelas no cu e como a areia sobre as
praias do oceano" -- era, inequivocamente, uma bno, embora muitos de nossos contemporneos
percebam nela antes uma ameaa, uma maldio ou ambas.
        Houve uma poca (das fortunas de famlia passadas de gerao para gerao, segundo a rvore
genealgica, e da posio social hereditria) em que os filhos eram pontes entre a mortalidade e a
imortalidade, entre uma vida individual abominavelmente curta e a infinita (esperava-se) durao da
famlia. Morrer sem filhos significava nunca ter construdo uma ponte como essa. A morte de um homem
sem filhos (embora o mesmo no ocorresse, necessariamente com a de uma mulher sem filhos, a menos
que se tratasse de uma rainha ou algo semelhante) significava a morte da famlia -- negligenciar o mais
importante dos deveres, descumprir a mais imperativa das tarefas.
        Com a nova fragilidade das estruturas familiares, com a expectativa de vida de muitas famlias
sendo mais curta do que a de seus membros, com a participao em determinada linhagem familiar
tornando-se rapidamente um dos elementos "indeterminveis" da lquida era moderna e com a adeso a
uma das diversas redes de parentesco disponveis transformando -se, para um crescente nmero de
indivduos, numa questo de escolha -- e uma escolha, at segunda ordem, revogvel --, um filho pode
ser ainda "uma ponte" para algo mais duradouro. Mas a margem a que essa ponte conduz est coberta por
uma neblina que ningum espera que venha a se dissipar, e portanto  improvvel que provoque muita
emoo, menos ainda que alimente o desejo inspirados da ao. Se uma sbita rajada de vento viesse a
afastar a neblina, ningum sabe ao certo que tipo de margem iria se revelar, nem se da nvoa emergeria
uma terra suficientemente firme para sustentar um lar permanente. Pontes que levam a lugar nenhum, ou
a nenhum lugar em particular: quem precisa delas? Para qu? Quem perderia seu tempo e seu bom
dinheiro para planej-las e constru-Ias?

Esta  uma poca em que um filho , acima de tudo, um objeto de consumo emocional.
       Objetos de consumo servem a necessidades, desejos ou impulsos do consumidor. Assim tambm
os filhos. Eles no so desejados pelas alegrias do prazer paternal ou maternal que se espera que
proporcionem -- alegrias de uma espcie que nenhum objeto de consumo, por mais engenhoso e
                                                                                                        29
sofisticado que seja, pode proporcionar. Para a tristeza dos comerciantes, o mercado de bens de
consumo no  capaz de fornecer substitutos  altura, embora essa tristeza de alguma forma seja
compensada pelo espao cada vez maior que o mundo do comrcio vem ganhando na produo e
manuteno desses bens.

Quando se trata de objetos de consumo, a satisfao esperada tende a ser medida pelo custo --
busca-se o "valor em dinheiro".

        Os filhos esto entre as aquisies mais caras que o consumidor mdio pode fazer ao longo de
toda a sua vida. Em termos puramente monetrios, eles custam mais do que um carro luxuoso do ano,
uma volta ao mundo em um cruzeiro ou at mesmo uma manso. Pior ainda, o custo total tende a crescer
com o tempo, e seu volume no pode ser fixado de antemo nem estimado com algum grau de certeza.
Num mundo que no oferece mais planos de carreira e empregos estveis, assinar um contrato de hipoteca
com prestaes de valor desconhecido, a serem pagas por um tempo indefinido, significa, para pessoas
que saem de um projeto para o outro e ganham a vida nessas mudanas, expor-se a um nvel de risco
atipicamente elevado e a uma fonte prolfica de ansiedade e medo.  provvel que se pense duas vezes
antes de assinar, e que, quanto mais se pense, mais se tornem bvios os riscos envolvidos. E nenhuma
dose de determinao e ponderao poder remover a sombra de dvida que tende a adulterar a alegria.
Alm disso, ter filhos , em nossa poca, uma questo de deciso, no um acidente -- o que aumenta a
ansiedade. T-los ou no  comprovadamente a deciso com maiores conseqncias e de maior alcance
que existe, e portanto tambm a mais angustiante e estressante.
        Ademais, nem todos os custos so monetrios, e os que no o so jamais podero ser medidos e
calculados. Eles desafiam as capacidades e as propenses dos agentes racionais que somos preparados
para ser, e que lutamos para ser. "Formar uma famlia"  como pular de cabea em guas inexploradas e
de profundidade insondvel. Cancelar ou adiar outras sedutoras alegrias consumistas de uma atrao
ainda no experimentada, desconhecida e imprevisvel -- em si mesmo um sacrifcio assustador que se
choca fortemente com os hbitos do consumidor prudente -- no  a nica conseqncia provvel.
        Ter filhos significa avaliar o bem-estar de outro ser, mais fraco e dependente, em relao ao nosso
prprio conforto. A autonomia de nossas preferncias tende a ser comprometida, e continuamente: ano
aps ano, dia aps dia. A pessoa pode tornar-se -- horror dos horrores -- "dependente" Ter filhos pode
significar a necessidade de diminuir as ambies pessoais, "sacrificar uma carreira",como pessoas
submetidas  avaliao de seu desempenho profissional olham de soslaio em busca de algum sinal de
lealdade dividida. Mais dolorosamente, ter filhos significa aceitar essa dependncia divisora da lealdade
por um tempo indefinido, aceitando o compromisso amplo e irrevogvel, sem uma clusula adicional "at
segunda ordem" -- o tipo de obrigao que se choca com a essncia da poltica de vida do lquido mundo
moderno e que a maioria das pessoas evita, quase sempre com fervor, em outras manifestaes de sua
existncia. Tomar conscincia de tal compromisso pode ser uma experincia traumtica. A depresso e as
crises conjugais ps-parto parecem enfermidades especficas de nossa "modernidade lquida", da mesma
forma que a anorexia, a bulimia e incontveis variedades de alergia.

As alegrias da paternidade e da maternidade vm, por assim dizer, num pacote que inclui as dores
do auto-sacrifcio e os temores de perigos inexplorados.
       Um clculo sbrio e fidedigno de perdas e ganhos est obstinada e irritantemente alm do alcance
e da compreenso dos pais em potencial.
       Qualquer aquisio feita por um consumidor envolve riscos -- mas os vendedores de outros bens
de consumo, em particular daqueles inapropriadamente chamados de bens "durveis", fazem de tudo para
assegurar aos possveis clientes que os riscos assumidos foram reduzidos ao mnimo. Oferecem amplas
garantias (ainda que s alguns deles possam afirmar de boa-f que a empresa sobreviver ao prazo de
durao da garantia, e praticamente nenhum possa assegurar que os atrativos da mercadoria adquirida,
capazes de mant-la distante da lata de lixo, no se desvanecero bem antes disso), promessas de
devoluo do dinheiro e de assistncia longa ou perptua. Dignas ou no de crdito, nenhuma dessas
garantias  oferecida no caso do parto.
       No surpreende que os institutos de pesquisas mdicas e as clnicas de atendimento pr-natal
estejam nadando em dinheiro proveniente de empresas comerciais. H uma demanda potencialmente
                                                                                                        30
infinita pela reduo dos riscos endmicos do parto, pelo menos ao nvel declarado nos rtulos das
mercadorias  venda nas prateleiras das lojas. Companhias que ofeream a chance de "escolher um filho
num catlogo de doadores atraentes" e clnicas de boa reputao que componham por encomenda o
espectro gentico de uma criana em gestao no precisam se preocupar com a falta de clientes ou a
reduo do volume de negcios lucrativos.
        Resumindo: a separao entre sexo e reproduo, amplamente observada, tem a anuncia do
poder.  o produto conjunto do lquido ambiente da vida moderna e do consumismo como estratgia
escolhida, e a nica disponvel, de "procurar solues biogrficas para problemas socialmente
produzidos" (Ulrich Beck).  a mistura de ambos os fatores que leva ao deslocamento das questes da
reproduo e do parto para longe do sexo e na direo de uma esfera totalmente diferente, operada por
uma lgica e um conjunto de regras inteiramente diversos dos que regem a atividade sexual. A destituio
do homo sexualis  sobredeterminada.

Como que antecipando o padro que iria prevalecer em nossa poca, Erich Fromm tentou explicar
a atrao do "sexo em si" (do sexo "pelo sexo", praticado separadamente de suas funes
ortodoxas), referindo-se  sua qualidade como uma (enganosa) resposta ao desejo, demasiadamente
humano, de "fuso total" por meio de uma "iluso de unio" (2).
       Unio -- porque  exatamente o que homens e mulheres procuram ardentemente em seu
desespero para escapar da solido que j sofrem ou temem estar por vir. Iluso -- porque a unio
alcanada no breve instante do clmax orgstico "deixa os estranhos to distantes um do outro como
estavam antes", de modo que "eles sentem seu estranhamento de maneira ainda mais acentuada". Nesse
papel, o orgasmo sexual "assume uma funo que o torna no muito diferente do alcoolismo e do vcio
em drogas". Tal como estes, ele  intenso -- mas "transitrio e peridico" (3).
       A unio  ilusria e, no final, a experincia tende a ser frustrante, diz Fromm, por ser separada do
amor (ou seja, permitam-me explicar, do tipo de relacionamento Frsein; de um compromisso
intencionalmente duradouro e indefinido com o bem-estar do parceiro). Na viso de Fromm, o sexo s
pode ser um instrumento de fuso genuna -- em vez de uma efmera, dbia e, em ltima instncia,
autodestrutiva impresso de fuso -- graas a sua conjuno com o amor. Qualquer que seja a capacidade
geradora de fuso que o sexo possa ter, ela vem de sua "camaradagem" com o amor.

Desde que Fromm escreveu sobre a questo, o isolamento do sexo em relao a outros domnios da
vida tem avanado mais do que nunca.
        Hoje o sexo  a prpria sntese, talvez o silencioso/secreto arqutipo, daquele "relacionamento
puro" (um paradoxo, com certeza: os relacionamentos humanos tendem a preencher, infestar e modificar
todos os recessos e frestas, por mais remotos, do Lebenswelt, de modo que podem ser tudo menos
"puros") que, como indica Anthony Giddens, se tornou o modelo alvo/ideal predominante da parceria
humana. Agora espera-se que o sexo seja auto-sustentvel e auto-suficiente, que "se mantenha sobre os
prprios ps", para ser julgado unicamente pela satisfao que possa trazer por si mesmo (ainda que, em
regra, ela seja interrompida bem antes da expectativa gerada pela mdia). No admira que tambm tenha
crescido enormemente sua capacidade de gerar frustrao e de exacerbar a prpria sensao de
estrangulamento que se esperava que curasse. A vitria do sexo na grande guerra de independncia tem
sido, na melhor das circunstncias, uma vitria de Pirro. Os remdios maravilhosos parecem produzir
molstias e sofrimentos no menos numerosos e comprovadamente mais agudos do que aqueles que
prometiam curar.

Abandonar e destituir foram celebrados, por um breve perodo, como a derradeira libertao do
sexo da priso em que era mantido por uma sociedade patriarcal, puritana, desmancha-prazeres,
hipcrita e ainda por cima desafortunadamente vitoriana.
Aqui estava, afinal, um relacionamento mais puro que a pureza, um encontro que no servia a outro
propsito seno o prazer e a alegria. Uma felicidade de sonho, sem restries, sem medo de efeitos
colaterais e portanto alegremente cega s suas conseqncias. Uma felicidade do tipo "satisfao
garantida ou seu dinheiro de volta" A mais completa encarnao da liberdade, tal como definida pela
sabedoria e pela prtica populares da sociedade de consumo.
                                                                                                               31
         correto, talvez at estimulante e ao mesmo tempo maravilhoso, que o sexo seja assim
liberado. O problema  como mant-lo no lugar quando o lastro foi lanado ao mar; como mant-lo na
frma se no se dispe mais das estruturas. Voar suavemente traz contentamento, voar sem direo
provoca estresse. A mudana  jubilosa; a volatilidade, incmoda. A insustentvel leveza do sexo?
        Volkmar Sigusch  terapeuta. Diariamente, trava conhecimento com vtimas do "sexo puro:
registra as queixas de seus pacientes -- e a lista de lamrias a exigir a interveno de um especialista
cresce indefinidamente. O sumrio de suas descobertas  to sombrio quanto ponderado.

       Todas as formas de relacionamento ntimo atualmente em voga portam a mesma mscara de falsa
       felicidade que foi usada pelo amor conjugal e mais tarde pelo amor livre ... Ao olharmos mais de perto e
       afastarmos a mscara, descobrimos anseios no-realizados, nervos em frangalhos, amores frustrados,
       sofrimentos, medos, solido, hipocrisia, egosmo e compulso  repetio ... As performances substituram
       o xtase, o fsico est por dentro, a metafsica, por fora ... A abstinncia, a monogamia e a promiscuidade
       esto todas igualmente distantes da livre vida da sensualidade que nenhum de ns conhece. (4)

        Consideraes tcnicas igualam infortnio a emoes. A concentrao na performance no deixa
tempo nem espao para o xtase. O fsico no  o caminho que leva  metafsica. O poder de seduo do
sexo costumava fluir da emoo, do xtase e da metafsica -- como ocorreria agora, mas o mistrio se foi
e desse modo os anseios no podem continuar irrealizados...
        Quando o sexo se apresenta como um evento fisiolgico do corpo e a palavra "sensualidade"
pouco evoca seno uma prazerosa sensao fsica, ele no est liberado de fardos suprfluos, avulsos,
inteis, incmodos e restritivos. Est, ao contrrio, sobrecarregado, inundado de expectativas que
superam sua capacidade de realizao.
        As ntimas conexes do sexo com o amor, a segurana, a permanncia e a imortalidade via
continuao da famlia no eram, afinal de contas, to inteis e constrangedoras como se imaginava, se
sentia e se acusava que fossem. Os antigos companheiros do sexo, supostamente antiquados, talvez
fossem seus sustentculos necessrios (no pela perfeio tcnica da performance, mas por sua
recompensa potencial). Talvez as contradies de que a sensualidade est endemicamente tomada no
tenham maiores possibilidades de serem resolvidas (mitigadas, esvaziadas, neutralizadas) na ausncia de
"restries" do que na presena destas. Talvez essas restries sejam proezas da engenhosidade cultural
em vez de smbolos de equvocos ou fracassos nesse terreno.

A lquida racionalidade moderna recomenda mantos leves e condena as caixas de ao.
        Nos compromissos duradouros, a lquida razo moderna enxerga a opresso; no engajamento
permanente percebe a dependncia incapacitante. Essa razo nega direitos aos vnculos e liames, espaciais
ou temporais. Eles no tm necessidade ou uso que possam ser justificados pela lquida racionalidade
moderna dos consumidores. Vnculos e liames tornam "impuras" as relaes humanas -- como o fariam
com qualquer ato de consumo que presuma a satisfao instantnea e, de modo semelhante, a instantnea
obsolescncia do objeto consumido. Os advogados de defesa das "relaes impuras" teriam de se esforar
para tentar convencer os jurados e obter sua aprovao.
Sigusch acredita que cedo ou tarde "os impulsos e desejos que escapam aos grilhes da racionalidade"
retornaro -- e traro vingana. E quando o fizerem no seremos capazes de responder "sem recorrer ao
uso de conceitos sobre instintos naturais e valores eternos corrompidos at a raiz, histrica e
politicamente".
        Se isso vier a ocorrer, como Sigusch prenuncia ou prev, vai exigir mais do que apenas uma nova
viso do sexo e das expectativas que podem ser legitimamente investidas nos atos sexuais. Exigir nada
menos que libertar o sexo da soberania da racionalidade do consumidor. Talvez exija ainda mais: que essa
racionalidade seja destituda de sua atual soberania sobre os motivos e estratgias da poltica de vida
humana -- que essa soberania lhe seja cassada. Isso significaria, contudo, exigir mais do que seria
razovel esperar num futuro previsvel.

"Os impulsos e desejos que escapam aos grilhes da racionalidade" (da lquida racionalidade
moderna do consumidor, para ser exato) eram ligados ao sexo de modo inseparvel e inextricvel
                                                                                                        32
porque este, tal como outras atividades humanas, estava entrelaado ao modelo de vida do
produtor.
        Dentro desse modelo, nem o amor "at que a morte nos separe", nem construir pontes para a
eternidade, nem consentir em "entregar refns ao destino" e em estabelecer compromissos sem volta eram
coisas redundantes -- muito menos percebidas como limitadoras ou opressivas. Pelo contrrio,
costumavam ser os "instintos naturais" do homo faber, tal como agora vo de encontro aos instintos
igualmente "naturais" do homo consumens. Tampouco eram, de qualquer ponto de vista, "irracionais":
eram os equipamentos e manifestaes necessrios e obrigatrios da racionalidade do homo faber. O
amor e a disposio de procriar eram companheiros indispensveis do sexo do homo faber, da mesma
forma que as unies duradouras que ajudavam a criar eram "produtos principais" -- no "efeitos
colaterais", muito menos rejeitos ou refugos, dos atos sexuais.
        Para cada ganho h uma perda. Para cada realizao, um preo.
        No importam o horror e a repulsa com que recordamos ou evocamos os preos pagos e as perdas
sofridas no passado -- as perdas suportadas hoje e os preos a serem pagos amanh so os que mais
incomodam e magoam. No h sentido em comparar os sofrimentos do passado e do presente, tentando
descobrir qual deles  menos suportvel. Cada angstia fere e atormenta no seu prprio tempo.
        As agonias atuais do homo sexualis so as mesmas do homo consumens. Elas nasceram juntas. Se
um dia se forem, marcharo ombro a ombro.

A capacidade sexual era a ferramenta usada pelo homo faber para erigir e manter as relaes
humanas.
        Quando disposta no canteiro de obras dos laos humanos, a necessidade/desejo sexual encorajava
o homo sexualis a permanecer no trabalho e a enxergar atravs dele, uma vez iniciado. Os construtores
desejavam que o resultado de seus esforos, como se espera de todas as edificaes, fossem solidamente
estruturados, durveis e seguros (de preferncia para sempre).
        Com demasiada freqncia os construtores tinham muita confiana em seu poder de planejamento
para se preocupar com os sentimentos do(s) futuro(s) morador(es). O respeito , afinal, apenas um dos
lados da faca de dois gumes da ateno, cuja outra ponta  a opresso. A indiferena e o desprezo so dois
recifes com os quais muitas intenes ticas honestas tm se chocado, e os eus morais precisam de muita
vigilncia e habilidade de navegao para passar inclumes por eles. Isso dito, parece, no obstante, que a
moral -- aquele Frsein ditado pela responsabilidade por um Outro e posto em operao assim que
assumido --, com todas as suas paisagens deslumbrantes e seus desvios e emboscadas traioeiros, foi
feita sob medida para o homo faber.
        Libertado das tarefas de construo e ressentido dos esforos exigidos por elas, o homo
consumens pode empregar seus poderes sexuais de formas novas e imaginativas. O Frsein, porm, no 
uma delas.

O que caracteriza o consumismo no  acumular bens (quem o faz deve tambm estar preparado
para suportar malas pesadas e casas atulhadas), mas us-los e descart-los em seguida a fim de
abrir espao para outros bens e usos.
        A vida consumista favorece a leveza e a velocidade. E tambm a novidade e a variedade que elas
promovem e facilitam.  a rotatividade, no o volume de compras, que mede o sucesso na vida do homo
consumens.
        Em geral, a capacidade de utilizao de um bem sobrevive  sua utilidade para o consumidor.
Mas, usada repetidamente, a mercadoria adquirida impede a busca por variedade, e a cada uso a aparncia
de novidade vai se desvanecendo e se apagando. Pobres daqueles que, em razo da escassez de recursos,
so condenados a continuar usando bens que no mais contm a promessa de sensaes novas e inditas.
Pobres daqueles que, pela mesma razo, permanecem presos a um nico bem em vez de flanar entre um
sortimento amplo e aparentemente inesgotvel. Tais pessoas so os excludos na sociedade de consumo,
os consumidores falhos, os inadequados e os incompetentes, os fracassados -- famintos definhando em
meio  opulncia do banquete consumista.
        Aqueles que no precisam se agarrar aos bens por muito tempo, e decerto no por tempo
suficiente para permitir que o tdio se instale, so os bem-sucedidos. Na sociedade dos consumidores, o
prestidigitador  a figura de sucesso. No fosse isto um antema para os fornecedores de bens de
                                                                                                       33
consumo, os consumidores fiis ao seu carter e destino desenvolveriam o hbito de alugar coisas em
vez de compr-las. Diferentemente dos vendedores de mercadorias, as empresas de locao prometem, de
modo tentador, substituir com regularidade os bens alugados por modelos de ltimo tipo. Os vendedores,
para no ficarem para trs, prometem devolver o dinheiro se o cliente no estiver plenamente satisfeito e
se (na esperana de que a satisfao no se evapore to rpido) os bens adquiridos forem devolvidos
dentro de, digamos, dez dias.
        A "purificao" do sexo permite que a prtica sexual seja adaptada a esses avanados padres de
compra/locao. O "sexo puro"  construdo tendo-se em vista uma espcie de garantia de reembolso -- e
os parceiros do "encontro puramente sexual" podem se sentir seguros, conscientes de que a inexistncia
de "restries" compensa a perturbadora fragilidade de seu engajamento.
        Graas a um inteligente estratagema publicitrio, o significado vernculo de "sexo seguro" foi
recentemente reduzido ao uso de preservativos. O slogan no seria o sucesso comercial que  se no
atingisse um ponto sensvel de milhes de pessoas que desejam que suas exploraes sexuais sejam
garantidas contra conseqncias indesejveis (j que incontrolveis). Afinal,  estratgia geral nas
promoes apresentar o produto em oferta como a soluo procurada para problemas que ou j vinham
assombrando seus provveis clientes ou acabaram de ser inventados para se adequarem ao potencial do
produto.
        Com muita freqncia, a pea publicitria substitui o todo pela parte. As vendas crescem graas a
suprimentos de angstia que excedem em muito a capacidade de cura do produto. Com efeito, usar
preservativo protege os parceiros sexuais de serem infectados pelo HIV. Mas essa infeco no  seno
uma das muitas conseqncias imprevistas e certamente no-negociadas dos encontros sexuais que
tornam o homo sexualis desejoso de que o sexo seja "seguro". Tendo escapado de um porto exguo,
embora controlado para navegar por guas inexploradas, sem mapa nem bssola, o sexo comeou a ser
visto como decididamente "inseguro" bem antes que a descoberta da aids fornecesse o rtulo e o ponto
focal para temores difusos e inominados.
        O maior deles provinha da ambigidade do encontro sexual: seria esse o passo inicial na direo
de um relacionamento ou sua coroao e seu trmino? Um estgio numa seqncia significativa ou um
episdio singular, um meio para um fim ou um ato independente? Nenhuma unio de corpos pode, por
mais que se tente, escapar  moldura social e cortar todas as conexes com outras facetas da existncia
social. Privado de seu antigo prestgio social e de significados que antes eram socialmente aprovados, o
sexo encapsulava a incerteza aflitiva e alarmante que se tornou a principal runa da lquida vida moderna.
        Qualificar os parceiros sexuais tornou-se o primeiro foco de ansiedade. Que tipo de
compromissos, se  que algum, a unio de corpos impe? De que forma eles afetam o futuro dos
parceiros, se  que afetam? O encontro sexual pode ser isolado dos demais propsitos da vida, ou ser que
ele vai (tender a, ganhar espao para) esparramar-se pelo resto da existncia, saturando-a e
transformando-a?
        Em si mesma, a unio sexual  de curta durao -- na vida dos parceiros,  um episdio. Como
aponta Milan Kundera, um episdio "no  a conseqncia inevitvel de uma ao precedente, nem a
causa do que vir em seguida"'. A imaculada conceio cum esterilidade, a ausncia essencial da
possibilidade de contgio,  uma das belezas do episdio -- e assim, podemos dizer, tambm  a beleza
de um encontro sexual, contanto que este continue sendo um episdio. O problema, porm,  que
"ningum pode garantir que um evento totalmente episdico no contenha em si uma fora capaz de
algum dia transformar-se, inesperadamente, na causa de eventos futuros". Para resumir uma longa
histria: "nenhum episdio est condenado a priori a permanecer eternamente como um episdio"
Nenhum episdio est a salvo de suas conseqncias. A insegurana decorrente  eterna. A incerteza
nunca se dissipar de modo total e irrevogvel. Pode apenas ser suspensa por um tempo indeterminado --
mas o prprio recipiente da suspenso  assaltado por dvidas e assim se torna outra fonte de cansativa
insegurana.

O casamento , pode-se dizer, a aceitao da causalidade que os encontros casuais se recusam a
aceitar (ou pelo menos uma declarao da inteno de aceit-la -- enquanto a unio durar).
       Nesse caso, a ambigidade se resolve e a incerteza  substituda pela garantia de que os atos
realmente tm uma importncia que ultrapassa o seu prprio espao temporal e acarretam conseqncias
                                                                                                         34
que podem durar mais do que as suas causas. A incerteza  exilada da vida dos parceiros e seu retorno
 impedido enquanto o trmino do casamento no esteja em vista.
        Mas ser possvel banir a incerteza sem concordar com essa condio -- um preo que muitos
parceiros considerariam alto demais? Impossvel, se nunca se pode estar certo de que, como indica
Kundera, o episdio no foi nada mais que um episdio. Mas ainda se pode tentar, e de fato se tenta, e por
mais adversas que sejam as probabilidades dificilmente desistimos de tentar mud-las em nosso favor.
        Reconhecidamente, os parisienses tentam mais que a maioria, e de modo mais engenhoso. Em
Paris, o changisme11 (um nome novo e, dada a recente igualdade entre os sexos, mais politicamente
correto para um conceito um pouco mais antigo, recendendo a patriarcalismo, a troca de esposas)
supostamente se tornou a moda, o jogo mais popular e o principal assunto do momento.
        Les changistes esto matando dois coelhos com uma s cajadada. Em primeiro lugar, eles
afrouxam um pouco os grilhes do compromisso matrimonial, concordando em tornar menos obrigatrias
as suas conseqncias e, portanto, um pouco menos angustiante a incerteza gerada pela obscuridade
endmica das expectativas. Em segundo lugar, conseguem cmplices leais em seu esforo para rechaar
as conseqncias incertas, e portanto irritantes, do encontro sexual -- j que todas as partes interessadas,
tendo participado do evento e portanto desejosas de evitar que escape  moldura do episdio, seguramente
estaro juntas nesse rechao.
        Como estratgia para enfrentar o espectro da incerteza, do qual, como se sabe, os episdios
sexuais esto repletos, o changisme tem uma vantagem sobre o sexo casual e outros encontros
igualmente arriscados e de curta durao. A proteo contra conseqncias indesejveis , nesse caso,
dever e preocupao de outra pessoa e, na pior das circunstncias, no constitui um esforo solitrio, mas
uma tarefa compartilhada com aliados poderosos e dedicados. A vantagem do changisme sobre o
simples adultrio  particularmente gritante. Nenhum dos changistes  trado, nenhum deles tem os
interesses ameaados e, tal como no modelo ideal de Habermas da "comunicao no-distorcida", todos
so participantes. O mnage  quatre (ou six, huit... quanto mais melhor) est livre de todas as pragas e
deficincias que se sabe serem a maldio do mnage  trois.
        Como se poderia esperar quando o propsito e alvo da iniciativa  afastar o fantasma da
insegurana, o changisme procura entrincheirar-se em instituies contratuais e obter o apoio da lei. A
pessoa torna-se changiste ingressando num clube, assinando um formulrio, prometendo obedincia s
regras (e esperando que todos os outros  sua volta tenham feito o mesmo) e recebendo um carto de
scio para garantir o ingresso e assegurar que quem est l dentro seja simultaneamente um parceiro e um
jogo. J que todos os que l se encontram conhecem os objetivos e regras do clube e prometeram observ-
los, toda discusso ou uso da fora, todos os perigos da seduo e de outras preliminares incmodas e
precrias, infestadas de resultados incertos, se tornaram redundantes.
        Ou assim parece, por algum tempo. As convenes do changisme podem, como j prometeram
os cartes de crdito, evitar a espera para se satisfazer os desejos. Da mesma forma que a maioria das
inovaes tecnolgicas recentes, elas encurtam a distncia entre o impulso e sua satisfao e fazem com
que a passagem de um a outro seja mais rpida e menos trabalhosa. E podem tambm evitar que um
parceiro exija mais benefcios do que o encontro episdico permite.
        Mas ser que elas defendem o homo sexualis de si mesmo? Ser que os anseios irrealizados, as
frustraes amorosas, os temores de ficar s e de se ferir, a hipocrisia e a culpa so deixados para trs
depois de uma visita ao clube? Ser possvel encontrar l a intimidade, a alegria, a ternura, a afeio e o
amor? Bem, o visitante pode dizer de boa-f: isto  sexo, seu estpido -- no tem nada a ver com nada
disso. Mas se ele ou ela estiver certo(a), ser que o sexo em si  importante? Ou que, seguindo Sigusch, se
a substncia da atividade sexual  a obteno do prazer instantneo, "ento o mais importante no  o que
se faz, mas simplesmente que acontea".

Comentando Bodies that matter: On the discursive limits of sex, obra altamente influente de Judith
Butler (6), Sigusch assinala que, "de acordo com as tericas que agora do o tom no discurso de
gnero, tanto sexo quanto gnero so inteiramente determinados pela cultura, desprovidos de
qualquer carter natural e, portanto, alterveis, transitrios e passveis de subverso".
        como se a oposio natureza-cultura no fosse o melhor arcabouo no qual se pudessem
inscrever os dilemas do atual embarao a respeito de sexo/gnero. O que est em disputa  o grau em que
11
     No Brasil conhecido como suingue ou troca de casais. (N.T.)
                                                                                                        35
vrios tipos de inclinaes/preferncias/identidades so flexveis, alterveis e dependentes da escolha
do sujeito. Mas as oposies entre cultura e natureza, e entre " uma questo de escolha" e "os seres
humanos so incapazes de evitar e nada podem fazer a respeito", mais se superpem como durante grande
parte da histria moderna e at recentemente. No discurso popular, a cultura se apresenta cada vez mais
como a parte herdada da identidade que no se pode nem deve remendar (seno por obra e risco de quem
remenda), enquanto os traos e atributos tradicionalmente classificados como "naturais" (hereditrios,
geneticamente transmitidos) so cada vez mais considerados sujeitos  manipulao humana e portanto
abertos  escolha -- uma escolha em relao  qual, como sempre, quem escolhe deve sentir-se
responsvel e assim ser visto pelos outros.
        Desse modo, no importa muito se as predilees sexuais (articuladas como "identidade sexual")
so "dons da natureza" ou "construtos culturais". O que realmente importa  se cabe ao homo sexualis
determinar (descobrir ou inventar) qual (ou quais) das mltiplas identidades sexuais melhor se ajusta a ele
ou ela, ou se, tal como o homo sapiens no caso da "comunidade de nascimento", ele ou ela est
destinado(a) a abraar esse destino e viver sua vida de uma forma que transforme uma sina inaltervel
numa vocao pessoal.
        Qualquer que seja o vocabulrio usado para articular a atual situao do homo sexualis, e quer se
vejam o autotreinamento e a autodescoberta ou as intervenes mdicas e genticas como o caminho
certo para se atingir a identidade sexual adequada/desejada, o essencial continua sendo a "alterabilidade",
a transitoriedade, a no-finalidade das identidades sexuais assumidas, quaisquer que sejam. A vida do
homo sexualis , por esse motivo, carregada de ansiedade. H sempre a suspeita -- mesmo que
apaziguada e inativa por algum tempo -- de que se esteja vivendo uma mentira ou um equvoco; de que
algo de importncia crucial foi esquecido, perdido, negligenciado, permanecendo no-ensaiado e
inexplorado; de que no se cumpriu uma obrigao vital para o eu autntico da prpria pessoa, ou de que
algumas oportunidades de felicidade de um tipo desconhecido, completamente diferentes do que se
vivenciou antes, ainda no foram aproveitadas e tendem a se perder para sempre se continuarem
desconsideradas.
O homo sexualis est condenado a permanecer para sempre incompleto e irrealizado -- mesmo numa era
em que o fogo sexual, que no passado se teria arrefecido, agora deve ser, espera-se, novamente insuflado
pelos esforos conjuntos de nossas ginsticas miraculosas e de nossos remdios maravilhosos. A viagem
nunca termina, o itinerrio  recomposto a cada estao e o destino final  sempre desconhecido.

A subdefinio, a incompletude e a ausncia de finalidade da identidade sexual (tal como todas as
outras facetas da identidade nos lquidos ambientes modernos) so um veneno e seu antdoto
misturados numa poderosa superdroga antitranqilizante.
        A conscincia dessa ambivalncia  desalentadora e no produz o fim da ansiedade. Gera uma
incerteza que s pode ser temporariamente apaziguada, jamais totalmente extinta. Contamina qualquer
condio escolhida/atingida com dvidas persistentes a respeito de sua propriedade e sabedoria. Mas
tambm protege da humilhao que vem com o fracasso parcial ou total. H sempre a possibilidade de
pr a culpa numa escolha, considerando-a equivocada, e no na incapacidade de aproveitar as
oportunidades por ela oferecidas, pelo fato de a bem-aventurana prevista no ter conseguido se
materializar. H sempre uma chance de abandonar a estrada pela qual se chegaria  realizao e
recomear -- mesmo que a partir do zero, se as perspectivas parecerem atraentes.
        O efeito combinado do veneno e do antdoto  manter o homo sexualis em perptuo movimento,
empurrado  frente ("esse tipo de sexualidade no conseguiu produzir a experincia culminante que me
disseram que traria") e puxado para trs ("outros tipos que vi e ouvi esto ao meu alcance --  apenas
uma questo de deciso e esforo").
        O homo sexualis no  uma condio, muito menos uma condio permanente e imutvel, mas um
processo, cheio de tentativas e erros, viagens exploratrias arriscadas e descobertas ocasionais,
intercaladas por numerosos tropeos, arrependimentos por oportunidades perdidas e alegrias por prazeres
ilusrios.

Em seu ensaio sobre a moral sexual "civilizada" (7), Sigmund Freud insinua que a civilizao se
baseia em grande parte na explorao e mobilizao da capacidade natural humana de "sublimar"
                                                                                                          36
os instintos sexuais: "trocar [o] propsito originalmente sexual por algum outro" --
particularmente por causas socialmente teis.
        Para atingir esse efeito, os escoadouros "naturais" dos instintos sexuais (tanto auto-erticos quanto
objeto-erticos) so represados -- cortados de vez ou pelo menos parcialmente bloqueados. Imprestvel e
em desuso, o impulso sexual  ento redirecionado por meio de dutos socialmente construdos para alvos
resultantes do mesmo processo. "As foras que podem ser empregadas para atividades culturais so,
portanto, em grande medida, obtidas por meio da supresso daquilo que se conhece como elementos
perversos da excitao sexual."
        Segundo Derrida,  justificado suspeitarmos de uma circularidade fatal nessa ltima proposio.
Certos "elementos de excitao sexual" so considerados "perversos" porque resistem  supresso e,
portanto, no podem ser empregados para as atividades definidas como culturais (isto , meritrias). No
entanto, para o homo sexualis inserido no lquido ambiente moderno, as fronteiras que separam as
manifestaes "saudveis" e "perversas" em matria de instintos sexuais esto totalmente embaadas.
Todas as formas de atividade sexual so no apenas toleradas, mas freqentemente indicadas como
terapias teis para uma ou outra forma de enfermidade psicolgica, e cada vez mais aceitas como vias
legtimas na busca individual da felicidade, sendo estimulada a sua exibio em pblico. (A pedofilia e a
pornografia infantil constituem possivelmente os nicos escoadouros do impulso sexual que continuam
sendo quase unanimemente execrados como perversos. Sobre esse aspecto, porm, Sigusch comenta, de
modo custico embora correto, que o segredo dessa unanimidade atpica pode estar no fato de que a
oposio  pornografia infantil "nada exige de ns seno o leo do humanismo que to efetivamente
lubrificou, no passado, as rodas da violncia. S alguns, contudo, se colocam seriamente a favor de
programas capazes de salvar vidas de crianas, j que custariam dinheiro e conforto ao mesmo tempo em
que exigiriam a adoo de um modo de existncia diferente".)
        Em nossa lquida era moderna, os poderes constitudos no mais parecem interessados em traar a
fronteira entre o sexo correto" e o "perverso" A razo talvez seja a rpida queda da demanda pelo
emprego da energia sexual economizada em favor de "causas civilizantes" (leia-se: a produo de
disciplina sobre os padres de comportamento rotineiro, funcionais numa sociedade de produtores) --
desvio que Freud, escrevendo no incio do sculo XX, dificilmente poderia ter adivinhado, para no dizer
visualizado.
        Os objetos "socialmente teis" oferecidos para descarga sexual no precisam mais ser disfarados
como "causas culturais". Eles desfilam, com orgulho e, sobretudo, grandes benefcios, sua sexualidade
endmica ou inventada. Depois da poca em que a energia sexual tinha de ser sublimada para que a linha
de montagem de automveis se mantivesse em movimento, veio uma poca em que a energia sexual
precisava ser ampliada e liberada para selecionar qualquer canal que pudesse estar  mo e estimulada a
se expandir, de modo que os veculos que saam da linha de montagem pudessem ser ardentemente
desejados como objetos sexuais.
        Parece que o elo entre a sublimao do instinto sexual e sua represso, que Freud considerava
condio indispensvel de qualquer arranjo social disciplinado, foi rompido. A lquida sociedade moderna
descobriu uma forma de explorar a propenso/ receptividade humana a sublimar os instintos sexuais sem
recorrer  represso, ou pelo menos limitando-a radicalmente. Isso aconteceu graas  progressiva
desregulao do processo sublimatrio, agora difuso e disperso, o tempo todo mudando de direo e
guiado pelaseduo dos objetos de desejo sexual em oferta, e no por quaisquer presses coercitivas.

Communitas em oferta

Quando a qualidade o decepciona, voc procura a salvao na quantidade. Quando a durao no
est disponvel,  a rapidez da mudana que pode redimi-lo.
        Se voc se sente pouco  vontade nesse mundo fluido, perdido em meio  profuso de sinais de
trnsito contraditrios que parecem mover-se como uma estante sobre rodinhas, visite um ou mais
daqueles especialistas para cujos servios nunca houve demanda nem oferta maiores.
        Adivinhos e astrlogos de eras passadas costumavam dizer a seus clientes como seria o seu futuro,
pr-decidido, imutvel e implacvel, independente do que fizessem ou deixassem de fazer. Os
especialistas de nossa fluida era moderna, mais provavelmente, repassariam a responsabilidade a seus
confusos e perplexos clientes.
                                                                                                      37
        Estes descobririam que sua ansiedade pode ser atribuda a seus feitos e desfeitos, e procurariam
(e certamente encontrariam os erros cometidos ao longo de suas vidas): pouca autoconfiana,
autoproteo ou auto-adestramento, porm mais provavelmente, falta de flexibilidade, apego demasiado a
velhas rotinas, pessoas ou lugares, carncia de entusiasmo por mudanas e uma indisposio para mudar
uma segunda vez. Os especialistas podem recomendar mais apreo, viglia e cuidado por si mesmo, maior
ateno  capacidade interior para o prazer e a satisfao -- assim como "depender" menos dos outros e
dar menos considerao s demandas destes por ateno e cuidado; maior distanciamento e sobriedade ao
fazer o balano das expectativas razoveis de ganhos e das perspectivas realistas de perdas. Os clientes
que aprenderam diligentemente as lies e seguiram fielmente os conselhos de agora em diante devem se
perguntar com maior freqncia "o que eu ganho com isso?" e exigir mais resolutamente dos parceiros, e
de todos os demais, que lhes dem "mais espao" -- ou seja, manter-se distanciados e no esperar,
tolamente, que os compromissos assumidos durem para sempre.
        No se deixe apanhar. Evite abraos muito apertados. Lembre-se de que, quanto mais profundas e
densas suas ligaes, compromissos e engajamentos, maiores os seus riscos. No confunda a rede -- um
turbilho de caminhos sobre os quais se pode deslizar -- com uma malha, essa coisa traioeira que, vista
de dentro, parece uma gaiola.
        E lembre-se, claro, de que apostar todas as suas fichas em um s numero  a mxima insensatez!

Seu celular est sempre tocando (ou assim voc espera).
        Uma mensagem brilha na tela em busca de outra. Seus dedos esto sempre ocupados: voc
pressiona as teclas, digitando novos nmeros para responder s chamadas ou compondo suas prprias
mensagens. Voc permanece conectado -- mesmo estando em constante movimento, e ainda que os
remetentes ou destinatrios invisveis das mensagens recebidas e enviadas tambm estejam em
movimento, cada qual seguindo suas prprias trajetrias. Os celulares so para pessoas em movimento.
        Voc nunca perde de vista o seu celular. Sua roupa de jogging tem um bolso especial para ele, e
voc nunca sai com aquele bolso vazio, da mesma forma que no vai correr sem o seu tnis. Na verdade,
voc no iria a nenhum lugar sem o celular ("nenhum lugar" , afinal, o espao sem um celular, com um
celular fora de rea ou sem bateria). Estando com o seu celular, voc nunca est fora ou longe. Encontra-
se sempre dentro -- mas jamais trancado em um lugar. Encasulado numa teia de chamadas e mensagens,
voc est invulnervel. As pessoas a seu redor no podem rejeit-lo e, mesmo que tentassem, nada do que
realmente importa iria mudar.
No importa onde voc est, quem so as pessoas  sua volta e o que voc est fazendo nesse lugar onde
esto essas pessoas. A diferena entre um lugar e outro, entre um e outro grupo de pessoas ao alcance de
sua viso e de seu toque, foi suprimida, tornou-se nula e vazia. Voc  o nico ponto estvel num
universo de objetos em movimento -- e assim o so igualmente (graas a voc, graas a voc!) suas
extenses: suas conexes. Estas permanecero inclumes apesar de os que esto conectados por elas se
moverem. Conexes so rochas em meio a areias movedias. Com elas voc pode contar -- e, j que
confia na sua solidariedade, pode parar de se preocupar com o aspecto lamacento e traioeiramente
escorregadio do terreno onde est pisando quando uma chamada ou mensagem  enviada ou recebida.
        Uma chamada no foi respondida? Uma mensagem no foi retornada? Tambm no h motivo
para preocupao. Existem muitos outros nmeros de telefones na lista, e aparentemente no h limite
para o volume de mensagens que voc pode, com a ajuda de algumas teclas diminutas, comprimir naquele
pequeno objeto que se encaixa to bem em sua mo. Pense nisto (quer dizer, se houver tempo para
pensar):  absolutamente improvvel chegar ao fim de seu catlogo porttil ou digitar todas as mensagens
possveis. H sempre mais conexes para serem usadas -- e assim no tem grande importncia quantas
delas se tenham mostrado frgeis e passveis de ruptura. O ritmo e a velocidade do uso e do desgaste
tampouco importam. Cada conexo pode ter vida curta, mas seu excesso  indestrutvel. Em meio 
eternidade dessa rede imperecvel, voc pode se sentir seguro diante da fragilidade irreparvel de cada
conexo singular e transitria.
        Dentro da rede, voc pode sempre correr em busca de abrigo quando a multido  sua volta ficar
delirante demais para o seu gosto. Graas ao que se torna possvel desde que seu celular esteja escondido
com segurana no seu bolso, voc se destaca da multido -- e destacar-se  a ficha de inscrio para
scio, o termo de admisso nessa multido.
                                                                                                                      38
Uma multido de pessoas destacadas: um enxame, para ser mais preciso. Um agregado de indivduos
autopropulsores que no precisam de comandantes, testas-de-ferro, porta-vozes, agentes provocadores ou
informantes para se manterem juntos. Um agregado em movimento no qual cada unidade mvel faz a
mesma coisa, mas nada  feito em conjunto. As unidades marcham no mesmo passo sem sair do
alinhamento. Coerente consigo mesma, a multido expulsa ou atropela as unidades que se destacam --
mas so apenas essas as unidades toleradas pelo enxame.
       Os telefones celulares no criam o enxame, embora sem dvida ajudem a mant-lo como  -- um
enxame. Este, por sua vez, estava esperando por Nokias e Ericssons e Motorolas vidos por servi-lo. Se
no houvesse enxame, qual seria a utilidade dos celulares?

Aos que se mantm  parte, os celulares permitem permanecer em contato. Aos que permanecem
em contato, os celulares permitem manter-se  parte...
      Jonathan Rowe nos lembra:

       No final da dcada de 1990, em meio ao boom da alta tecnologia, passei algumas horas num caf na rea dos teatros
       de So Francisco... Observei uma cena recorrente l fora. A me est amamentando o beb. Os garotos esto
       beliscando seus bolinhos, em suas cadeiras, com os ps balanando. E l est o pai, ligeiramente reclinado sobre a
       mesa, falando ao celular ... Deveria ser uma "revoluo nas comunicaes", e no entanto aqui, no epicentro
       tecnolgico, os membros dessa famlia estavam evitando os olhares uns dos outros (8)

        Dois anos depois, Rowe provavelmente veria quatro celulares em operao em torno da mesa. Os
aparelhos no impediriam que a me amamentasse o beb nem que os garotos beliscassem seus bolinhos.
Mas tornariam desnecessrio que eles evitassem olhar-se nos olhos: quela altura, de qualquer forma, os
olhos j se teriam tornado paredes em branco -- e uma parede em branco no pode sofrer danos por
encarar uma outra. Com tempo suficiente, os celulares treinariam os olhos a olhar sem ver.
        Como aponta John Urry, "as relaes de co-presena sempre envolvem contigidade e
afastamento, proximidade e distncia, sensatez e imaginao" (9).  verdade; mas a presena ubqua e
contnua da terceira -- da "proximidade virtual", universal e permanentemente disponvel graas  rede
eletrnica -- faz a balana pender decididamente em favor do afastamento, da distncia e da imaginao.
Ela anuncia (ou ser que pressagia?) uma separao final entre o "fisicamente distante" e o
"espiritualmente remoto". O primeiro no  mais condio para o segundo. Este agora tem sua prpria
"base material" high-tech, infinitamente mais ampla, flexvel, variada, atraente e prenhe de aventura do
que qualquer rearranjo de corpos materiais. E a proximidade fsica tem menos chance do que nunca de
interferir no afastamento espiritual...
        Urry est correto ao descartar as profecias que falam de um iminente desaparecimento das
viagens, tornadas redundantes pela facilidade de conexo eletrnica. Se no por outro motivo, porque o
advento do deslocamento eletronicamente garantido faz com que viajar se torne mais seguro, menos
arriscado e excludente-- e assim anula muitos dos antigos limites ao poder magntico de "conhecer
lugares". Os celulares assinalam, material e simbolicamente, a derradeira libertao em relao ao lugar.
Estar perto de uma tomada no  mais a nica condio para "permanecer conectado". Os viajantes
podem eliminar de seus clculos de perdas e ganhos as diferenas entre partir e ficar, distncia e
proximidade, civilizao e isolamento.
        Muito software e hardware foi enterrado no cemitrio dos computadores desde que o inesquecvel
Peter Sellers tentou em vo no filme Muito alm do jardim (1979), de Hal Ashby, desligar um bando de
freiras com a ajuda de um controle remoto de televiso. Nos dias de hoje ele no teria dificuldade em
delet-las do quadro -- do quadro que ele viu, do seu quadro, a soma de todas as relevncias do mundo
ao seu alcance. O outro lado da moeda da proximidade virtual  a distncia virtual: a suspenso, talvez at
a anulao, de qualquer coisa que transforme a contigidade topogrfica em proximidade. A proximidade
no exige mais a contigidade fsica; e a contigidade fsica no determina mais a proximidade.
         uma questo em aberto saber qual lado da moeda mais contribuiu para fazer da rede eletrnica e
de seus implementos de entrada e sada um meio de troca to popular e avidamente usado nas interaes
humanas. Ser a nova facilidade de conectar-se? Ou a de cortara conexo? No faltam ocasies em que
esta ltima parece mais urgente e importante que a primeira.
        O advento da proximidade virtual torna as conexes humanas simultaneamente mais freqentes e
mais banais, mais intensas e mais breves. As conexes tendem a ser demasiadamente breves e banais para
                                                                                                       39
poderem condensar-se em laos. Centradas no negcio  mo, esto protegidas da possibilidade de
extrapolar e engajar os parceiros alm do tempo e do tpico da mensagem digitada e lida -- ao contrrio
daquilo que os relacionamentos humanos, notoriamente difusos e vorazes, so conhecidos por perpetrar.
Os contatos exigem menos tempo e esforo para serem estabelecidos, e tambm para serem rompidos. A
distncia no  obstculo para se entrar em contato -- mas entrar em contato no  obstculo para se
permanecer  parte. Os espasmos da proximidade virtual terminam, idealmente, sem sobras nem
sedimentos permanentes. Ela pode ser encerrada, real e metaforicamente, sem nada mais que o apertar de
um boto.
       A realizao mais importante da proximidade virtual parece ser a separao entre comunicao e
relacionamento. Diferentemente da antiquada proximidade topogrfica, ela no exige laos estabelecidos
de antemo nem resulta necessariamente em seu estabelecimento. "Estar conectado"  menos custoso do
que "estar engajado" -- mas tambm consideravelmente menos produtivo em termos da construo e
manuteno de vnculos.

A proximidade virtual reduz a presso que a contigidade no-virtual tem por hbito exercer. Ela
tambm estabelece o padro para todas as outras proximidades. Toda proximidade est agora no
limite de medir seus mritos e falhas pelo modelo da proximidade virtual.
        A proximidade virtual e a no-virtual trocaram de lugar: agora a variedade virtual  que se tornou
a "realidade", segundo a descrio clssica de mile Durkheim: algo que fixa, que "institui fora de ns
certas formas de agir e certos julgamentos que no dependem de cada vontade particular tomada
isoladamente"; algo que "deve ser reconhecido pelo poder de coero externa" e pela "resistncia
oferecida a todo ato individual que tenda a transgredi-la" (10). A proximidade no-virtual termina
desprovida dos rgidos padres de comedimento e dos rigorosos paradigmas de flexibilidade que a
proximidade virtual estabeleceu. Se no puder imitar aquilo que esta transformou em norma, a
proximidade topogrfica vai se tornar um "ato de transgresso" que certamente enfrentar resistncia. E
assim se permite que a proximidade virtual desempenhe o papel da genuna e inalterada realidade real
pela qual todos os outros pretendentes ao status de realidade devem se avaliar e ser julgados.
        Todo o mundo j viu, escutou e no conseguiu deixar de entreouvir a conversa de outros
passageiros no nibus falando sem parar em seus telefones. H homens de negcios vidos por se
manterem ocupados e parecerem eficientes -- ou seja, por se conectarem a tantos usurios de celulares
quanto possvel e mostrarem que de fato existem muitos deles prontos a receber sua chamada. H
adolescentes e jovens de ambos os sexos dizendo a algum, em casa, por que estao haviam acabado de
passar e qual seria a prxima. Voc pode ter tido a impresso de que eles estavam contando os minutos
que os separavam de seus lares e mal podiam esperar para estar com seus interlocutores em pessoa.
Talvez no lhe tenha ocorrido que muitas dessas conversas entreouvidas no eram ouvertures de
conversas mais longas e substantivas que prosseguiriam em seu lugar de destino -- mas seus substitutos.
Que essas conversas no estavam preparando o terreno para a coisa real, mas eram, elas prprias,
exatamente isso: a coisa real... Que muitos desses jovens vidos por dar seus paradeiros a ouvintes
invisveis iriam dentro em breve, logo que chegassem, correr para seus prprios quartos e trancar as
portas.
        Quando estvamos a uns poucos anos do sbito desenvolvimento da proximidade virtual
eletronicamente acionada, Michael Schluter e David Lee observaram que "ns usamos a privacidade
como um traje pressurizado ... Tudo menos convidar ao encontro; tudo menos envolver-se". Os lares no
so mais ilhas de intimidade em meio aos mares, em rpido resfriamento, da privacidade. Transformaram-
se de compartilhados playgrounds do amor e da amizade em locais de escaramuas territoriais, e de
canteiros de obras onde se constri o convvio em conjuntos de bunkers fortificados. "Ns entramos em
nossas casas separadas e fechamos a porta, e ento entramos em nossos quartos separados e fechamos a
porta. A casa torna-se um centro de lazer multiuso em que os membros da famlia podem viver, por assim
dizer, separadamente lado a lado." (11)
        Seria tolo e irresponsvel culpar as engenhocas eletrnicas pelo lento mas constante recuo da
proximidade contnua, pessoal, direta, face a face, multifacetada e multiuso. E no entanto a proximidade
virtual ostenta caractersticas que, no lquido mundo moderno, podem ser vistas, com boa razo, como
vantajosas -- mas que no podem ser facilmente obtidas sob as condies daquele outro tte--tte, no-
virtual. No admira que a proximidade virtual tenha ganhado a preferncia e seja praticada com maior
                                                                                                      40
zelo e espontaneidade do que qualquer outra forma de contigidade. A solido por trs da porta
fechada de um quarto com um telefone celular  mo pode parecer uma condio menos arriscada e mais
segura do que compartilhar o terreno domstico comum.
       Quanto mais ateno humana e esforo de aprendizado forem absorvidos pela variedade virtual de
proximidade, menos tempo se dedicar  aquisio e ao exerccio das habilidades que o outro tipo de
proximidade, no-virtual, exige. Essas habilidades caem em desuso -- so esquecidas, nem chegam a ser
aprendidas, so evitadas ou a elas se recorre, se isso chega a acontecer, com relutncia. Seu
desenvolvimento, se requerido, pode apresentar um desafio incmodo, talvez at insupervel. Isso
aumenta os encantos da proximidade virtual. Uma vez aberta, a passagem da proximidade no-virtual
para a virtual adquire seu prprio mpeto. Ela parece autoperpetuadora, e tambm  capaz de se auto-
acelerar.

"Na medida em que a gerao amamentada pela rede ingressa em seus primeiros anos de namoro,
o namoro pela internet est decolando. E no se trata de um ltimo recurso.  uma atividade
recreativa.  diverso."
        Assim pensa Louise France (12). Para os atuais coraes solitrios, as discotecas e bares para
solteiros so uma recordao distante, conclui ela. Eles no adquiriram (e no temem no ter adquirido) o
suficiente em termos de ferramentas de sociabilidade que fazer amigos em tais lugares exigiria. Alm
disso, o namoro pela internet tem vantagens que os encontros pessoais no tm: nestes ltimos, o gelo,
uma vez quebrado, pode permanecer quebrado ou derreter-se de uma vez por todas, mas no namoro pela
internet  muito diferente. Como confidenciou um entrevistado de 28 anos da Universidade de Bath:
"Voc sempre pode apertar a tecla para deletar. Deixar de responder um e-mail  a coisa mais fcil do
mundo." France comenta: os usurios dos recursos de namoro on-line podem namorar com segurana,
protegidos por saberem que sempre podem retornar ao mercado para outra rodada de compras. Ou, como
o insinua o dr. Jeff Gavin, da Universidade de Bath, citado por France: na internet pode-se namorar "sem
medo de `repercusses' no mundo real". Ou, de qualquer maneira,  assim que a pessoa se sente ao
conseguir parceiros na internet.  como folhear um catlogo de reembolso postal que traz na primeira
pgina o aviso "compra no-obrigatria" e a garantia ao consumidor da "devoluo do produto caso no
fique satisfeito".
        Terminar quando se deseje -- instantaneamente, sem confuso, sem avaliao de perdas e sem
remorsos --  a principal vantagem do namoro pela internet. Reduzir riscos e, simultaneamente, evitar a
perda de opes  o que restou de escolha racional num mundo de oportunidades fluidas, valores
cambiantes e regras instveis. E o namoro pela internet, ao contrrio da incmoda negociao de
compromissos mtuos, se ajusta perfeitamente (ou quase) aos novos padres de escolha racional.
        Os shopping centers muito tm feito para reclassificar o labor da sobrevivncia como diverso e
recreao. O que costumava ser sofrido e suportado com uma mistura de ressentimento e repulsa, sob a
presso refratria da necessidade, tem adquirido os poderes sedutores de uma promessa de prazeres
incalculveis sem a adio de riscos igualmente incalculveis. O que os shopping centers fizeram pelas
tarefas da sobrevivncia diria, o namoro pela internet tem feito pela negociao de parceria. Mas, tal
como o alvio da necessidade e as presses da "pura sobrevivncia" eram condies necessrias para o
sucesso dos shopping centers, assim tambm o namoro pela internet dificilmente teria xito se no tivesse
sido ajudado e favorecido por terem sido eliminados da lista de suas condies necessrias o engajamento
full-time, o compromisso e a obrigao "de estar  disposio quando o outro precisa".
        A responsabilidade por eliminar essas condies no pode ser atribuda  porta virtual do namoro
eletrnico. Muito mais tem acontecido no caminho em direo  lquida e individualizada sociedade
moderna para tornar os compromissos de longo prazo pouco numerosos, o engajamento a longo prazo
uma rara expectativa e a obrigao de assistncia mtua incondicional uma perspectiva que nem  realista
nem percebida como digna de grandes esforos.

A suposta chave para a felicidade de todos, e assim o propsito declarado da poltica,  o
crescimento do produto nacional bruto (PNB). E o PNB  medido pela quantidade de dinheiro gasta
por todo mundo em conjunto.
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         "Deixe de lado a exacerbao e a histeria", escrevem Jonathan Rowe e Judith Silverstein, "e
crescer significar apenas 'gastar mais dinheiro'. No faz diferena para onde o dinheiro vai, nem por
qu." (13)
Com efeito, a maior parte do dinheiro gasto, e mais ainda do crescimento dos gastos,  usada para
financiar a luta contra o equivalente, para a sociedade de consumo, das "molstias iatrognicas" --
problemas causados pela exacerbao e posterior apaziguamento dos impulsos e novidades de ontem. A
indstria norte-americana de alimentos gasta por ano cerca de 21 bilhes de dlares semeando e
cultivando o desejo por comidas mais sofisticadas, exticas e supostamente mais saborosas e excitantes,
enquanto a indstria de produtos dietticos e de emagrecimento fatura 32 bilhes, e os dispndios com
tratamento mdico, em grande parte explicados pela necessidade de enfrentar a maldio da obesidade,
devem dobrar no curso da prxima dcada. Os habitantes de Los Angeles pagam uma mdia de 800
bilhes de dlares por ano para queimar petrleo, enquanto os hospitais recebem nmeros recordes de
pacientes sofrendo de asma, bronquite e outros problemas respiratrios causados pela poluio
atmosfrica, elevando suas contas j recordistas.  medida que consumir (e gastar) mais do que ontem,
porm (espera-se) nem tanto quanto amanh, se torna a estrada imperial para a soluo de todos os
problemas sociais, e que o cu se torna o limite para o poder de seduo das sucessivas formas de atrair o
consumidor, as empresas de cobrana de dbitos, as firmas de segurana e as unidades penitencirias
tornam-se importantes contribuintes para o crescimento do PNB.  impossvel medir exatamente o papel
enorme e crescente que o estresse provocado pelas preocupaes desgastantes dos consumidores lquido-
modernos desempenha no sentido de elevar as estatsticas do PNB.
         A maneira aceita de calcular o "produto nacional bruto" e seu crescimento, e mais particularmente
o fetiche construdo pela poltica atual em torno dos resultados desse clculo, baseia-se num pressuposto
que no foi testado e cuja exposio  coisa rara --embora seja amplamente contestado quando quer que
isso acontea: que a soma total da felicidade humana cresce conforme uma quantidade maior de dinheiro
troca de mos. Numa sociedade de mercado, o dinheiro troca de mos em toda sorte de ocasies. S para
dar alguns dos exemplos pungentes recolhidos por Jonathan Rowe", o dinheiro troca de mos quando
algum se torna invlido e o carro  totalmente destrudo em um acidente automobilstico; quando
advogados elevam seus honorrios para cuidar de uma ao de divrcio; ou quando pessoas instalam
filtros ou passam a beber gua mineral porque a gua potvel no pode mais ser consumida. E assim, em
todos esses e em casos similares, o "produto interno" cresce, para regozijo dos polticos governantes e dos
economistas que fazem parte de suas equipes.
         O modelo de PNB que domina (monopoliza) a maneira como os habitantes da lquida, consumiste
e individualizada sociedade moderna pensam sobre bem-estar ou sobre uma "boa sociedade" (nas raras
ocasies em que admitem que tais pensamentos penetrem em suas preocupaes com uma vida feliz e
exitosa)  mais notvel no pelo que ele classifica, de modo equivocado ou claramente errneo, mas por
aquilo que nem chega a classificar; por aquilo que ele deixa totalmente fora do clculo, negando assim, na
prtica, qualquer relevncia tpica  questo da sade nacional e do conforto individual e coletivo.

Tal como os Estados modernos, ocupados em ordenar e classificar, no podiam suportar a
existncia de "homens desgovernados", e como os modernos imprios em expanso, vidos por
territrios, no podiam suportar a existncia de terras "de ningum", os mercados modernos no
toleram bem a "economia de no-mercado": o tipo de vida que reproduz a si mesma sem que o
dinheiro troque de mos.
        Para os tericos da economia de mercado, essa vida no conta -- e portanto no existe. Para os
praticantes da economia de mercado, ela constitui uma ofensa e um desafio -- um espao ainda no
conquistado, um permanente convite  conquista, uma tarefa ainda no cumprida clamando por ao
urgente.
        Considerando a natureza temporria de todo e qualquer modos coexistendi entre os mercados e
uma economia no-monetria, os tericos atribuem  vida auto-reprodutiva ou aos fragmentos de vida
auto-reprodutivos nomes que sugerem sua anormalidade e extino iminente. As pessoas que conseguem
produzir os bens de que necessitam para sustentar o seu modo de vida, e que portanto dispensam as
constantes visitas ao shopping, vivem "ao deus-dar"; levam um tipo de existncia que extrai seu
significado unicamente daquilo que lhe faz falta ou que ela omite -- uma existncia primitiva, miservel,
que precede o "salto econmico" com que tem incio a vida normal, sem adjetivos. Cada exemplo de um
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bem trocando de mos sem um fluxo de dinheiro na direo oposta  relegado ao domnio obscuro da
"economia informal" -- novamente o termo adjetivado da oposio cujo outro membro, normal (ou seja,
a troca mediada por dinheiro), no necessita de especificao.
        Os praticantes da economia de mercado fazem o possvel para alcanar os lugares que os
especialistas em marketing ainda no conseguiram atingir. A expanso  ao mesmo tempo horizontal e
vertical, extensiva e intensiva: o que resta a ser conquistado so as terras ainda presas ao seu meio de vida
"ao deus-dar", mas tambm a parcela de tempo dedicada  economia "informal" entre as populaes j
convertidas ao modo de existncia comprador/consumidor. Os meios de subsistncia no-monetrios
precisam ser destrudos de modo que aqueles que deles vivem vejam-se diante da escolha entre comprar e
morrer de inanio (no que, uma vez convertidos  compra, tenham a garantia de escapar da fome). 
preciso mostrar que as reas da vida ainda no mercantilizadas escondem perigos que no podem ser
afastados sem a ajuda de ferramentas e servios comprados, ou que devem ser depreciadas como
inferiores, repulsivas e, em ltima instncia, degradantes. E realmente o so.
        O que est mais visivelmente ausente no clculo econmico dos tericos, e figura no topo da lista
dos alvos da guerra comercial segundo os praticantes do mercado,  a enorme rea do que A.H. Halsey
denominou a "economia moral" -- o compartilhamento familiar de bens e servios, a ajuda entre
vizinhos, a cooperao entre amigos: todos os motivos, impulsos e atos com que se costuram os vnculos
e compromissos duradouros entre os seres humanos.
        O nico personagem que os tericos consideram merecedor de ateno, porque  a ele que se
atribui o mrito de "manter a economia em movimento" e de lubrificar as rodas do crescimento
econmico,  o homo oeconomicus -- o ator econmico solitrio, auto-referente e autocentrado que
persegue o melhor ideal e se guia pela "escolha racional'; preocupado em no cair nas garras de quaisquer
emoes que resistam a ser traduzidas em ganhos monetrios e vivendo num mundo cheio de outros
personagens que compartilham todas essas virtudes, e nada alm. O nico personagem que os praticantes
do mercado podem e querem reconhecer e acolher  o homo consumens o solitrio, auto-referente e
autocentrado comprador que adotou a busca pela melhor barganha como uma cura para a solido e no
conhece outra terapia; um personagem para quem o enxame de clientes do shopping center  a nica
comunidade conhecida e necessria e que vive num mundo povoado por outros personagens que
compartilham todas essas virtudes com ele, e nada alm.
        Der Mann ohne Eigenschaften, o homem sem qualidades, da modernidade precoce amadureceu e
se tornou (ou teria sido obrigado a isso pela fora numrica das massas?) der Mann ohne
Verwandtschaften, o homem sem vnculos.
        O homo oeconomicus e o homo consumens so homens e mulheres sem vnculos sociais. So os
representantes ideais da economia de mercado e os tipos que agradam aos analistas do PNB.
        Eles tambm so fices.

 medida que as barreiras artificiais ao livre comrcio so quebradas, uma aps a outra, e as
naturais, erradicadas e destrudas, a expanso horizontal/extensiva da economia de mercado parece
caminhar para seu fim. Mas a expanso vertical/intensiva est longe de terminar, e chega-se a
duvidar se esse fim  mesmo provvel -- ou se, de fato, sequer  concebvel.
         graas  vlvula de segurana da "economia moral" que as tenses geradas pela economia de
mercado no chegam a assumir propores explosivas.  graas ao amortecedor da "economia moral" que
os dejetos humanos gerados pela economia de mercado no chegam a se tornar incontrolveis. No fosse
pela interveno corretiva, lenitiva, suavizante e compensadora da economia moral, a economia de
mercado exporia seu impulso autodestrutivo. O milagre dirio da salvao/ressurreio da economia de
mercado deriva de seu fracasso em seguir esse impulso at o fim.
        Admitir unicamente o homo oeconomicus e o homo consumens no mundo governado pela
economia de mercado incapacita um nmero considervel de seres humanos para a obteno de
permisses de residncia, enquanto consente a poucos deles -- se  que chega a isso -- desfrutar
legalmente esse direito em qualquer poca e ocasio. Poucos podem escapar da rea cinzenta sem
utilidade para o mercado e que este ficaria feliz em eliminar e banir de uma vez por todas do mundo que
governa.
        O que do ponto de vista da conquista de mercado -- j realizada ou ainda pretendida -- 
representado como uma "rea cinzenta" constitui, para seus habitantes conquistados, parcialmente
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conquistados ou destinados a isso, uma comunidade, um bairro, um crculo de amigos, parceiros na
vida e para a vida. Um mundo em que a solidariedade, a compaixo, a troca, a ajuda e a simpatia mtuas
(noes estranhas ao pensamento econmico e abominadas pela prtica econmica) suspendem ou
afastam a escolha racional e a busca do auto-interesse. Um mundo cujos habitantes no so nem
concorrentes nem objetos de uso e de consumo, mas colegas (ajudantes e ajudados) no esforo contnuo e
interminvel de construir vidas compartilhadas e torn-las possveis.
        A necessidade de solidariedade parece suportar as agresses do mercado e sobreviver a elas --
mas no porque o mercado deixe de tentar. Onde h necessidade h chance de lucro -- e os especialistas
em marketing levam sua engenhosidade ao limite para indicar maneiras de adquirir em lojas a
solidariedade, o sorriso amigo, o convvio ou a ajuda no momento de necessidade. Constantemente tm
xito -- e constantemente fracassam. Sucedneos comercializados no podem substituir vnculos
humanos. Em sua verso  venda, os vnculos se transformam em mercadorias, ou seja, so transportados
para um outro domnio, governado pelo mercado, e deixam de ser os tipos de vnculo capazes de
satisfazer a necessidade de convvio e que s nesta podem ser concebidos e mantidos vivos. No pode ter
xito a caada movida pelo mercado ao capital descontrolado que se esconde na sociabilidade humana
(15).

Quando observada atravs das lentes de um mundo ordenado, adequadamente construdo e
funcionando em harmonia, a "rea cinzenta" da solidariedade, da amizade e das parcerias
humanas  vista como o reino da anarquia.
        O conceito de "anarquia" carrega o peso de sua histria essencialmente antiestatal. De Godwin a
Kropotkin, passando por Proudhon e Bakunin, os tericos e fundadores dos movimentos anarquistas
apresentaram esse termo como a designao de uma sociedade alternativa, o avesso de uma ordem
coercitiva e imposta pelo poder. Essa sociedade que postulavam diferiria da existente devido  ausncia
do Estado -- a sntese do poder desumano, intrinsecamente corruptor. Uma vez desmantelado e
eliminado o poder do Estado, os seres humanos recorreriam (retornariam?) aos valores da ajuda mtua,
usando, como Mikhail Bakunin vivia repetindo, sua capacidade natural de pensar e de se rebelar (16).
        A fria dos anarquistas do sculo XIX concentrava-se no Estado -- no Estado moderno, para ser
preciso, uma novidade na poca, que ainda no estava entrincheirado de modo suficientemente slido
para reclamar legitimidade tradicional ou basear-se na obedincia rotinizada. O Estado empenhava-se em
obter um controle meticuloso e ubquo sobre todos os aspectos da vida humana que os antigos poderes
haviam deixado para os recursos coletivos locais. Reclamava o direito e os meios legais para interferir em
reas das quais os antigos poderes, embora opressivos e exploradores, mantinham distncia. Em
particular, incumbiu-se de desmantelar les pouvoirs intermdiaires, ou seja, as formas de autonomia local,
de auto-afirmao comunal e de autogoverno. Sob ataque, as formas habituais de soluo dos conflitos e
problemas gerados pela vida em conjunto pareceram ser, para os pioneiros dos movimentos anrquicos,
dadas de forma no-problemtica e, portanto, "naturais" Tambm eram imaginadas como auto-
sustentveis e totalmente capazes de manter a ordem sob todas as condies e circunstncias, desde que
protegidas das imposies originrias do Estado. A anarquia, isto , uma sociedade sem o Estado e suas
armas de coero, era visualizada como uma ordem no-coercitiva na qual a necessidade no se chocaria
com a liberdade nem esta se colocaria no caminho dos pr-requisitos da vida em grupo.
        O Weltanschauung do anarquismo inicial compartilhava com o socialismo utpico da poca um
forte sabor nostlgico (os ensinamentos de Proudhon e Weitling simbolizando sua ntima afinidade); o
sonho de sair da estrada em que se havia entrado com o nascimento de uma nova e moderna forma de
poder social e de capitalismo (ou seja, a separao entre o negcio e o lar) -- de volta ao conforto, mais
romantizado do que genuinamente livre de conflito, da unidade comunal de sentimentos e aes. Foi
nessa forma inicial, nostlgica e utpica, que a idia de "anarquia" se estabeleceu na aurora da sociedade
moderna e na maioria de suas interpretaes poltico-cientficas.
        Mas havia no pensamento anarquista outro significado, menos demarcado pelo tempo, oculto por
trs de sua ostensiva rebelio antiestatal e, por essa razo, facilmente negligencivel. Esse outro
significado  prximo daquele da imagem da communitas de Victor Turner:

        como se houvesse aqui dois "modelos" importantes, justapostos e alternados, para o inter-relacionamento humano.
       O primeiro  o da sociedade como um sistema estruturado, diferenciado e freqentemente hierrquico de posies
                                                                                                                   44
       poltico-jurdico-econmicas ... O segundo ...  o da sociedade como uma communitas, comunidade ou mesmo
       comunho, desestruturada ou estruturada de forma rudimentar, de indivduos iguais que se submetem em conjunto 
       autoridade geral dos dignitrios rituais (17).

        Turner usava a linguagem da antropologia e localizou a questo da communitas dentro da
problemtica antropolgica costumeira, preocupada com as diferenas entre as formas pelas quais os
agregados humanos ("sociedades", "culturas") asseguravam sua durabilidade e sua auto-reproduo
contnua. Mas os dois modelos descritos por ele tambm podem ser interpretados como representaes de
modos complementares de coexistncia humana que se misturam em diversas propores em todo e
qualquer grupo humano, e no como diferentes tipos de sociedades.
        Nenhuma variao do convvio humano  plenamente estruturada, nenhuma diferenciao interna
 totalmente abrangente, inclusiva e livre de ambivalncia, nenhuma hierarquia  total e congelada. A
lgica das categorias imperfeitas preenche a diversificao endmica e a desordem das interaes
humanas. Cada tentativa de completar a estruturao deixa grande nmero de "fios soltos" e significados
contenciosos. Cada uma delas produz espaos em branco, reas indefinidas, ambigidades e territrios
"de ningum" que carecem de levantamentos e mapas oficiais. Todas essas sobras do esforo de trazer a
ordem constituem o domnio da espontaneidade, da experimentao e da autoconstituio humanas. A
communitas , para o bem ou para o mal, o revestimento de todo conjunto de societas -- e na sua
ausncia (se isso fosse concebvel) esse conjunto se dispersaria: as societas se desintegrariam em suas
suturas. So as societas com sua rotina e a communitas tas com sua anarquia que, em conjunto, numa
cooperao relutante e dominada pelo conflito, fazem a diferena entre a ordem e o caos.
        A tarefa que a institucionalizao, com seus braos coercitivos, realizou de modo deficiente ou
deixou de cumprir ficou para ser consertada ou completada pela inventividade espontnea dos seres
humanos. Tendo-lhe sido negado o conforto da rotina, a criatividade (como apontou Bakunin) tem apenas
duas faculdades humanas em que se basear: a habilidade de pensar e a tendncia (e coragem) de se
rebelar. O exerccio de cada uma das duas  repleto de riscos e, ao contrrio da rotina arraigada e
protegida de modo institucional, no se pode fazer muito para minimizar esses riscos, muito menos para
elimin-los. A communitas (que no deve ser confundida com as contra-sociedades que reclamam o nome
de "comunidade", mas que se ocupam em emular os meios e recursos da societas) habita a terra da
incerteza -- e no sobreviveria em nenhum outro pas.
        A sobrevivncia e o bem-estar da communitas (e tambm, indiretamente, da societas) dependem
da imaginao, inventividade e coragem humanas de quebrar a rotina e tentar caminhos no-
experimentados. Dependem, em outras palavras, da capacidade humana de viver com riscos e de aceitar a
responsabilidade pelas conseqncias. So essas capacidades que constituem os esteios da "economia
moral" -- cuidado e auxlio mtuos, viver para os outros, urdir o tecido dos compromissos humanos,
estreitar e manter os vnculos inter-humanos, traduzir direitos em obrigaes, compartir a
responsabilidade pela sorte e o bem-estar de todos -- indispensvel para tapar os buracos escavados e
conter os fluxos liberados pelo empreendimento, eternamente inconcluso, da estruturao.

A invaso e a colonizao da communitas, locus da economia moral, pelas foras do mercado
consumidor constituem o mais aterrador dos perigos que ameaam a forma atual de convvio
humano.
        Os principais alvos do ataque do mercado so os seres humanos como produtores. Numa terra
totalmente conquistada e colonizada, somente consumidores humanos poderiam obter permisso de
residncia. A difusa indstria familiar das condies de vida compartilhadas seria posta fora de operao
e desmantelada. As formas de vida, e as parcerias que as sustentam, s estariam disponveis como
mercadorias. O Estado obcecado com a ordem combateu (correndo riscos) a anarquia, aquela marca
registrada da communitas, em funo da ameaa  rotina imposta pelo poder. O mercado consumidor
obcecado pelos lucros combate essa anarquia devido  turbulenta capacidade produtiva que ela apresenta,
assim como ao potencial para a auto-suficincia que, ao que se suspeita, crescer a partir dela.  porque a
economia moral tem pouca necessidade do mercado que as foras deste se levantam contra ela.
        Nessa guerra apresenta-se uma estratgia de mo dupla.
        Em primeiro lugar, o maior nmero possvel de aspectos da economia moral independente do
mercado  mercantilizado e remodelado sob a forma de aspectos do consumo.
                                                                                                         45
        Em segundo lugar, qualquer coisa na economia moral da communitas que resista a essa
mercantilizao tem negada a sua relevncia para a prosperidade da sociedade de consumidores. 
despida de valor numa sociedade treinada para medir os valores em dinheiro e para identific-los com as
etiquetas de preo colocadas em objetos e servios vendveis e comprveis.  empurrada para longe das
atenes do pblico (e, espera-se, dos indivduos) ao ser eliminada dos cmputos oficiais do bem-estar
humano.
        O resultado da presente guerra  tudo menos previsvel, embora at aqui parea haver apenas um
lado na ofensiva, com o outro em retirada quase total. A communitas perdeu muito terreno. Postos de
troca ansiando por se transformarem em shopping centers afloram nos campos que ela um dia cultivou.
        A perda territorial  um acontecimento sinistro e potencialmente desastroso em qualquer guerra,
mas o fator que, em ltima instncia, decide o resultado das hostilidades  a capacidade de luta das tropas.
Um territrio perdido  mais fcil de se recuperar do que o esprito de luta e a confiana no propsito e
nas chances da resistncia. Mais que qualquer outra coisa,  esse segundo acontecimento que causa
malefcios ao destino da economia moral.
        O maior e provavelmente mais fundamental sucesso da ofensiva do mercado at agora tem sido o
gradual mas persistente (embora de modo algum se possa consider-lo completo e irreparvel)
esfacelamento das habilidades de sociabilidade. Em matria de relaes interpessoais, os atores no-
especializados encontram-se com freqncia cada vez maior no "modo agntico" -- agindo de maneira
heternima, sob instrues abertas ou subliminares, e guiados basicamente pelo desejo de seguir as
instrues ao p da letra e pelo medo de se afastar dos modelos atualmente em voga. O fascnio sedutor
da ao heternima consiste principalmente numa renncia  responsabilidade -- compra-se uma receita
autorizada num pacote que inclui desobrigar-se da necessidade de responder pelos resultados adversos de
sua aplicao.
        O desvanecimento das habilidades de sociabilidade  reforado e acelerado pela tendncia,
inspirada no estilo de vida consumista dominante, a tratar os outros seres humanos como objetos de
consumo e a julg-los, segundo o padro desses objetos, pelo volume de prazer que provavelmente
oferecem e em termos de seu "valor monetrio". melhor das hipteses, os outros so avalia- dos como
companheiros na atividade essencialmente solitria do consumo, parceiros nas alegrias do consumo, cujas
presena e participao ativa podem intensificar esses prazeres. Nesse processo, os valores intrnsecos dos
outros como seres humanos singulares (e assim tambm a preocupao com eles por si mesmos, e por
essa singularidade) esto quase desaparecendo de vista. A solidariedade humana  a primeira baixa
causada pelo triunfo do mercado consumidor.
                                                                                                         46

                          3. Sobre a dificuldade de amar o prximo

A invocao de "amar o prximo como a si mesmo", Freud (em O mal-estar na civilizao)',  um dos
preceitos fundamentais da vida civilizada.  tambm o que mais contraria o tipo de razo que a
civilizao promove: a razo do interesse prprio e da busca da felicidade. O preceito fundador da
civilizao s pode ser aceito como algo que "faz sentido" e adotado e praticado se nos rendermos 
exortao teolgica credere quia absurdum -- acredite porque  absurdo.
        Com efeito,  suficiente perguntar "por que devo fazer isso? Que benefcio me trar?" para sentir o
absurdo da exigncia de amar o prximo -- qualquer prximo -- simplesmente por ser um prximo. Se
eu amo algum, ela ou ele deve ter merecido de alguma forma... "Eles o merecem se so to parecidos
comigo de tantas maneiras importantes que neles posso amar a mim mesmo; e se so to mais perfeitos
do que eu que posso amar neles o ideal de mim mesmo... Mas, se ele  um estranho para mim e se no
pode me atrair por qualquer valor prprio ou significao que possa ter adquirido para a minha vida
emocional, ser difcil am-lo." Essa exigncia parece ainda mais incmoda e vazia pelo fato de que, com
muita freqncia, no me  possvel encontrar evidncias suficientes de que o estranho a quem devo amar
me ama ou demonstra por mim "a mnima considerao. Se lhe convier, no hesitar em me injuriar,
zombar de mim, caluniar-me e demonstrar seu poder superior..."
        Assim, indaga Freud, "qual  o objetivo de um preceito enunciado de modo to solene se seu
cumprimento no pode ser recomendado como algo razovel?" Somos tentados a concluir, contra o bom
senso, que o "amor ao prximo"  "um mandamento que na verdade se justifica pelo fato de que nada
mais contraria to fortemente a natureza original do homem". Quanto menor a probabilidade de uma
norma ser obedecida, maior a obstinao com que tender a ser reafirmada. E a obrigao de amar o
prximo talvez tenha menos probabilidade de ser obedecida do que qualquer outra. Quando o filsofo
talmdico Rabi Hillel foi desafiado por um possvel convertido a explicar o ensinamento de Deus
enquanto pudesse se sustentar numa perna s, ele ofereceu o "amar o prximo como a si mesmo" como a
nica resposta, embora completa, que encerra a totalidade dos mandamentos divinos. Aceitar esse
preceito  um ato de f; um ato decisivo, pelo qual o ser humano rompe a couraa dos impulsos, mpetos
e predilees "naturais", assume uma posio que se afasta da natureza, que  contrria a esta, e se torna o
ser "no-natural" que, diferentemente das feras (e, na realidade, dos anjos, como apontou Aristteles), os
seres humanos so.
        Aceitar o preceito do amor ao prximo  o ato de origem da humanidade. Todas as outras rotinas
da coabitao humana, assim como suas ordens pr-estabelecidas ou retrospectivamente descobertas, so
apenas uma lista (sempre incompleta) de notas de rodap a esse preceito. Se ele fosse ignorado ou
abandonado, no haveria ningum para fazer essa lista ou refletir sobre sua incompletude.

Amar o prximo pode exigir um salto de f. O resultado, porm,  o ato fundador da humanidade.
Tambm  a passagem decisiva do instinto de sobrevivncia para a moralidade.
        Essa passagem torna a moralidade uma parte, talvez condio sine qua non, da sobrevivncia.
Com esse ingrediente, a sobrevivncia de um ser humano se torna a sobrevivncia da humanidade no
humano.
        "Amar o prximo como a si mesmo" coloca o amor-prprio como um dado indiscutvel, como
algo que sempre esteve ali. O amor-prprio  uma questo de sobrevivncia, e a sobrevivncia no
precisa de mandamentos, j que outras criaturas (no-humanas) passam muito bem sem eles, obrigado.
Amar o prximo como se ama a si mesmo torna a sobrevivncia humana diferente daquela de qualquer
outra criatura viva. Sem a extenso/transcendncia do amor-prprio, o prolongamento da vida fsica,
corprea, ainda no , por si mesmo, uma sobrevivncia humana -- no  o tipo de sobrevivncia que
separa os seres humanos das feras (e, no se esqueam, dos anjos). O preceito do amor ao prximo
desafia e interpela os instintos estabelecidos pela natureza, mas tambm o significado da sobrevivncia
por ela institudo, assim como o do amor-prprio que o protege.

Amar o prximo pode no ser um produto bsico do instinto de sobrevivncia -- mas tambm no
o  o amor-prprio, tomado como modelo do amor ao prximo.
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        Amor-prprio -- o que significa isso? O que eu amo "em mim mesmo"? O que eu amo quando
amo a mim mesmo? Ns, humanos, compartilhamos os instintos de sobrevivncia com nossos primos
animais sejam os prximos, os nem to prximos ou os bem distantes -- mas, quando se trata de amor-
prprio, nossos caminhos se separam e seguimos por conta prpria.
         verdade que o amor-prprio estimula a gente a se "agarrar  vida", a tentar a todo custo
permanecer vivo, a resistir e enfrentar o que quer que ameace pr fim  nossa vida de modo prematuro ou
abrupto, ou, melhor ainda, a melhorar nosso vigor e aptido fsica para tornar efetiva essa resistncia.
Nisso, contudo, nossos primos animais so mestres e experientes, no menos que os mais dedicados e
habilidosos viciados em ginstica e manacos por sade. Nossos primos animais (com exceo daqueles
"domesticados", que ns, seus donos humanos, despimos de seus dons naturais para melhor servirem 
nossa sobrevivncia, e no  deles) no precisam de especialistas para lhes dizer como se manterem vivos
e em forma. Tampouco precisam do amor-prprio para lhes ensinar que manter-se vivo e em forma  a
coisa certa a fazer.
        A sobrevivncia (animal, fsica, corprea) pode viver sem o amor-prprio. Para dizer a verdade,
poderia acontecer melhor sem ele do que em sua companhia! Os caminhos dos instintos de sobrevivncia
e do amor-prprio podem correr paralelamente, mas tambm em direes opostas... O amor-prprio pode
rebelar-se contra a continuao da vida. Ele nos estimula a convidar o perigo e dar boas-vindas  ameaa.
Pode nos levar a rejeitar uma vida que no se ajusta a nossos padres e que, portanto, no vale a pena ser
vivida.
        Pois o que amamos em nosso amor-prprio so os eus apropriados para serem amados. O que
amamos  o estado, ou a esperana, de sermos amados. De sermos objetos dignos do amor, sermos
reconhecidos como tais e recebermos a prova desse reconhecimento.
        Em suma: para termos amor-prprio, precisamos ser amados. A recusa do amor -- a negao do
status de objeto digno do amor -- alimenta a auto-averso. O amor-prprio  construdo a partir do amor
que nos  oferecido por outros. Se na sua construo forem usados substitutos, eles devem parecer cpias,
embora fraudulentas, desse amor. Outros devem nos amar primeiro para que comecemos a amar a ns
mesmos.
        E como podemos saber que no fomos desconsiderados ou descartados como um caso sem
esperana, que o amor est, pode estar, estar prestes a aparecer, que somos dignos dele, e assim temos o
direito de nos entregar ao amour de soi e ter prazer com isso? Ns o sabemos, acreditamos que sabemos e
somos tranqilizados de que essa crena no  um equvoco quando falam conosco e somos ouvidos,
quando nos ouvem com ateno, com um interesse que trai/sinaliza uma presteza em responder. Ento
conclumos que somos respeitados. Ou seja, supomos que aquilo que pensamos, fazemos ou pretendemos
fazer  levado em considerao.
        Se os outros me respeitam, ento obviamente deve haver "em mim" -- ou no deve? -- algo que
s eu lhes posso oferecer. E obviamente existem esses outros -- no existem? -- que ficariam satisfeitos
e gratos por isso lhes ser oferecido. Eu sou importante e o que penso e digo tambm . No sou uma cifra,
facilmente substituda e descartada. Eu "fao diferena" para outros alm de mim. O que digo e sou e fao
tem importncia -- e isso no  apenas um vo da minha fantasia. O mundo  minha volta seria mais
pobre, menos interessante e promissor se eu subitamente deixasse de existir ou fosse para outro lugar.
        Se  isso que nos torna objetos legtimos e adequados do amor-prprio, ento a exortao a "amar
o prximo como a si mesmo" (ou seja, ter a expectativa de que o prximo desejar ser amado pelas
mesmas razes que estimulam nosso amor-prprio) evoca o desejo do prximo de ter reconhecida,
admitida e confirmada a sua dignidade de portar um valor singular, insubstituvel e no-descartvel. A
exortao nos leva a pressupor que o prximo de fato representa esses valores -- ao menos at prova em
contrrio. Amar o prximo como amamos a ns mesmos significaria ento respeitar a singularidade de
cada um -- o valor de nossas diferenas, que enriquecem o mundo que habitamos em conjunto e assim o
tornam um lugar mais fascinante e agradvel, aumentando a cornucpia de suas promessas.

Numa cena de Korczak, o filme mais humano de Andrzej Wajda, Janus Korczak (pseudnimo do
grande pedagogo Henryk Goldszmit), um heri cinematogrfico muito humano,  relembrado dos
horrores das guerras travadas no curso da vida de sua sofrida gerao. Ele recorda essas
atrocidades,  claro, e elas o ofendem e repugnam. E de modo ainda mais vvido, e com o maior dos
horrores, ele se lembra de um bbado chutando uma criana.
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       Em nosso mundo obcecado por estatsticas, mdias e maiorias, tendemos a medir o grau de
desumanidade das guerras pelo nmero de baixas que elas causam. Tendemos a medir o mal, a crueldade,
a repugnncia e a infmia da vitimizao pelo nmero de vtimas. Mas, em 1944, em meio  guerra mais
mortfera j travada pelos seres humanos, Ludwig Wittgenstein observou:

       Nenhum clamor de tormento pode ser maior que o clamor de um homem.
       Ou, mais uma vez, nenhum tormento pode ser maior do que aquilo que um nico ser humano pode sofrer.
       O planeta inteiro no pode sofrer tormento maior do que uma nica alma.

        Meio sculo depois, quando questionada por Leslie Stahl, da rede de televiso CBS, sobre o cerca
de meio milho de crianas mortas em funo do continuado bloqueio militar imposto pelos Estados
Unidos ao Iraque, Madeleine Albright, ento embaixadora norte-americana na ONU, no negou a
acusao, admitindo ter sido "uma escolha difcil de fazer" Mas justificou-a: "Achamos que era um preo
que valia ser pago."
        Albright, sejamos justos, no estava nem est s ao seguir esse tipo de raciocnio. "No se pode
fazer uma omelete sem quebrar os ovos"  a desculpa favorita dos visionrios, dos porta-vozes das vises
oficialmente endossadas e dos generais que agem da mesma forma sob o comando dos porta-vozes. Essa
frmula transformou-se, com o passar dos anos, num verdadeiro slogan de nossos admirveis tempos
modernos.
        Quaisquer que sejam aqueles "ns" que "achamos" e em cujo nome falava Albright, foi
exatamente a fria crueldade de seu tipo de avaliao que provocou a oposio de Wittgenstein e deixou
Korczak chocado, ultrajado e revoltado, resolvido a dedicar toda uma vida a essa revolta.
        A maioria de ns concordaria que esse sofrimento sem sentido e essa dor insensivelmente infligida
no podem ser desculpados e no teriam defesa perante tribunal algum. Mas menos estariam prontos a
admitir que provocar a fome ou causar a morte de uma nica pessoa no , no pode ser, "um preo que
vale ser pago", importa quo "sensata" ou at nobre possa ser a causa pela qual se pague. Tampouco a
humilhao ou a negao da dignidade humana pode ser esse preo. No  apenas que a vida digna e o
respeito devido  humanidade de cada ser humano se combinem num valor supremo que no pode ser
superado ou compensado por nenhum volume ou quantidade de outros valores, mas que todos os outros
valores s so valores na medida em que sirvam  dignidade humana e promovam a sua causa. Todas as
coisas valorosas na vida humana nada mais so que diferentes fichas para a aquisio do nico valor que
torna a vida digna de ser vivida. Aquele que busca a sobrevivncia assassinando a humanidade de outros
seres humanos sobrevive  morte de sua prpria humanidade.
        A negao da dignidade humana deprecia o valor de qualquer causa que necessite dessa negao
para afirmar a si mesma. E o sofrimento de uma nica criana deprecia esse valor de forma to radical e
completa quanto o sofrimento de milhes. O que pode ser vlido para omeletes torna-se uma mentira
cruel quando aplicado  felicidade e ao bem-estar humanos.
         comumente aceito pelos bigrafos e discpulos de Korczak que a chave para seus pensamentos e
atos era o amor que tinha pelos filhos. Essa interpretao  bem fundamentada. O amor de Korczak pelos
filhos era apaixonado e incondicional, total e abrangente -- o bastante para sustentar toda uma vida
caracterizada por uma sensibilidade e uma integridade singularmente coesas. Ainda assim, como a maior
parte das interpretaes, essa tambm no corresponde  totalidade de seu objeto.
        Korczak amava os filhos como poucos de ns esto prontos ou capacitados a amar, mas o que
amava neles era sua humanidade. A humanidade no que ela tem de melhor -- sem distores, sem
truncamentos, sem enfeites nem mutilaes, plena em sua insipincia e nascena, cheia de promessas que
ainda no foram tradas e de potenciais ainda no comprometidos. O mundo em que os potenciais
portadores de humanidade nascem e crescem , ao que se sabe, mais propenso a prender as asas do que a
estimular os supostos voadores a abri-Ias, e assim, na opinio de Korczak, era apenas nas crianas que
essa humanidade podia ser encontrada, capturada e preservada (por algum tempo, s por algum tempo!)
intacta e ilesa.
        Talvez fosse melhor mudar os costumes do mundo e tornar nosso hbitat mais hospitaleiro 
dignidade humana, de modo que amadurecer no exigisse o comprometimento da humanidade de uma
criana. O jovem Henryk Goldszmit compartilhava as esperanas do sculo em que nasceu e acreditava
que mudar os abominveis hbitos do mundo estava ao alcance dos seres humanos, sendo uma tarefa
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vivel e que ao mesmo tempo tendia a ser realizada. Mas com o passar do tempo,  medida que as
pilhas de vtimas e os "danos colaterais" provocados tanto pelas ms quanto pelas mais nobres intenes
atingiam dimenses estratosfricas, e em que a necrose e a putrificao da carne em que os sonhos
tendiam a se transformar deixava cada vez menos espao  imaginao, essas esperanas exaltadas foram
sendo despidas de sua credibilidade. Janus Korczak conhecia muito bem a desconfortvel mentira que
Henryk Goldszmit praticamente ignorava: no pode haver atalhos que conduzam a um mundo feito sob
medida para a dignidade humana, e ao mesmo tempo  improvvel que o "mundo realmente existente"
construdo dia a dia por pessoas j espoliadas de sua dignidade e desacostumadas a respeitar a das outras,
possa algum dia ser refeito segundo essa medida.
        A este nosso mundo no se pode impor legalmente a perfeio. No se pode for-lo a adotar a
virtude, mas tampouco persuadi-lo a se comportar de modo virtuoso. No se pode fazer com que seja
terno e atencioso para com os seres humanos que o habitam, e ao mesmo tempo to adaptado aos seus
sonhos de dignidade quanto idealmente se desejaria que fosse. Mas voc deve tentar. Voc vai tentar.
Voc o faria, de qualquer maneira, se fosse aquele Janus Korczak inspirado em Henryk Goldszmit.
        Mas como voc tentaria? Um pouco como os antiquados visionrios utpicos que, no tendo
conseguido tornar quadrado o crculo da segurana e da liberdade na Grande Sociedade, transformaram-
se em projetistas de comunidades controladas, shopping centers e parques temticos... No seu caso,
protegendo a dignidade com que cada ser humano nasce dos gatunos e falsrios que tramam roub-la ou
desvirtu-la e mutil-la. E voc comearia pelo trabalho perptuo de proteg-la enquanto  tempo, durante
a infncia dessa dignidade. Tentaria trancar o estbulo antes que o cavalo fugisse ou fosse roubado.
        Uma das formas de faz-lo, aparentemente a mais razovel,  abrigar as crianas dos eflvios
venenosos de um mundo infectado e corrompido pela humilhao e a indignidade humanas, barrar o
acesso  lei da selva que comea justamente do outro lado da porta do abrigo. Quando seu orfanato se
mudou do endereo anterior  guerra, em Krochmalma, para o Gueto de Varsvia, Korczak ordenou que a
porta de entrada permanecesse trancada e as janelas do andar trreo fossem tapadas. Quando as
deportaes para as cmaras de gs estavam se tornando uma certeza, Korczak supostamente se ops 
idia de fechar o orfanato e despachar as crianas para que buscassem individualmente a chance de
escapar que algumas poderiam (apenas poderiam) ter . Ele pode ter concludo que no valeria correr o
risco: uma vez fora do abrigo, as crianas aprenderiam a temer, a humilhar-se e a odiar. Elas perderiam o
mais precioso dos valores -- sua dignidade. Uma vez privadas desse valor, qual a vantagem de
permanecerem vivas? O valor, o mais precioso dos valores humanos, o atributo sine qua non de
humanidade,  uma vida de dignidade, no a sobrevivncia a qualquer custo.

Spielberg poderia aprender alguma coisa com Korczak, o homem, e Korczak, o filme.
       Uma coisa que ele no sabia, ou no queria saber, ou no queria admitir que sabia; algo sobre a
vida humana e os valores que a tornam digna de ser vivida. Uma coisa sobre a qual ele demonstrou
ignorncia ou descaso em sua prpria narrativa da desumanidade, no filme recordista de bilheteria A lista
de Schindler, para o aplauso de nosso mundo em que a dignidade tem pouca utilidade e a humilhao,
grande demanda, e que chegou a ver o propsito da vida em sobreviver aos outros.
       Sobreviver aos outros  o tema de A lista de Schindler; sobreviver a qualquer custo e em qualquer
condio, venha o que vier, fazendo o que for preciso fazer. A sala de cinema lotada irrompe em aplausos
quando Schindler consegue tirar seu mestre-de-obras de um trem pronto a partir para Treblinka. No
importa que o trem no tenha sido impedido de seguir e o resto dos passageiros dos vages de gado v
terminar sua jornada nas cmaras de gs. E os aplausos surgem novamente quando Schindler recusa a
oferta de "outra judia" para substituir a "dele", "erradamente" destinada aos fornos crematrios, e
consegue "corrigir" "o erro".

O direito do mais forte, mais astuto, engenhoso ou ardiloso de fazer o possvel para sobreviver ao
mais fraco e desafortunado  uma das lies mais horripilantes do Holocausto.
        Uma lio terrvel e atemorizante, mas nem por isso aprendida, apropriada, memorizada e aplicada
com menos avidez. Para ser adequada  adoo, essa lio deve, em primeiro lugar, ser rigorosamente
despida de todas as conotaes ticas, at a mais crua essncia do jogo de soma zero da sobrevivncia.
Viver significa sobreviver. O mais forte vive. Quem ataca primeiro sobrevive. Desde que voc seja o mais
forte, pode escapar impune, no importa o que tenha feito ao fraco. O fato de que a desumanizao das
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vtimas desumaniza -- devasta moralmente -- seus vitimizadores  desconsiderado como um detalhe
irritante. Quer dizer, se no tiver sido silenciosamente omitido. O que conta  chegar ao topo e l
permanecer. Sobreviver -- manter-se vivo --  um valor aparentemente no prejudicado nem maculado
pela desumanidade de uma vida dedicada  sobrevivncia. Vale a pena persegui-lo por si mesmo, por
mais caro que isso saia para os derrotados e por mais profundas e incorrigveis que sejam as formas como
isso pode depravar e degradar os vitoriosos.
         Essa horripilante lio do Holocausto, a mais desumana, completa-se com um inventrio das dores
que se pode infligir aos fracos a fim de afirmar a prpria fora. Capturar, deportar, trancafiar em campos
de concentrao, ou aproximar a situao angustiosa de toda a populao do modelo do campo de
concentrao, demonstrar a futilidade da lei pela execuo sumria de suspeitos, aprisionar sem
julgamento nem prazo de soltura, espalhar o terror que aleatria e casualmente infligia tormentos aos
montes -- foi amplamente comprovado que tudo isso serve efetivamente  causa da sobrevivncia e ,
portanto, "racional".
         Essa lista pode ser, e , ampliada com o passar do tempo. "Novos e aperfeioados" expedientes
so testados e, caso funcionem, acrescentados ao repertrio -- como demolir casas isoladas ou distritos
residenciais inteiros, extirpar pomares de oliveiras, queimar ou destruir lavouras, incendiar locais de
trabalho e destruir de outras formas os j miserveis recursos de subsistncia. Todas essas medidas
mostram uma tendncia a se propelirem e exacerbarem por si mesmas.  medida que cresce a lista de
atrocidades, o mesmo ocorre com a necessidade de aplic-las de modo cada vez mais resoluto para evitar
no apenas que as vtimas se faam ouvir, mas que se d ateno a elas. E conforme os velhos
estratagemas se tornam rotina e o horror que semearam entre seus alvos se dissipa, novos, mais dolorosos
e terrveis artifcios precisam ser procurados febrilmente.

A vitimizao dificilmente humaniza suas vtimas. Ser vtima no garante um lugar nos pncaros da
moral.
        Numa carta pessoal em que fazia objees ao meu exame da possibilidade de romper a "cadeia
cismogentica" que tende a transformar vtimas em vitimizadores, Antonina Zhelazkova, a etnloga
intrpida e singularmente perspicaz, dedicada exploradora do aparentemente impenetrvel barril de
plvora tnico e de outras animosidades que so os Blcs, escreveu:

       Eu no aceito que as pessoas estejam em posio de combater o impulso de se tornarem assassinas depois de terem
       sido vtimas.  exigir demais das pessoas comuns.  freqente que a vtima se transforme em carniceiro. O pobre
       homem, assim como os pobres de esprito a quem se ajudou, passa a odi-lo ... porque eles desejam esquecer o
       passado, a humilhao, a dor e o fato de terem conseguido algo com a ajuda de algum, por causa da piedade de
       algum, e no por si mesmos ... Como escapar  dor e  humilhao? A forma natural  matar ou humilhar seu algoz
       ou benfeitor. Ou encontrar outra pessoa, mais fraca, para triunfar sobre ela.

        Tenhamos o cuidado de rejeitar delicadamente a advertncia de Zhelazkova. As condies
contrrias  humanidade comum parecem realmente insuperveis. As armas no falam, embora os sons
dos seres humanos falando paream uma resposta abominavelmente dbil ao zunido dos msseis e ao
rudo ensurdecedor dos explosivos.
        A memria  uma bno ambgua. Mais precisamente,  ao mesmo tempo uma bno e uma
maldio lanada sobre algum. Pode "manter vivas" muitas coisas de valor profundamente desigual para
o grupo e seus vizinhos. O passado  uma grande quantidade de eventos, e a memria nunca retm todos
eles. E o que quer que ela retenha ou recupere do esquecimento nunca  reproduzido em sua forma
"prstina" (o que quer que isso signifique). O "passado como um todo" e o passado "wie es ist eigentlich
gewesen" (como Ranke insinuou que deveria ser retomado pelos historiadores), nunca  recapturado pela
memria. E se o fosse, a memria seria francamente um risco e no uma vantagem para os vivos. Ela
seleciona e interpreta -- e o que deve ser selecionado e como precisa ser interpretado  um tema
discutvel, objeto de contnua disputa. Fazer ressurgir o passado, mant-lo vivo, s pode ser alcanado
mediante o trabalho ativo -- escolher, processar, reciclar -- da memria.

Em A exigncia tica, Logstrup manifestou uma viso mais otimista das inclinaes naturais
humanas.
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        " uma caracterstica da vida humana que normalmente encaremos uns aos outros com natural
confiana", escreveu ele. "S em funo de alguma circunstncia especial desconfiamos antecipadamente
de um estranho... Em circunstncias normais, contudo, ns aceitamos a palavra do estranho e no
duvidamos dele at que tenhamos uma razo particular para isso. Nunca suspeitamos da falsidade de uma
pessoa at que a tenhamos apanhado numa mentira." (2)
        Logstrup elaborou A exigncia tica durante os oito anos subseqentes ao seu casamento com
Rosalie Maria Pauly, passados numa pequena e tranqila parquia da Ilha de Funen. Com o devido
respeito aos amigveis e sociveis moradores de Aarhus, onde Logstrup viveria o restante de seus dias
ensinando teologia na universidade local, duvido que ele pudesse ter concebido tais idias caso tivesse se
estabelecido naquela cidade e confrontado diretamente as realidades do mundo em guerra e sob ocupao,
como um membro ativo da resistncia dinamarquesa.
        As pessoas tendem a tecer suas memrias do mundo utilizando o fio de suas experincias. Os
membros da atual gerao podem achar artificial a imagem luminosa e alegre de um mundo confiante e
fiel -- em profundo desacordo com o que eles prprios aprendem diariamente e com o que  insinuado
pelas narrativas comuns da experincia humana e recomendado pelas estratgias de vida que lhes so
apresentadas no dia-a-dia. Prefeririam reconhecer-se nos atos e confisses dos personagens que aparecem
na onda mais recente de programas televisivos, altamente populares e avidamente assistidos, tipo Big
Brother, Survivor e The Weakest Link. Eles passam uma mensagem bem diferente: um estranho no 
algum em quem se deva confiar. A srie Survivor tem um subttulo que diz tudo: "No confie em
ningum." Os ls e adeptos dos "reality shows" televisivos poderiam inverter o veredicto de Logstrup: "
uma caracterstica da vida humana que normalmente encaremos uns aos outros com natural suspeita."
        Esses espetculos televisivos que tomaram milhes de espectadores de assalto e imediatamente
capturaram sua imaginao eram ensaios pblicos sobre a descartabilidade dos seres humanos. Traziam
prazer e advertncia juntos, com a mensagem de que ningum  indispensvel, ningum tem o direito a
sua parte dos frutos de um esforo conjunto apenas por ter dado alguma contribuio ao seu crescimento
-- muito menos por ser simplesmente um membro da equipe. A vida  um jogo duro para pessoas duras,
dizia a mensagem. Cada jogo comea do zero, mritos passados no contam, voc tem tanto valor quanto
os resultados de seu ltimo duelo. Cada jogador, a cada momento, est por conta prpria, e para progredir
(sem falar em chegar ao topo!) deve primeiro colaborar na excluso de muitas outras pessoas vidas por
sobrevivncia e sucesso que esto bloqueando o caminho -- mas apenas para superar, uma por uma,
todas aquelas com quem tivemos de cooperar, e abandon-las, derrotadas e inteis.
        Os outros so, em primeiro lugar e acima de tudo, competidores, tramando como qualquer
competidor, cavando buracos, preparando emboscadas, torcendo para que venhamos a tropear e cair. Os
trunfos que ajudam os vencedores a superar a concorrncia e emergir triunfantes da batalha impiedosa so
de muitos tipos, variando da autoconfiana ruidosa  humilde auto-aniquilao. E no entanto,
independente do estratagema empregado, dos trunfos dos sobreviventes e das deficincias dos perdedores,
a histria da sobrevivncia tende a se desenvolver da mesma e montona maneira: num jogo de
sobrevivncia, confiana, compaixo e clemncia (os atributos supremos de Logstrup) so fatores
suicidas. Se voc no for mais duro e menos escrupuloso do que todos os outros, ser liquidado por eles,
com ou sem remorso. Estamos de volta  triste verdade do mundo darwiniano:  o mais apto que
invariavelmente sobrevive. Ou melhor, a sobrevivncia  a derradeira prova de aptido.
        Se os jovens de nosso tempo fossem leitores de livros, e particularmente de livros antigos que no
se encontram nas atuais listas de mais vendidos, tenderiam a concordar com a amarga e sombria imagem
do mundo pintada por Leon Shestov, exilado russo e filsofo da Sorbonne: "Homo homini lupus  uma
das mximas mais inabalveis da moral eterna. Em cada um de nossos vizinhos tememos um lobo ...
Somos to pobres, to fracos, to facilmente arruinveis e destrutveis! Como podemos deixar de ter
medo? ... Enxergamos o perigo, apenas o perigo..." (3) Eles insistiriam -- como o fez Shestov e como se
tornou senso comum, graas a programas do tipo Big Brother -- em afirmar que este  um mundo duro,
feito para pessoas duras: um mundo de indivduos relegados a se basearem unicamente em seus prprios
ardis, tentando ultrapassar e superar uns aos outros. Ao conhecer um estranho voc precisa em primeiro
lugar de vigilncia, e em segundo e terceiro lugares de vigilncia. Aproximar-se, colocar-se ombro a
ombro e trabalhar em equipe fazem muito sentido enquanto o ajudam a avanar em seu prprio caminho.
Mas perdem a razo de ser quando no trazem mais benefcios, ou quando estes -- esperada ou apenas
possivelmente -- so menores que os obtidos evitando-se compromissos e cancelando-se obrigaes.
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Os jovens que esto nascendo, crescendo e amadurecendo nesta virada do sculo XX para o XXI
tambm achariam familiar, talvez at auto-evidente, a descrio de Anthony Giddens do
"relacionamento puro" (4).
       O "relacionamento puro" tende a ser, nos dias de hoje, a forma predominante de convvio humano,
na qual se entra "pelo que cada um pode ganhar" e se "continua apenas enquanto ambas as partes
imaginem que esto proporcionando a cada uma satisfaes suficientes para permanecerem na relao".
       O atual "relacionamento puro", na descrio de Giddens, no

       , como o casamento um dia foi, uma "condio natural" cuja durabilidade possa ser tomada como algo garantido, a
       no ser em circunstncias extremas.  uma caracterstica do relacionamento puro que ele possa ser rompido, mais ou
       menos ao bel-prazer, por qualquer um dos parceiros e a qualquer momento. Para que uma relao seja mantida, 
       necessria a possibilidade de compromisso duradouro. Mas qualquer um que se comprometa sem reservas arrisca-se a
       um grande sofrimento no futuro, caso ela venha a ser dissolvida.

        O compromisso com outra pessoa ou com outras pessoas, em particular o compromisso
incondicional e certamente aquele do tipo "at que a morte nos separe", na alegria e na tristeza, na riqueza
ou na pobreza, parece cada vez mais uma armadilha que se deve evitar a todo custo.
        Sobre as coisas que aprovam, os jovens de lngua inglesa dizem "cool". Uma palavra adequada:
independentemente das outras caractersticas que os atos e interaes humanos possam ter, no se deve
admitir que a interao esquente e particularmente que permanea quente:  boa enquanto continua cool,
e ser cool significa que  boa. Se voc sabe que seu parceiro pode preferir abandonar o barco a qualquer
momento, com ou sem a sua concordncia (to logo ache que voc perdeu seu potencial como fonte de
deleite, conservando poucas promessas de novas alegrias, ou apenas porque a grama do vizinho parece
mais verde), investir seus sentimentos no relacionamento atual  sempre um passo arriscado. Investir
fortes sentimentos na parceria e fazer um voto de fidelidade significa aceitar um risco enorme: isso o
torna dependente de seu parceiro (embora devamos observar que essa dependncia, que agora est se
tornando rapidamente um termo pejorativo,  aquilo em que consiste a responsabilidade moral pelo Outro
-- tanto para Logstrup quanto para Levinas).
        Para esfregar sal na ferida, a dependncia -- devido  "pureza" de seu relacionamento -- no pode
nem precisa ser recproca. Assim, voc est amarrado, mas seu parceiro continua livre para ir e vir, e
nenhum tipo de vnculo que possa manter voc no lugar  suficiente para assegurar que ele no o faa. O
conhecimento amplamente compartilhado -- na verdade, um lugar-comum -- de que todos os
relacionamentos so "puros" (ou seja, frgeis, fissparos, tendentes a no durar mais do que a
convenincia que trazem, e portanto sempre "at segunda ordem") dificilmente seria um solo em que a
confiana pudesse fincar razes e florescer.
        Parcerias frouxas e eminentemente revogveis substituram o modelo da unio pessoal "at que a
morte nos separe" que ainda se mantinha (mesmo que mostrando um nmero crescente de fissuras
desconcertantes) na poca em que Logstrup registrou sua crena na "naturalidade" e "normalidade" da
confiana e anunciou seu veredicto de que era a suspenso ou supresso da confiana, e no o seu dom
incondicional e espontneo, que constitua uma exceo causada por circunstncias extraordinrias que,
portanto, exigiam uma explicao.
        A fraqueza, a debilidade e a vulnerabilidade das parcerias pessoais no so, contudo, as nicas
caractersticas do atual ambiente de vida a solaparem a credibilidade das hipteses de Logstrup. Uma
indita fluidez, fragilidade e transitoriedade em construo (a famosa "flexibilidade") marcam todas as
espcies de vnculos sociais que, uma dcada atrs, combinaram-se para constituir um arcabouo
duradouro e fidedigno dentro do qual se pde tecer com segurana uma rede de interaes humanas. Elas
afetam particularmente, e talvez de modo mais seminal, o emprego e as relaes profissionais. Com o
desaparecimento da demanda por certas habilidades num tempo menor do que o necessrio para adquiri-
las e domin-las; com credenciais educacionais perdendo valor em relao ao custo anual de sua
aquisio ou mesmo transformando-se em "eqidade negativa" muito antes de sua "data de vencimento"
supostamente vitalcia; com empregos desaparecendo sem aviso, ou quase; e com o curso da existncia
fatiado numa srie de projetos singulares cada vez menores, as perspectivas de vida crescentemente se
parecem com as convolues aleatrias de projteis inteligentes em busca de alvos esquivos, efmeros e
mveis, e no com a trajetria pr-planejada, predeterminada e previsvel de um mssil balstico.
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O mundo de hoje parece estar conspirando contra a confiana.
        A confiana deve continuar sendo, como sugere Knud Logstrup, um derramamento natural da
"expresso soberana da vida", mas, uma vez posta em curso, agora procura em vo por um lugar para
lanar ncora. A confiana foi condenada a uma vida cheia de frustrao. Pessoas (sozinhas,
individualmente ou em conjunto) empresas, partidos, comunidades, grandes causas ou padres de vida
investidos com a autoridade de guiar nossa existncia freqentemente deixam de compensar a devoo.
De qualquer forma,  raro serem modelos de coerncia e continuidade a longo prazo. Dificilmente h um
nico ponto de referncia sobre o qual se possa concentrar a ateno de modo fidedigno e seguro, para
que os desorientados possam ser eximidos do fatigante dever da vigilncia constante e das incessantes
retraes de passos dados ou pretendidos. No se dispe de pontos de orientao que paream ter uma
expectativa de vida mais longa do que os prprios necessitados de orientao, por mais curtas que possam
ser suas existncias fsicas. A experincia individual aponta obstinadamente para o eu como o eixo mais
provvel da durao e da continuidade procuradas com tanta avidez.
        Em nossa sociedade supostamente adepta da reflexo, no  provvel que se reforce muito a
confiana. Um exame ponderado dos dados fornecidos pelas evidncias da vida aponta na direo aposta,
revelando repetidamente a perptua inconstncia das regras e a fragilidade dos laos. Mas ser que isso
significa que a deciso de Logstrup de investir as esperanas de moralidade na espontnea tendncia
endmica  confiana nos outros teria sido invalidada pela incerteza endmica que satura o mundo de
hoje?
        Poderamos dizer isso -- no fosse pelo fato de que a viso segundo a qual os impulsos morais
nascem da reflexo nunca foi a de Logstrup. Pelo contrrio: de seu ponto de vista, a esperana de
moralidade caracterizava-se precisamente por sua espontaneidade pr-reflexiva: "A compaixo 
espontnea porque a menor interrupo, a menor maquinao, a menor diluio para que sirva a algum
outro propsito provocam sua destruio total -- na verdade, transformam-na em seu oposto, a
desumanidade." (5)
        Emmanuel Levinas  conhecido por insistir em que a pergunta "por que eu deveria ser tico" (ou
seja, pedindo argumentos do tipo "o que ganho com isso?", "o que essa pessoa me fez para justificar
minha ateno?" ou "ser que outra pessoa no poderia fazer isso em meu lugar?") no  o ponto de
partida da conduta moral, mas sim um sinal de sua morte, da mesma forma que toda amoralidade
comeou com a pergunta de Caim: "Serei eu o protetor de meu irmo?" Logstrup parece concordar.
        "A necessidade da moral' (essa expresso j  um paradoxo, pois aquilo que responde a uma
"necessidade", no importa o que seja,  algo diferente da moral) ou simplesmente sua "convenincia"
no podem ser estabelecidas discursivamente, muito menos provadas. A moral nada mais  que uma
manifestao de humanidade inatamente estimulada -- no "serve" a propsito algum e com toda certeza
no  guiada pela expectativa de lucro, conforto, glria ou auto-engrandecimento.  verdade que aes
objetivamente boas -- proveitosas e teis -- tm sido muitas vezes realizadas em funo do clculo de
lucro do agente, seja obter a graa divina, ganhar o respeito pblico ou livrar-se da crueldade
demonstrada em outras ocasies. Esses atos, porm, no podem ser classificados como genuinamente
morais precisamente por terem sido assim motivados.
        Nos atos morais, insiste Logstrup, "exclui-se um motivo ulterior". A expresso espontnea da vida
 radical precisamente graas  "ausncia de motivos ulteriores" -- tanto amorais quanto morais. Essa 
mais uma razo pela qual a demanda tica, essa presso "objetiva" para que sejamos ticos, emanada do
prprio fato de se estar vivo e compartilhando o planeta com outros,  e deve ser silenciosa. J que a
"obedincia  demanda tica" pode facilmente transformar-se (ser deformada e distorcida) num motivo de
conduta, essa demanda est em sua melhor forma quando  esquecida e no se pensa nela: sua
radicalidade "consiste em exigir o que e suprfluo" (6). "A imediao do contato humano  sustentada
pelas expresses imediatas da vida" (7) e no precisa de outros apoios, nem de fato os tolera.
        Em termos prticos, ela significa que, no importa o quanto um ser humano possa ressentir-se por
ter sido abandonado (em ltima instncia)  sua prpria deliberao e responsabilidade,  precisamente
esse abandono que contm a esperana de um convvio moralmente fecundo. A esperana -- no a
certeza.
        A espontaneidade e a soberania das expresses de vida no respondem pela conduta resultante
como sendo a escolha eticamente adequada e louvvel entre o bem e o mal. A questo, porm,  que erros
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crassos e escolhas acertadas surgem da mesma condio -- assim como os covardes impulsos de correr
em busca de proteo que as ordens peremptrias obrigatoriamente provem e a coragem de aceitar a
responsabilidade. Sem se preparar para a possibilidade de fazer escolhas erradas,  difcil haver uma
forma de perseverar na busca da escolha certa. Longe de ser uma grande ameaa  moral (e logo
abominvel para os filsofos ticos), a incerteza  a terra natal da pessoa tica e o nico solo em que a
moral pode brotar e florescer.
        Mas, como Logstrup prontamente nos assinala,  a "imediao do contato humano" que 
"sustentada pelas expresses imediatas de vida". Presumo que a conexo e o condicionamento mtuo
ajam nos dois sentidos. A "imediao" parece desempenhar no pensamento de Logstrup um papel
semelhante ao da "proximidade" nos textos de Levinas. As "expresses imediatas da vida" so disparadas
pela proximidade, ou pela presena imediata de outro ser humano -- fraco e vulnervel, sofrendo e
precisando de auxlio. Somos desafiados pelo que vemos. E desafiados a agir -- a ajudar, defender, trazer
alvio, curar ou salvar.

"A expresso soberana da vida"  outro "fato cru" -- tal como a "responsabilidade" de Levinas ou
mesmo a "demanda tica" de Logstrup.
        Ao contrrio da demanda tica, eternamente  espera, inaudvel, inexaurida, irrealizada e talvez, a
princpio, irrealizvel e inexaurvel, a expresso soberana da vida sempre se realiza e se conclui
prontamente -- embora no por escolha, mas "de modo espontneo, sem que se exija" (8). , podemos
presumir, essa condio "sem escolha" das expresses da vida que explica a imputao de "soberania".
        "A expresso soberana da vida" pode ser vista como outro nome para o Befindlichkeit ("estar
situado", noo essencialmente ontolgica) de Martin Heidegger, combinado com seu Stimmung ("estar
sintonizado", reflexo epistemolgico do "estar situado"). (9) Como Heidegger insinuou, antes que se
possa iniciar qualquer escolha j estamos imersos no mundo e sintonizados com essa imerso -- armados
de Vorurteil, Vorhabe, Vorsicht, Vorgriff, todas essas capacidades com o prefixo "vor" ("pr") que
antecedem todo o conhecimento e constituem a sua prpria possibilidade. Mas o Stimmung heideggeriano
relaciona-se intimamente com o das Man -- o "ningum, ao qual toda a nossa existncia ... j se rendeu".
"No incio, eu no sou 'eu' no sentido do meu prprio eu. Para comeo de conversa, ser  Man e tende a
permanecer assim." Esse estado de "Ser como das Man" , em sua essncia, o estado da conformidade an
sich, inconsciente de si mesma como conformidade (e que portanto no deve ser confundida com a
escolha soberana da solidariedade). Na medida em que aparece sob o disfarce do das Man, o Mitsein
("Ser Com")  uma fatalidade, no um destino nem uma vocao. E assim  a conformidade com a
rendio ao das Man: deve primeiro ser desmascarada como conformidade antes de ser rejeitada e
combatida no ato crtico da auto-afirmao, ou abraada entusiasticamente como uma estratgia e um
propsito de vida.
        Por outro lado, ao insistir em sua "espontaneidade", Logstrup sugere essa condio de "an sich"
para as expresses de vida, reminiscente daquela do Befindlichkeit e do Stimmung. Ao mesmo tempo,
contudo, parece identificar a expresso soberana da vida com a rejeio daquela conformidade "primeva",
"naturalmente dada" (ele tem fortes objees  "absoro" das expresses soberanas pela conformidade,
sua "submerso numa vida em que um indivduo imita outro"), embora no identificasse nenhuma delas
com o ato original da auto-emancipao, da ruptura do escudo protetor da condio an sich. Logstrup
insiste que "no  precipitado concluir que a expresso soberana da vida vai prevalecer" (10).
        A expresso soberana tem um adversrio poderoso -- a expresso "constrangida", induzida
externamente e portanto heternoma em vez de autnoma, ou ainda (numa interpretao provavelmente
mais afinada com a inteno de Logstrup) uma expresso cujos motivos (j re-presentados, ou melhor,
desvirtuados, como causas) se projetam sobre os agentes externos.
        Exemplos da expresso "constrangida" so designados como ofensa, cime e inveja. Em cada
caso, um trao marcante da conduta  o auto-engano destinado a ocultar as fontes genunas da ao. Por
exemplo, o indivduo "tem uma opinio muito elevada de si mesmo para tolerar a idia de ter agido
erradamente, e assim apela  ofensa para desviar a ateno de seu prprio deslize, o que consegue
identificando-se com a parte prejudicada ... Obtendo-se satisfao em ser a parte prejudicada, deve-se
inventar erros para alimentar a autocondescendncia." (10) A natureza autnoma da ao , portanto,
suprimida --  a outra parte, acusada da m conduta original, do delito que deu origem a tudo,
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apresentada como o verdadeiro ator do drama. O eu permanece, assim, totalmente do lado receptor.
Sofre as aes dos outros em vez de ser um ator por direito prprio.
        Uma vez abraada, tal viso parece propelir-se e reforar-se por si mesma. Para manter a
credibilidade, o ultraje imputado  outra parte deve ser mais assustador e acima de tudo menos curvel ou
redimvel, e os conseqentes sofrimentos das vtimas devem ser declarados ainda mais abominveis e
dolorosos, de modo que a vtima autodeclarada possa prosseguir justificando medidas cada vez mais
duras "em justa resposta"  ofensa cometida ou "em defesa" contra ofensas ainda por cometer. As aes
"constrangidas" precisam negar constantemente sua autonomia.  por essa razo que elas constituem o
obstculo mais radical  admisso da soberania do eu e a que este atue de maneira consoante com tal
admisso.
        A superao das restries auto-impostas mediante o desmascaramento e a desvalidao do auto-
engano sobre o qual elas se baseiam emerge assim como condio preliminar e indispensvel para dar
asas  expresso soberana da vida -- uma expresso que se manifesta, em primeiro lugar e acima de tudo,
na confiana, na misericrdia e na compaixo.

Durante a maior parte da histria humana, a "imediao da presena" se superps  potencial e
vivel "imediao da ao".
        Nossos ancestrais dispunham de poucos instrumentos (se  que chegavam a dispor de algum) que
os capacitassem a agir efetivamente a grande distncia, -- mas dificilmente se expunham  viso de um
sofrimento humano que fosse distante demais para ser alcanado pelos instrumentos de que dispunham. A
totalidade das escolhas morais com que nossos ancestrais se confrontavam poderia ser quase totalmente
encerrada dentro do espao limitado da imediao, dos encontros face a face e da interao. A escolha
entre o bem e o mal, quando enfrentada, podia assim ser inspirada, influenciada e, em princpio, at
mesmo controlada pela "expresso soberana da vida".
        Hoje em dia, porm, o silncio do mandado tico  mais ensurdecedor que nunca. Esse mandado
instiga e dirige secretamente as "expresses soberanas da vida". Mas ainda que elas tenham mantido sua
imediao, os objetos que as desencadeiam e atraem navegaram para longe, muito alm do espao da
proximidade/ imediao. Somando-se ao que podemos ver a olho nu (sem ajuda) em nossa vizinhana
imediata, agora estamos expostos diariamente ao conhecimento "mediado" da misria e da crueldade
distantes. Todos agora temos televiso; mas poucos de ns tm acesso aos meios de teleao.
        Se a misria que podamos no apenas ver, mas tambm mitigar ou curar, nos lanasse numa
situao de escolha moral capaz de ser administrada pela "expresso soberana da vida" (mesmo que isso
fosse dolorosamente difcil), o fosso crescente entre aquilo de que (indiretamente) nos tornamos
conscientes e aquilo que podemos (diretamente) influenciar eleva a incerteza que acompanha todas as
escolhas morais a alturas sem precedentes, nas quais nossos dotes ticos no esto acostumados e talvez
nunca sejam capazes de operar.
        A partir dessa dolorosa percepo de impotncia, talvez insuportvel, ficamos tentados a correr
em busca de abrigo. A tentao de converter em "inatingvel" o que  "difcil de administrar"  constante,
e crescente...

"Quanto mais nos destacamos de nossas vizinhanas imediatas, mais dependemos da vigilncia
desse ambiente ... Os lares de muitas reas urbanas do mundo agora existem para proteger seus
habitantes, no para integrar as pessoas a suas comunidades", observam Gumpert e Drucker. (12)
        " medida que os moradores ampliam seus espaos de comunicao para a esfera internacional,
simultaneamente conduzem suas casas para longe da vida pblica por meio de infra-estruturas de
segurana cada vez mais 'inteligentes--, comentam Graham e Marvin. (13) "Virtualmente todas as
cidades do mundo comeam a apresentar espaos e zonas poderosamente conectadas a outros espaos
'valorizados', cruzando a paisagem urbana e as distncias nacionais, internacionais e at mesmo globais.
Ao mesmo tempo, porm, muitas vezes h em tais lugares um palpvel e crescente senso de desconexo
local em relao a reas e pessoas fisicamente prximas, mas social e economicamente distantes." (14)
        O produto excedente da nova extraterritorialidade-mediante-a-conectividade dos espaos urbanos
privilegiados, habitados e usados pela elite global so as reas desconectadas e abandonadas -- as "alas
fantasmas" de Michael Schwarzer, onde "os sonhos foram substitudos por pesadelos e o perigo e a
violncia so mais banais do que em outros lugares" (15). Para manter as distncias intransponveis e
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afastar os perigos de vazamento e contaminao da pureza regional, os instrumentos acessveis so
impor a tolerncia zero e exilar os sem-teto dos espaos em que podem ganhar a vida (mas nos quais
tambm se fazem atrevida e exasperantemente visveis) para outros, afastados, nos quais no podem fazer
nem uma coisa nem outra.
        Tal como sugerido pela primeira vez por Manuel Castells, h uma crescente polarizao e uma
ruptura de comunicao ainda mais completa entre os mundos em que vivem as duas categorias de
residentes urbanos:

       O espao da camada superior  geralmente conectado  comunicao global e a uma ampla rede de intercmbio,
       aberta a mensagens e experincias que abrangem o mundo inteiro. Na outra extremidade do espectro, redes locais
       segmentadas, freqentemente de base tnica, apoiam-se em sua identidade como o mais valioso recurso para defender
       seus interesses e, em ltima instncia, o seu ser. (16)

        A imagem que emerge dessa descrio  de dois mundos segregados e distintos. S o segundo
deles  territorialmente circunscrito e pode ser capturado nas malhas das noes geogrficas ortodoxas,
mundanas e terra a terra. Os que vivem no primeiro desses dois mundos podem estar, como os outros, "no
lugar", mas no so "do lugar" -- decerto no espiritualmente, mas com muita freqncia tampouco
fisicamente, quando  seu desejo.
        As pessoas da "camada superior" no pertencem ao lugar que habitam, pois suas preocupaes se
situam (ou melhor, flutuam) alhures. Pode-se imaginar que, alm de serem deixadas ss e portanto livres
para se dedicarem totalmente a seus passatempos, e tendo assegurados os servios necessrios para suas
necessidades e confortos do dia-a-dia (como quer que os definam), elas no tm outros interesses na
cidade em que se localizam as suas residncias. A populao urbana no  -- como costumava ser para os
proprietrios de fbricas e os comerciantes de artigos de consumo e de idias de outrora -- seu campo de
pastagem, a fonte de sua riqueza ou um bem sob sua custdia, cuidado e responsabilidade. Portanto eles
esto, em conjunto, despreocupados em relao aos assuntos da "sua" cidade, apenas uma localidade entre
muitas, todas elas pequenas e insignificantes do ponto de vista do ciberespao -- seu lar genuno, ainda
que virtual.
        O mundo em que vive a outra camada de moradores da cidade, "inferior",  o exato oposto do
primeiro. Define-se sobretudo por ser isolado daquela rede mundial de comunicao pela qual as pessoas
da "camada superior" se conectam e com a qual suas vidas se sintonizam. Os habitantes urbanos da
camada inferior esto "condenados a permanecerem locais" -- e portanto se espera, e deve-se esperar,
que sua ateno, repleta de descontentamentos, sonhos e esperanas, se concentre nos "assuntos locais".
Para eles,  dentro da cidade que habitam que a batalha pela sobrevivncia e por um lugar decente no
mundo  desencadeada, travada, por vezes ganha, mas geralmente pedida.
        O desligamento da nova elite global em relao a seus antigos engajamentos com o populus local
e o crescente hiato entre os espaos vivos/vividos dos que se separaram e dos que foram deixados para
trs  comprovadamente o mais seminal de todos os afastamentos sociais, culturais e polticos associados
 passagem do estado "slido" para o estado "lquido" da modernidade.

H muita verdade, e nada alm da verdade, no quadro acima esboado. Mas no toda a verdade.
         Das partes da verdade que esto faltando ou foram subestimadas, a principal  aquela que, mais
que qualquer outra, responde pela caracterstica mais vital (e provavelmente mais influente a longo prazo)
da vida urbana contempornea: a ntima interao entre as presses globalizantes e o modo como as
identidades locais so negociadas, construdas e reconstrudas.
          um erro grave localizar os aspectos "globais" e "locais" das condies de existncia e da poltica
de vida contemporneas em duas esferas distintas que s se comunicam marginal e ocasionalmente, como
a opo por sair, feita pela "camada superior", em ltima anlise indicaria. Em estudo recentemente
publicado, Michael Peter Smith desaprova a viso (sugerida, em sua opinio, por David Harvey ou John
Friedman, entre outros) que ope "uma lgica dinmica, mas desenraizada, dos fluxos econmicos
globais [a] uma imagem esttica do lugar e da cultura local'; agora "valorizados" como o "locus da
existncia" do "estar no mundo"" Na opinio do prprio Smith, "longe de refletir uma esttica ontologia
do 'ser' ou da 'comunidade' as localidades so construes dinmicas 'em formao'".
         Com efeito, a linha que estabelece a separao entre o espao abstrato ("algum lugar em lugar
nenhum") dos operadores globais e o espao a nosso alcance, polpudo, tangvel, sumamente "aqui e
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agora" dos habitantes "locais", s pode ser traada com facilidade no mundo etreo da teoria. Nele, os
contedos emaranhados e entrelaados dos mundos humanos so, primeiramente "esticados" e, em
seguida, organizados e armazenados, cada qual no seu prprio compartimento, em beneficio da
inteligibilidade. As realidades da vida urbana, porm, destroem essas divises ntidas. Os elegantes
modelos de vida na cidade e as oposies agudas exibidas na sua construo podem proporcionar grande
satisfao intelectual aos formuladores de teorias, mas pouca orientao prtica aos planejadores urbanos,
e ainda menos apoio aos habitantes das cidades em sua luta contra os desafios de viver nelas.

Os verdadeiros poderes que moldam as condies sob as quais todos ns agimos hoje em dia fluem
num espao global, enquanto nossas instituies de ao poltica permanecem, em seu conjunto,
presas ao cho; elas so, tal como antes, locais.
        Por continuarem principalmente locais, as agncias polticas que operam no espao urbano
tendem, fatalmente, a ser atormentadas por uma insuficincia de poder de ao, e particularmente de ao
efetiva e soberana, no palco em que se desenrola o drama da poltica. Outro resultado, porm,  a escassez
de poltica no ciberespao extraterritorial, o playground dos poderes.
        Em nosso mundo globalizante, a poltica tende a ser crescente, apaixonada e conscientemente
local. Despejada do ciberespao, ou tendo o acesso a ele negado, a poltica recua e repercute sobre os
assuntos que esto "ao alcance", sobre questes locais e relaes de vizinhana. Para a maioria de ns,
durante a maior parte do tempo, esses parecem ser os nicos temas em relao aos quais podemos "fazer
alguma coisa" influenciar, corrigir, aperfeioar, redirecionar.  somente nas questes locais que nossa
ao ou inao "faz diferena", enquanto para as outras, reconhecidamente supra-locais, "no h
alternativa" (ou pelo menos  o que repetem nossos lderes polticos e todas as "pessoas que esto por
dentro"). Chegamos a suspeitar que, dados os meios e recursos miseravelmente inadequados de que
dispomos, as coisas assumiro seu prprio curso independente daquilo que fazemos ou poderamos, com
sensatez, imaginar fazer.
        Mesmo assuntos com fontes e causas indubitavelmente globais, remotas e recnditas s ingressam
no domnio das preocupaes polticas por meio de suas ramificaes e repercusses locais. A poluio
do ar ou dos suprimentos de gua transforma-se em assunto poltico quando um aterro de lixo txico 
instalado na porta ao lado, no "nosso jardim", numa proximidade de nossa casa que , ao mesmo tempo,
de uma intimidade assustadora e estimulantemente "a nosso alcance" A comercializao progressiva dos
temas de sade, obviamente um efeito da desabrida caa aos lucros empreendida pelos gigantes
farmacuticos supranacionais, entra no panorama poltico quando se derruba um posto de sade ou
quando os asilos param e sanatrios locais so desativados. Quem teve de lidar com os danos causados
pelo terrorismo global foram os moradores de uma cidade, Nova Iorque, assim como foram as cmaras e
prefeitos de outras cidades que tiveram de assumir a responsabilidade pela proteo da segurana
individual de seus habitantes, vista agora como vulnervel diante de foras entrincheiradas muito alm do
alcance de qualquer municipalidade. A devastao global dos modos de subsistncia e o desarraigamento
de populaes h muito estabelecidas entram no horizonte da ao poltica por meio de pitorescos
"migrantes econmicos" entupindo ruas que antes pareciam to uniformes...
        Para resumir uma longa histria: as cidades se tornaram depsitos de lixo para problemas gerados
globalmente. Os moradores das cidades e seus representantes eleitos tendem a ser confrontados com uma
tarefa que nem por exagero de imaginao seriam capazes de cumprir: a de encontrar solues locais para
contradies globais.
        Da o paradoxo, observado por Castells, de "polticas cada vez mais locais num mundo estruturado
por processos cada vez mais globais"* "Houve uma produo de significado e de identidade: meu bairro,
minha comunidade, minha cidade, minha escola, minha rvore, meu rio, minha praia, minha capela,
minha paz, meu meio ambiente." "Indefesas diante do furaco global, as pessoas se agarraram a si
mesmas."" Observe-se que, quanto mais estiverem "agarradas a si mesmas", mais indefesas tendero a
ficar "diante do furaco global", assim como mais desamparadas ao determinarem os significados e
identidades locais, e portanto ostensivamente seus -- para grande alegria dos operadores globais, que no
tm motivos para temer os indefesos.
        Como Castells insinua em outro texto, a criao do "espao dos fluxos" estabelece uma nova
hierarquia (global) de dominao mediante a ameaa de desengajamento. O "espao dos fluxos" pode
"escapar ao controle de qualquer localidade", enquanto (e porque!) "o espao dos lugares  fragmentado,
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localizado, e portanto crescentemente destitudo de poder diante da versatilidade do espao dos fluxos.
A nica chance de resistncia das localidades consiste em recusar direitos de propriedade a esses fluxos
esmagadores -- apenas para v-los atracar na localidade vizinha, provocando o desvio e a marginalizao
de comunidades rebeldes" (19).
        A poltica local -- e em particular a poltica urbana -- tornou-se desesperadamente
sobrecarregada, muito alm de sua capacidade de carga/desempenho. Agora espera-se que alivie as
conseqncias da globalizao descontrolada usando meios e recursos que essa mesmssima globalizao
tornou lamentavelmente inadequados.

Em nosso mundo em rpido processo de globalizao, ningum  um "operador global" puro e
simples. O mximo que os membros da elite internacional globalmente influente podem conseguir 
ampliar sua esfera de mobilidade.
        Se as coisas se tornam desconfortavelmente quentes e o espao em torno de suas residncias
urbanas se mostra muito perigoso e difcil de administrar, eles podem se mudar para outro lugar -- opo
de que no dispem seus vizinhos (fisicamente) prximos. Essa opo de escapar aos desconfortos locais
lhes d uma independncia com que os outros podem apenas sonhar, assim como o luxo de uma
indiferena arrogante que estes no se podem permitir. Seu compromisso de "colocar em ordem os
assuntos da cidade" tende a ser consideravelmente menos integral e incondicional que o compromisso
daqueles que tm menos liberdade para romper os vnculos locais de modo unilateral.
        Mas isso no significa que, na busca pelo "sentido e identidade" de que eles necessitam e anseiam
de modo no menos intenso do que as outras pessoas, os membros da elite globalmente conectada possam
desconsiderar o lugar em que vivem e trabalham. Como todos os outros homens e mulheres, eles so
parte da paisagem humana, e nela esto registradas as suas vacilantes aspiraes existenciais. Como
operadores globais, podem perambular pelo ciberespao. Mas como agentes humanos esto, dia aps dia,
confinados ao espao fsico em que operam, ao ambiente preestabelecido e continuamente reprocessado
no curso de suas lutas por sentido e identidade. A experincia humana  formada e compilada, a partilha
da vida  administrada, seu significado  concebido, absorvido e negociado em torno de lugares. E  nos
lugares e a partir deles que os impulsos e desejos humanos so gerados e incubados, que vivem na
esperana de se realizarem, que se arriscam a se frustrar e, na verdade, com muita freqncia, se frustram.
        As cidades contemporneas so campos de batalha em que os poderes globais e os significados e
identidades obstinadamente locais se encontram, se chocam, lutam e buscam um acordo que se mostre
satisfatrio ou pelo menos tolervel -- um modo de coabitao que encerre a esperana de uma paz
duradoura, mas que, em geral, se revela um simples armistcio, um intervalo para reparar as defesas
avariadas e redistribuir as unidades de combate.  esse confronto, e no algum fator singular, que coloca
em movimento e orienta a dinmica da cidade "lquido-moderna".
        E que no haja equvocos: qualquer cidade, ainda que nem todas no mesmo grau. Em recente
viagem a Copenhague, Michael Peter Smith registrou que, em apenas uma hora de caminhada, passou
"por pequenos grupos de imigrantes turcos, africanos e do Oriente Mdio", observou "diversas mulheres
rabes com e sem vu" leu "anncios em vrias lnguas no-europias" e teve "uma conversa interessante
com um barman irlands, num pub ingls, em frente ao jardim Tivoli." (20) Essas experincias de campo
se mostraram valiosas, diz Smith, na palestra sobre conexes transnacionais que ele apresentou naquela
cidade na mesma semana, "quando um debatedor insistiu em afirmar que o transnacionalismo era um
fenmeno que podia ser aplicado a 'cidades globais, como Nova Iorque ou Londres, mas tinha pouca
importncia em lugares mais isolados como Copenhague".

A histria recente das cidades norte-americanas est cheia de viradas de 180 graus -- mas ela 
plenamente caracterizada pelas preocupaes com proteo e segurana.
       O que aprendemos, por exemplo, com o estudo de John Hannigan (21)  que na segunda metade
do sculo xx um sbito horror ao crime oculto nas esquinas sombrias das reas centrais tomou de assalto
os habitantes das regies metropolitanas dos Estados Unidos, provocando uma "fuga branca" dos centros
das cidades -- embora poucos anos antes essas mesmas reas tivessem se tornado ms poderosos para
multides vidas por divertimento de massa, que s essas zonas, e no outras menos densamente
povoadas, podiam oferecer.
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        No importa se o medo do crime tinha bases slidas ou se o sbito crescimento da
criminalidade foi um produto de imaginaes febris -- o resultado foram reas centrais desertas e
abandonadas, "um nmero decrescente de pessoas em busca de prazeres e uma percepo cada vez maior
das cidades como locais perigosos". Sobre uma dessas cidades, Detroit, outro autor observou, em 1989,
que "as ruas ficam to desertas depois de escurecer que parece uma cidade fantasma -- tal como
Washington, a capital federal" (22).
        Hannigan descobriu que uma tendncia oposta teve incio perto do final do sculo. Depois dos
muitos anos de vacas magras, marcados pelo medo de sair  noite e pela "desertificao" que isso
provocou, as autoridades urbanas dos Estados Unidos uniram-se a patrocinadores no esforo de tornar o
centro das cidades novamente alegres, uma atrao irresistvel para farristas em potencial, com "a
diverso retornando s reas centrais" e "visitantes diurnos" ["day-trippers"] sendo novamente arrastados
para elas, na esperana de encontrar alguma coisa "excitante, segura e inexistente nos subrbios" (23).
        Reconhecidamente, essas mudanas drsticas e neurticas podem ser mais evidentes e abruptas
nas cidades norte-americanas, com seus antigos antagonismos e inimizades raciais -- geralmente
encobertos, mas capazes de explodir ocasionalmente -- do que em outros lugares, onde esses conflitos e
preconceitos acrescentam pouco ou nenhum combustvel  incerteza e  confuso latentes. De forma um
pouco mais suave e atenuada, porm, a ambivalncia da atrao e repulsa e a oscilao entre paixo e
averso  vida nos grandes centros urbanos tambm assinalam a histria recente de muitas cidades
europias, talvez da maioria delas.

Cidade e mudana social so quase sinnimos. A mudana  a condio de vida e o modo de
existncia urbanos. Mudana e cidade podem, e com certeza devem, ser definidas por referncia
mtua. Mas por que  assim? Por que tem de ser assim?
         comum definir as cidades como lugares onde estranhos se encontram, permanecem prximos
uns dos outros e interagem por longo tempo sem deixarem de ser estranhos. Examinando o papel das
cidades no desenvolvimento econmico, Jane Jacobs aponta a mera densidade da comunicao humana
como a causa principal dessa inquietao prpria do meio urbano. (24) Os habitantes das cidades no so
necessariamente mais inteligentes que outros seres humanos, mas a densidade da ocupao espacial
resulta na concentrao de necessidades. Assim, nas cidades se fazem perguntas que nunca foram feitas,
surgem problemas que em outras condies as pessoas nunca tiveram oportunidade de resolver. Encarar
problemas e questionar trazem um desafio e ampliam a inventividade humana a um nvel sem
precedentes. Isso, por sua vez, oferece uma oportunidade tentadora para quem vive em lugares mais
tranqilos, porm menos promissores. A vida urbana exerce uma atrao constante sobre as pessoas de
fora, e estas tm como marca registrada o fato de trazerem "novas maneiras de ver as coisas e talvez de
resolver antigos problemas" As pessoas de fora so estranhas  cidade, e coisas familiares aos moradores
antigos e j estabelecidos, coisas que eles sequer notam, parecem bizarras e exigem explicao quando
vistas pelos olhos de um estranho. Para este, particularmente quando recm-chegado, nada na cidade 
"natural nada pode ser pressuposto. Os recm-chegados so inimigos da tranqilidade e da
autocondescendncia.
        Essa talvez no seja uma situao agradvel para os nativos da cidade, mas  tambm sua grande
vantagem. A cidade est em sua melhor forma, mais exuberante e generosa em termos das oportunidades
que oferece quando seus recursos so desafiados, questionados e postos contra a parede. Michael Storper,
economista, gegrafo e projetista, (25) atribui a vivacidade intrnseca e a criatividade tpica da densa vida
urbana  incerteza que advm dos relacionamentos pouco coordenados e eternamente mutveis "entre as
peas das organizaes complexas, entre os indivduos e entre estes e as organizaes" -- inevitveis sob
as condies urbanas de alta densidade e estreita proximidade.
        Os estranhos no so uma inveno moderna, mas aqueles que permanecem estranhos por um
longo perodo, ou mesmo perpetuamente, so. Numa tpica cidade ou aldeia pr-moderna, no era
permitido permanecer estranho por muito tempo. Alguns eram expulsos, ou nem chegavam a obter
permisso para entrar. Os que desejavam e conseguiam entrar e permanecer por mais tempo tendiam a ser
"familiarizados" -- submetidos a interrogatrios minuciosos e rapidamente "domesticados" -- de modo
que pudessem integrar a rede de relacionamentos como se fossem mo-radores estabelecidos: no esquema
pessoal. Isso tinha conseqncias -- marcadamente diferentes do processo que nos  familiar a partir da
experincia das cidades contemporneas, modernas, congestionadas e densamente povoadas.
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Qualquer que seja a histria das cidades, e independentemente das drsticas mudanas que possam
ter afetado sua estrutura espacial, aparncia e estilo ao longo dos anos e dos sculos, uma
caracterstica se mantm constante: so espaos em que estranhos permanecem e se movimentam
em ntima e recproca proximidade.
        Sendo um componente permanente da vida urbana, a presena perptua e ubqua de estranhos
visveis e prximos aumenta em grande medida a eterna incerteza das buscas existenciais de todos os
habitantes. Essa presena, impossvel de se evitar seno por breves momentos,  uma fonte de ansiedade
inesgotvel, assim como de uma agressividade geralmente adormecida, mas que volta e meia pode
emergir.
        O medo do desconhecido, mesmo se subliminar, busca desesperadamente escoadouros confiveis.
As ansiedades acumuladas tendem a ser descarregadas sobre os "forasteiros", eleitos para exemplificar a
"estranheza", a falta de familiaridade, a opacidade do ambiente de vida, a impreciso do risco e da
ameaa em si. Quando se expulsa das casas e das lojas uma categoria selecionada de "forasteiros", o
fantasma atemorizante da incerteza  exorcizado por algum tempo -- queima-se simbolicamente o
monstro assustador da insegurana. Cercas cuidadosamente erguidas contra aqueles que se fazem passar
por pessoas "em busca de asilo" e migrantes "meramente econmicos" trazem a esperana de fortalecer
uma existncia incerta, errtica e imprevisvel. Mas a lquida vida moderna tende a permanecer
inconsistente e caprichosa, sejam quais forem os apuros infligidos aos "forasteiros indesejveis", e
portanto o alvio  momentneo, e as esperanas investidas nas "medidas duras e decisivas" se
desvanecem to logo se apresentam.
        O estranho , por definio, um agente movido por intenes que na melhor das hipteses se
poderia adivinhar, mas nunca saber com certeza. O estranho  a varivel desconhecida em todas as
equaes calculadas quando se tomam decises sobre o que fazer e como se comportar. E assim, mesmo
que no se tornem objetos de agresso ostensiva nem sejam aberta e ativamente ofendidos, a presena de
estranhos dentro do campo de ao permanece desconfortvel, na medida em que dificulta a tarefa de
predizer os efeitos do procedimento e suas chances de sucesso ou fracasso.
        Compartilhar o espao com estranhos, viver na sua proximidade repugnante e impertinente,  uma
condio da qual os habitantes das cidades consideram difcil, talvez impossvel escapar. A proximidade
de estranhos  sua sina, e faz-se necessrio experimentar, tentar, testar e (espera-se) encontrar um modus
vivendi que torne a coabitao palatvel e a vida suportvel. Essa necessidade  "dada", no-negocivel.
Mas o modo como os habitantes de cada cidade se conduzem para satisfaz-la  questo de escolha. E
esta  feita diariamente -- por ao ou omisso, desgnio ou descuido.

Sobre So Paulo, a maior cidade do Brasil, catica e em rpida expanso, escreve Teresa Caldeira:
"So Paulo  hoje uma cidade de muros. Barreiras fsicas foram construdas em toda parte -- em
torno de casas, prdios, parques, praas, escolas e complexos empresariais... Uma nova esttica da
segurana modela todos os tipos de construes e impe uma nova lgica de vigilncia e
distncia..." (26)
        Os que podem, vivem em "condomnios", planejados como se fosse uma ermida: fisicamente
dentro, mas social e espiritualmente fora da cidade. "Supe-se que as comunidades fechadas sejam
mundos distintos. Nas propagandas que os anunciam prope-se um 'modo de vida completo' que
representaria uma alternativa  qualidade de vida oferecida pela cidade e seu espao pblico deteriorado."
Um trao muito importante do condomnio  seu "isolamento e distncia da cidade... Isolamento significa
separao daqueles considerados socialmente inferiores" e, como insistem os construtores e seus agentes
imobilirios, "o fator-chave para garanti-lo  a segurana. Isso significa cercas e muros rodeando o
condomnio, guardas trabalhando 24 horas por dia no controle das entradas e um conjunto de instalaes
e servios" "destinados a manter os outros do lado de fora".
        Como todos sabemos, as cercas tm necessariamente dois lados. Dividem espaos, que sob outros
aspectos seriam uniformes, em "dentro" e "fora"; mas o que  "dentro" para os que esto de um lado 
"fora" para os que esto do outro. Os moradores dos condomnios cercam-se para ficar "fora" da
excludente, desconfortvel, vagamente ameaadora e dura vida da cidade -- e "dentro" do osis de calma
e segurana. Pelo mesmo vis, contudo, eles cercam todos os outros fora dos lugares decentes e seguros
cujos padres esto preparados e determinados a manter e defender com unhas e dentes, e dentro das
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mesmssimas ruas sujas e esqulidas das quais tentam, a todo custo, cercar-se. A cerca separa o "gueto
voluntrio" dos ricos e poderosos dos muitos guetos forados que os despossudos habitam. Para estes, a
rea a que esto confinados (por serem excludos de todas as outras)  o espao do qual "no tm
permisso de sair".

Em So Paulo, a tendncia segregacionista e exclusivista se apresenta da forma mais brutal,
inescrupulosa e desavergonhada. Mas pode-se sentir seu impacto, embora de maneira um tanto
atenuada, na maioria das metrpoles.
        Paradoxalmente, cidades construdas originalmente para oferecer segurana a seus habitantes so
hoje associadas com maior freqncia ao perigo. Como diz Nan Elin, "o fator medo [na construo e
reconstruo das cidades] certamente aumentou, como se pode depreender da proliferao dos sistemas
de segurana e das trancas para carros e residncias, da popularidade de comunidades `fechadas' e
`seguras' para grupos de todas as faixas etrias e de renda, e da crescente vigilncia dos espaos pblicos,
sem falar nos infindveis relatos de perigo transmitidos pelos meios de comunicao" (27).
        Ameaas ao corpo e  propriedade do indivduo, reais ou supostas, esto se transformando
rapidamente em consideraes importantes quando se avaliam os mritos ou desvantagens de um lugar
para se viver. Tambm se tornaram prioridade na poltica de marketing das imobilirias. A incerteza em
relao ao futuro, a fragilidade da posio social e a insegurana existencial -- ubquos acessrios da vida
na "lquida modernidade" de um mundo notoriamente enraizado em lugares remotos e retirados do
controle individual -- tendem a se concentrar nos alvos mais prximos e a serem canalizadas para as
preocupaes com a segurana individual. Os tipos de preocupao que se condensam em impulsos
segregacionistas/exclusivistas levam inexoravelmente a guerras pelo espao urbano.
        Como se pode aprender com o estudo perspicaz de Steven Flusty (28), jovem crtico norte-
americano de arquitetura/urbanismo, servir nessa guerra, e particularmente planejar maneiras de impedir
os adversrios -- atuais, potenciais e supostos -- de terem acesso ao espao reclamado, mantendo-os a
uma distncia segura, constitui a preocupao que se expande com maior amplitude e rapidez na rea da
inovao arquitetnica e do desenvolvimento urbano nas cidades norte-americanas. As novas construes,
anunciadas com maior orgulho e as mais imitadas, so "espaos interditados" -- "planejados para
interceptar, repelir ou filtrar os usurios potenciais" Explicitamente, o propsito dos "espaos
interditados"  dividir, segregar e excluir -- e no construir pontes, passagens acessveis e locais de
encontro, facilitar a comunicao ou, de alguma outra forma, aproximar os habitantes da cidade.
        As invenes arquitetnicas/urbansticas reconhecidas, enumeradas e especificadas por Flusty so
os equivalentes tecnicamente atualizados dos fossos, torrees e canhoneiras das muralhas que cercavam
as cidadelas pr-modernas. Mas, em vez de defender a cidade e todos os seus habitantes do inimigo
externo, foram erigidas para separ-los e defend-los uns dos outros, agora na condio de adversrios.
Entre as invenes relacionadas por Flusty esto o "espao resvaladio", "que no pode ser alcanado
graas a formas de acesso retorcidas, retrcteis ou inexistentes"; o "espao espinhoso", "que no pode ser
ocupado confortavelmente, j que  defendido por detalhes como aspersores embutidos nas paredes,
destinados a afastar ociosos, ou salincias espalhadas para evitar que as pessoas possam sentar-se"; e o
"espao nervoso", "que no pode ser utilizado sem o monitoramento ativo de patrulhas mveis e/ou
dispositivos de controle remoto conectados a centrais de segurana". Esses e outros tipos de "espaos
interditados" tm apenas um, embora mltiplo, propsito: separar os enclaves extraterritoriais da rea
urbana contgua, erigir pequenas fortalezas dentro das quais os membros da elite supraterritorial global
possam tratar, cultivar e apreciar sua independncia fsica e seu isolamento espiritual em relao 
localidade. Na paisagem urbana, os "espaos interditados" se tornam marcos de desintegrao da vida
comunal compartilhada e localmente ancorada.

Os desenvolvimentos descritos por Steven Flusty so manifestaes high-tech de uma visvel
mixofobia.
        A mixofobia  uma reao altamente previsvel e difundida entre os diversos tipos humanos e
estilos de vida capazes de confundir a mente, provocar calafrios e colapsos nervosos, de que esto
repletas as ruas das cidades contemporneas, assim como seus distritos residenciais mais "comuns" (leia-
se: no protegidos por "espaos interditados"). Conforme a polifonia e a diversificao cultural do
ambiente urbano na era da globalizao entram em cena -- com a probabilidade de se intensificarem no
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curso do tempo --, as tenses oriundas da exasperante/confusa/irritante estranheza desse cenrio
provavelmente continuaro a estimular impulsos segregacionistas.
        Expressar tais impulsos pode (de modo temporrio, mas repetido) aliviar tenses crescentes. Isso
oferece uma esperana: diferenas excludentes e desconcertantes podem ser incontestveis e refratrias,
mas talvez seja possvel extrair o veneno do ferro atribuindo a cada forma de vida um espao fsico
distinto, ao mesmo tempo inclusivo e excludente, bem demarcado e protegido. Evitando-se essa soluo
radical, talvez se possa pelo menos assegurar para si mesmo, para os amigos, parentes e outras "pessoas
como ns", um territrio livre daquela miscelnea que irremediavelmen- te aflige outras reas urbanas. A
mixofobia se manifesta no impulso que conduz a ilhas de semelhana e mesmidade em meio a um oceano
de variedade e diferena.
        As raizes da mixofobia so banais -- nem um pouco difceis de localizar, fceis de compreender,
embora no necessariamente de perdoar. Como indica Richard Sennett, "o sentimento 'ns, que expressa
um desejo de ser semelhante,  uma forma de os homens evitarem a necessidade de examinarem uns aos
outros com maior profundidade". Ele promete, pode-se dizer, algum conforto espiritual: a perspectiva de
tornar o convvio algo mais fcil de suportar, cortando-se o esforo de compreender, negociar,
comprometer-se, exigido quando se vive com a diferena e em meio a ela. "O desejo de evitar a
participao real  inato ao processo de formar uma imagem coerente da comunidade. Sentir que existem
vnculos comuns sem uma experincia comum ocorre, em primeiro lugar, porque os homens tm medo da
participao, dos perigos e desafios que ela traz, de sua dor." (29)
        O impulso na direo de uma "comunidade de semelhana"  um signo de recuo no apenas em
relao  alteridade externa, mas tambm ao compromisso com a interao interna, ao mesmo tempo
intensa e turbulenta, revigorante e embaraosa. A atrao de uma "comunidade da mesmidade"  a de
segurana contra os riscos de que est repleta a vida cotidiana num mundo polifnico. Ela no reduz os
riscos, muito menos os afasta. Como qualquer paliativo, promete apenas um abrigo em relao a alguns
dos efeitos mais imediatos e temidos desses riscos.
        Escolher escapar  opo apresentada pela mixofobia tem uma conseqncia insidiosa e deletria:
quanto mais ineficaz se mostra essa estratgia, mais ela se torna capaz de se perpetuar e se consolidar por
si mesma. Sennett explica por que isso  -- de fato, deve ser -- assim: "Durante as duas ltimas dcadas,
algumas cidades norte-americanas cresceram de tal maneira que as reas tnicas se tornaram
relativamente homogneas. No parece acidental que o medo do outsider tenha aumentado na mesma
medida em que essas comunidades foram isoladas." (30) Quanto mais as pessoas permanecem num
ambiente uniforme -- na companhia de outras "como elas", com as quais podem "socializar-se" de modo
superficial e prosaico sem o risco de serem mal compreendidas nem a irritante necessidade de traduo
entre diferentes universos de significaes --, mais tornam-se propensas a "desaprender" a arte de
negociar um modus covivendi e significados compartilhados.
        J que esqueceram ou no se preocuparam em adquirir as habilidades necessrias para viver com a
diferena, no surpreende muito que essas pessoas vejam com um horror crescente a possibilidade de se
confrontarem face a face com estranhos. Estes tendem a parecer ainda mais assustadores na medida em
que se tornam cada vez mais diferentes, exticos e incompreensveis, e em que o dilogo e a interao
que poderiam acabar assimilando sua "alteridade" se diluem ou nem chegam a ter lugar. O impulso que
conduz a um ambiente homogneo e territorialmente isolado pode ser disparado pela mixofobia, mas
praticar a separao territorial significa preserv-la e aliment-la.

Mas a mixofobia no  o nico combatente no campo de batalha urbano.
        Viver na cidade  sabidamente uma experincia ambgua. A cidade atrai e repele, mas, para tornar
a situao de seus habitantes ainda mais complexa, so os mesmos aspectos da vida urbana que, de modo
intermitente ou simultneo, atraem e repelem... A desordenada variedade do ambiente urbano  uma fonte
de medo (particularmente para aqueles de ns que j "perderam os modos familiares", tendo sido atirados
a um estado de incerteza aguda pelos processos desestabilizadores da globalizao). Os mesmos
bruxuleios e vislumbres caleidoscpios do cenrio urbano, a que nunca faltam novidades e surpresas,
constituem, no entanto, seu charme quase irresistvel e seu poder de seduo.
        Confrontar o espetculo incessante da cidade, com freqncia deslumbrante, no , portanto,
vivenciado apenas como praga ou maldio -- assim como abrigar-se dele no parece uma bno
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inequvoca. A cidade favorece a mixofobia do mesmo modo e ao mesmo tempo que a mixofilia. A vida
urbana  intrnseca e irreparavelmente ambivalente.
        Quanto maior e mais heterognea  a cidade, mais atraes ela pode promover e oferecer. A
condensao macia de estranhos  simultaneamente um repelente e um m poderoso, atraindo sempre
novas coortes de homens e mulheres cansados da monotonia da vida no campo ou na cidade pequena,
fartos de sua rotina repetitiva -- e desencantados diante de sua desesperadora escassez de oportunidades.
A variedade promete muitas e diversas oportunidades, que se ajustam a todas as habilidades e a todos os
gostos. E assim, quanto maior a cidade, mais provvel  que ela atraia um nmero crescente de pessoas
que rejeitam -- ou a quem foram recusadas -- acomodao e oportunidades de vida em lugares menores
e por isso menos tolerantes em relao a idiossincrasias e mais avarentos quanto s chances que oferecem.
Parece que a mixofilia, tal como a mixofobia,  uma tendncia capaz de impulsionar-se, difundir-se e
fortalecer-se. Nenhuma das duas tem propenso a se exaurir ou a perder seu vigor no curso da renovao
e reforma do espao urbano.
        Mixofobia e mixofilia coexistem em toda cidade, mas tambm dentro de cada um de seus
habitantes. Trata-se reconhecidamente de uma coexistncia problemtica, cheia de som e fria, embora
signifique muito para as pessoas que se encontram na ponta receptiva da ambivalncia lquido-moderna.

Como os estranhos so obrigados a levar suas vidas na companhia uns dos outros,
independentemente das futuras guinadas da histria urbana, a arte de viver em paz e feliz com a
diferena, assim como de se beneficiar, serenamente, da variedade de estmulos e oportunidades,
adquire enorme importncia entre as habilidades que o morador da cidade deve adquirir e utilizar.
        Mesmo que a erradicao total da mixofobia seja algo improvvel, dada a crescente mobilidade
humana na lquida era moderna, assim como a acelerada mudana de papis, tramas e ambientes do
cenrio urbano, talvez se possa fazer alguma coisa para influenciar as propores em que mixofobia e
mixofilia se combinam, e assim reduzir o impacto da primeira, que confunde e tende a gerar ansiedade e
angstia. Com efeito, parece que arquitetos e urbanistas poderiam ajudar muito no crescimento da
mixofilia e minimizar as oportunidades de respostas mixofbicas aos desafios da vida urbana. E parece
haver muita coisa que eles podem fazer, e de fato esto fazendo, para facilitar os efeitos opostos.
        Como vimos anteriormente, a segregao de reas residenciais e de espaos freqentados pelo
pblico, comercialmente atraente para os construtores e seus clientes como um remdio rpido para as
ansiedades geradas pela mixofobia,  na verdade a sua principal causa. As solues disponveis geram,
por assim dizer, os problemas que pretendem resolver: os construtores de comunidades fechadas e
condomnios estritamente protegidos, assim como os arquitetos responsveis pelos "espaos interditados",
criam, reproduzem e intensificam a necessidade e a demanda que supostamente satisfariam.
        A parania mixofbica alimenta-se e atua como uma profecia auto-realizadora. Se a segregao 
oferecida e assumida como a cura radical para o perigo representado pelos estranhos, a coabitao com
estes torna-se mais difcil a cada dia. Homogeneizar os bairros residenciais e depois reduzir a um mnimo
inevitvel todo o comrcio e a comunicao entre eles  uma receita certa para tornar mais intenso e
profundo o estmulo a destruir e segregar. Essa medida pode ajudar a diminuir as dores que sofrem as
pessoas afligidas pela mixofobia, mas a cura  ela prpria patognica e aprofunda a aflio, de modo que
novas e maiores doses do remdio tornam-se necessrias para manter a dor num nvel toleravelmente
baixo. A homogeneidade social do espao, enfatizada e fortalecida pela segregao espacial, reduz a
tolerncia de seus moradores  diferena e assim multiplica as possibilidades de reaes mixofbicas,
fazendo a vida urbana parecer mais "propensa ao risco" e portanto mais angustiante, em lugar de mais
segura, agradvel e fcil de levar.
        Mais favorvel  fixao e ao cultivo de sentimentos mixfilos seria a estratgia oposta por parte
de arquitetos e urbanistas: a propagao de espaos pblicos abertos, convidativos e hospitaleiros que
todas as categorias de moradores seriam tentadas a freqentar e estariam prontas a compartilhar, de modo
regular e consciente.
        Conforme a famosa observao de Hans Gadamer em seu livro Verdade e mtodo, a compreenso
mtua  instigada pela "fuso de horizontes" -- quer dizer, horizontes cognitivos, induzidos e ampliados
no curso da acumulao da experincia de vida. A "fuso" exigida pela compreenso mtua s pode ser o
resultado da experincia compartilhada, e esta  inconcebvel sem que haja um espao compartilhado.
                                                                                                        64
        Como que fornecendo uma poderosa prova emprica da hiptese de Gadamer, descobriu-se que
os espaos reservados para encontros face a face -- ou apenas para compartilhar o espao, "misturar-se
com" curtir juntos, jantar nos mesmos restaurantes ou beber nos mesmos bares -- dos homens de
negcios e outros membros da elite internacional ou Ma classe dominante global" emergente quando
esto viajando (lugares como as redes mundiais de hotis e os centros de conferncia supranacionais),
desempenham um papel crucial na integrao dessa elite, a despeito de diferenas culturais, lingsticas,
religiosas, ideolgicas e outras que, em situaes diversas, separam-na e evitam que se desenvolva o
sentimento de "pertencimento compartilhado" (31).
        Com efeito, o desenvolvimento da compreenso mtua e a troca de experincias de vida de que
essa compreenso necessita  a nica razo pela qual -- apesar da facilidade de se comunicar
eletronicamente com maior rapidez e muito menos trabalho e problemas -- empresrios e acadmicos
continuam viajando, visitando-se e se encontrando em conferncias. Se a comunicao pudesse ser
reduzida  transferncia de informao, sem necessidade da "fuso de horizontes", ento, em nossa era da
internet e da rede mundial, o contato fsico e o compartilhamento (mesmo que temporrio e intermitente)
de espao e experincias teriam se tornado redundantes. Mas no se tornaram, e at agora nada indica que
isso ocorrer.

H coisas que os arquitetos e urbanistas podem fazer para que a balana entre mixofobia e
mixofilia possa vir a pender em favor desta ltima (tal como, por ao ou omisso, eles contribuem
no sentido oposto). Mas h limites ao que podem conseguir agindo sozinhos e baseando-se
unicamente nos efeitos de suas prprias aes.
        As razes da mixofobia -- aquela sensibilidade alrgica e febril aos estranhos e ao desconhecido
-- jazem alm do alcance da competncia arquitetnica ou urbanstica. Esto profundamente fincadas na
condio existencial dos homens e mulheres contemporneos, nascidos e criados no mundo fluido,
desregulamentado e individualizado da mudana acelerada e difusa. No importa que significao possam
ter, para a qualidade da vida diria, a forma, a aparncia e a atmosfera das ruas das cidades, assim como o
uso que se faz dos espaos urbanos -- esses so apenas alguns dos fatores (e no necessariamente os
principais) que contribuem para aquela condio desestabilizadora que gera incerteza e ansiedade.
        Mais que qualquer outra coisa, os sentimentos mixofbicos so estimulados e alimentados por
uma sensao de insegurana esmagadora. Homens e mulheres inseguros, incertos de seu lugar no
mundo, de suas perspectivas de vida e dos efeitos de suas prprias aes, so mais vulnerveis  tentao
mixofbica e mais propensos a carem em sua armadilha. Esta consiste em canalizar a ansiedade para
longe de suas verdadeiras razes e descarreg-la sobre alvos que no se relacionam s suas fontes. Como
resultado, muitos seres humanos so vitimizados (e no longo prazo os vitimizadores atraem, por sua vez,
a vitimizao), enquanto as fontes da angstia permanecem protegidas da interferncia, emergindo ss e
salvas dessa operao.
        A conseqncia  que os problemas que afligem as cidades contemporneas no podem ser
resolvidos reformando-se os prprios centros urbanos, por mais radical que seja a reforma. No h,
permitam-me repetir, solues locais para problemas gerados globalmente. O tipo de "segurana"
oferecido pelos urbanistas no pode aliviar, muito menos erradicar, a insegurana existencial reabastecida
diariamente pela fluidez dos mercados de trabalho, pela fragilidade do valor atribudo a habilidades e
competncias do passado ou que se busca adquirir no presente, pela reconhecida vulnerabilidade dos
vnculos humanos e pela suposta precariedade e revogabilidade dos compromissos e parcerias. As
reformas urbanas devem ser precedidas de uma reforma das condies de existncia, j que estas
determinam o sucesso daquelas. Sem essa reforma, confinados  cidade, os esforos para sobrepujar ou
desintoxicar as presses mixofbicas tendem a continuar sendo apenas paliativos -- com muita
freqncia, to-somente placebos.
        Isso deve ser lembrado no para desvalorizar ou reduzir a diferena entre a boa e a m arquitetura,
ou entre planejamento urbano adequado e inadequado (ambos podem ser, e freqentemente so, de
enorme importncia para a qualidade de vida dos habitantes das cidades), mas para colocar a tarefa numa
perspectiva que inclua todos os fatores decisivos a fim de se fazer e sustentar a escolha certa.
                                                                                                      65
As cidades contemporneas so reas de descarga para os produtos malfeitos e deformados da
fluida sociedade moderna (embora elas prprias certamente no deixem de contribuir para a
acumulao de dejetos).
        No h solues centradas na cidade, muito menos a esta confinadas, para enfrentar contradies e
disfunes sistmicas. Por maiores e mais louvveis que sejam a imaginao de arquitetos, prefeitos e
vereadores, elas no sero encontradas. Os problemas devem ser enfrentados onde surjam: as dificuldades
confrontadas e sofridas dentro da cidade germinaram em outros lugares, e seus espaos de incubao e
gestao so amplos demais para que se possa combat-las com ferramentas concebidas at mesmo para
as maiores reas metropolitanas. Esses espaos se estendem alm do alcance da ao soberana do Estado-
nao, o maior, mais adequado, espaoso e inclusivo ambiente para os procedimentos democrticos
inventados e postos em funcionamento nos tempos modernos. Esses espaos so cada vez mais globais, e
at agora no chegamos nem perto de inventar, muito menos colocar em prtica, meios de controle
democrticos  altura do tamanho e da potncia das foras a serem controladas.
        Essa , sem dvida, uma tarefa de longo prazo e que vai exigir muito mais pensamento, ao e
persistncia do que qualquer reforma de planejamento urbano e esttica arquitetnica. Isso no significa,
contudo, que se devam suspender os esforos nessa direo at que se chegue  raiz do problema e se
coloquem sob controle aquelas tendncias globalizantes perigosamente indefinidas. Se podemos dizer
assim, o oposto  verdadeiro, j que, embora a cidade seja o aterro sanitrio das ansiedades e apreenses
geradas pela incerteza e a insegurana globalmente induzidas,  tambm um importante campo de
treinamento em que se pode experimentar, provar e acabar aprendendo e adotando os meios de aplacar e
dispersar esses sentimentos.
         na cidade que os estranhos que se confrontam no espao global como Estados hostis,
civilizaes rivais ou adversrios militares se encontram como seres humanos individuais, se vem de
perto, conversam, aprendem os costumes uns dos outros, negociam as regras da vida em comum,
cooperam e, cedo ou tarde, se acostumam com a presena dos outros e, cada vez mais, encontram prazer
em sua companhia. Depois de tal treinamento reconhecidamente local, esses estranhos podem ficar muito
menos tensos e apreensivos ao lidarem com assuntos globais. A incompatibilidade de civilizaes, tal
como a hostilidade mtua, pode mostrar-se, afinal, no to intratvel quanto parecia, e o estrpito dos
sabres pode no ser a nica forma de resolver conflitos. A "fuso de horizontes" de Gadamer pode se
transformar num projeto um pouco mais realista se buscarmos concretiz-la (mesmo que por tentativa e
erro, e com xito apenas relativo) nas ruas das cidades.

Vai levar tempo para que se assimile a nova situao global, e particularmente para que se possa
confront-la de maneira efetiva -- o que sempre ocorreu com todas as transformaes realmente
profundas da condio humana.
        Tal como no caso de todas essas transformaes,  impossvel (e altamente desaconselhvel
tentar) apropriar-se antecipadamente da histria e prever, para no dizer preestabelecer, a forma que ela
vai assumir e o arranjo a que acabar conduzindo. Mas esse confronto ter de acontecer. Ele
provavelmente constituir a principal preocupao e preencher a maior parte da histria do sculo que
est apenas comeando.
        O drama ser encenado e tramado nos dois espaos, o global e o local. Os desenlaces dessas
produes em dois palcos esto intimamente combinados e dependem muito do nvel de conscincia dos
roteiristas e atores de cada uma delas em relao a esse vnculo, assim como do grau de habilidade e
determinao com que contribuam para o sucesso mtuo.
                                                                                                        66

                                       4. Convvio destrudo

Um espectro paira sobre o planeta: o espectro da xenofobia. Suspeitas e animosidades tribais,
antigas e novas, jamais extintas e recentemente descongeladas, misturaram-se e fundiram-se a uma
nova preocupao, a da segurana, destilada das incertezas e intranqilidades da existncia lquido-
moderna.
        Pessoas desgastadas e mortalmente fatigadas em conseqncia de testes de adequao eternamente
inconclusos, assustadas at a alma pela misteriosa e inexplicvel precariedade de seus destinos e pelas
nvoas globais que ocultam suas esperanas, buscam desesperadamente os culpados por seus problemas e
tribulaes. Encontram-nos, sem surpresa, sob o poste de luz mais prximo -- o nico ponto
obrigatoriamente iluminado pelas foras da lei e da ordem: "So os criminosos que nos deixam inseguros,
so os forasteiros que trazem o crime." E assim " reunindo, encarcerando e deportando os forasteiros que
vamos restaurar a segurana perdida ou roubada".
Donald G. McNeil Jr. deu a seu resumo das mudanas mais recentes no espectro poltico europeu o ttulo
de "Politicians pander to fear of crime" (1). Com efeito, em todo o mundo submetido a governos
democraticamente eleitos a frase "serei duro com o crime" transformou-se num trunfo, mas a mo
vencedora  quase invariavelmente uma combinao da promessa de "mais prises, mais policiais,
sentenas maiores" com o juramento de "no  imigrao, aos direitos de asilo e  naturalizao". Como
diz McNeil, "polticos de toda a Europa usam o esteretipo de que 'o crime  causado por forasteiros' para
ligar o antiquado dio tnico  preocupao com a segurana pessoal, mais palatvel".
        O duelo Chirac versus Jospin pela presidncia da Frana, em 2002, estava apenas nos estgios
preliminares quando degenerou num leilo pblico em que os dois competidores buscavam apoio eleitoral
oferecendo medidas cada vez mais duras contra criminosos e imigrantes, mas sobretudo contra os
imigrantes que praticam crimes e contra a criminalidade praticada por imigrantes. (2) Antes de mais nada,
porm, eles deram o melhor de si tentando mudar o foco da ansiedade dos eleitores, derivada da
envolvente sensao de precarit (uma insegurana exasperante em relao  posio social, entrelaada
com uma incerteza aguda quanto ao futuro dos meios de subsistncia), para a preocupao com a
segurana individual (a integridade do corpo, das propriedades pessoais, do lar e da vizinhana). A 14 de
julho de 2001, Chirac colocou em movimento essa mquina infernal, anunciando a necessidade de
combater "essa crescente ameaa  segurana, essa mar montante", em vista do aumento (tambm
anunciado na ocasio) de quase 10% da delinqncia no primeiro semestre daquele ano, e declarando a
disposio de transformar em lei, uma vez reeleito, a poltica de "tolerncia zero". O tom da campanha
presidencial fora estabeleci- do, e Jospin no demorou a aderir, elaborando suas prprias variaes sobre
o tema comum (embora -- inesperadamente para os solistas principais, mas decerto no para os
observadores sociologicamente informados -- a voz mais destacada tenha sido a de Le Pen, na qualidade
de mais pura e, portanto, mais audvel).
        A 28 de agosto Jospin proclamava "a batalha contra a insegurana", prometendo que no teria
"nenhuma complacncia", enquanto a 6 de setembro Daniel Vaillant e Marylise Lebranchu, seus
ministros, respectivamente, do Interior e da Justia, juravam que no tolerariam de forma alguma a
delinqncia. A reao imediata de Vaillant aos eventos de 11 de setembro nos Estados Unidos foi
aumentar os poderes da polcia, principalmente no que se refere ao enfrentamento dos jovens
"etnicamente estranhos" habitantes dos banlieux, as amplas reas residenciais situadas nas periferias
urbanas, onde, segundo a (conveniente) verso oficial, era gerada a demonaca mistura de incerteza e
insegurana que envenenava a vida dos franceses. O prprio Jospin continuou atacando e vilipendiando,
em termos cada vez mais mordazes, a "escola angelical" da abordagem ultra-suave, jurando que jamais
pertencera a ela no passado e jamais o faria no futuro. O leilo prosseguia, e os lances se tornavam
estratosfricos. Chirac prometeu criar um ministrio da segurana interna, ao que Jospin reagiu com o
compromisso de um ministrio "encarregado da segurana pblica" e da "coordenao das operaes
policiais" Quando Chirac brandiu a idia de instituir centros destinados a trancafiar delinqentes juvenis,
Jospin fez eco a essa promessa com a viso de "estruturas gradeadas" com a mesma finalidade, superando
o lance do oponente com a perspectiva de "condenaes sumrias".
        Apenas trs dcadas atrs Portugal era (juntamente com a Turquia) o principal fornecedor de
"trabalhadores convidados" [os Gastarbeiter], que os Brger alemes temiam saquear suas cidades e
                                                                                                        67
destruirem o pacto social, pilar de sua segurana e conforto. Hoje, graas ao aumento significativo de
sua riqueza, Portugal passou de exportador a importador de mo-de-obra. As dificuldades e humilhaes
sofridas quando era preciso ganhar a vida no exterior foram rapidamente esquecidas: 27% dos
portugueses declararam que os bairros infestados do crime e de estrangeiros constituam sua principal
preocupao, e Paulo Portas, um recm-chegado  arena poltica, jogando uma carta nica, violentamente
contrria  imigrao, ajudou a conduzir ao poder uma coalizo neodireitista (da mesma forma que
ocorreu com o Partido do Povo Dinamarqus de Pia Kiersgaard, com a Liga Norte de Umberto Bossi na
Itlia e com o Partido do Progresso na Noruega, radicalmente antiimigrantes -- todos em pases que no
muito tempo antes enviavam seus filhos a terras distantes para ganhar o po que eles prprios eram muito
pobres para oferecer).
         Notcias como essa freqentemente ganham as manchetes dos jornais (como "Reino Unido planeja
cancelar asilo", The Guardian, 13 de junho de 2002 -- considero desnecessrio mencionar as manchetes
dos tablides...). Mas o ncleo principal da fobia de imigrantes permanece oculto das atenes (de fato,
do conhecimento) da Europa Ocidental e nunca vem  superfcie. "Culpar os imigrantes" -- estrangeiros
e recm-chegados, e particularmente estrangeiros recm-chegados -- por todos os aspectos da doena
social (e acima de tudo pelo nauseante e desabilitante sentimento de Unsicherheit, incertezza, precarit,
insegurana) est se tornando rapidamente um hbito global. Nas palavras de Heather Grabbe, diretora de
pesquisa do Centro para a Reforma Europia, "os alemes culpam os poloneses, os poloneses culpam os
ucranianos, os ucranianos culpam os quirguizes, que por sua vez culpam os usbeques" (3), enquanto
pases pobres demais para atrair vizinhos em busca desesperada por meios de sobrevivncia, tais como
Romnia, Bulgria, Hungria ou Eslovquia, direcionam seu dio aos habituais suspeitos e culpados de
planto: aquelas pessoas do lugar mas em constante mudana, sem endereo fixo, e assim -- sempre e
onde quer que estejam -- "recm-chegadas" e forasteiras: os ciganos.
         Quando se trata de estabelecer tendncias globais, os Estados Unidos tm prioridade indiscutvel e
geralmente assumem a iniciativa. Mas juntar-se  onda global de ataque aos imigrantes representa um
problema muito difcil para aquele pas, reconhecidamente formado por imigrantes. A imigrao
atravessou a histria norte-americana como um passado de nobreza, uma misso, um empreendimento
herico levado a cabo pelos audazes, os valentes e os bravos. Assim, desprezar os imigrantes e lanar
suspeitas sobre sua nobre vocao significaria atacar o prprio cerne da identidade norte-americana, e
talvez fosse um golpe mortal no Sonho Americano, seu indiscutvel pilar e cimento. Mas esforos tm
sido feitos, por tentativa e erro, para tornar o crculo quadrado...
         A 10 de junho de 2002, funcionrios de alto escalo do governo norte-americano (o diretor do FBI
Robert Mueller, o subprocurador geral Larry Thompson, o subsecretrio de Defesa Paul Wolfowitz, entre
outros) anunciaram a priso de um suposto terrorista da Al-Qaeda que retornava a Chicago de uma
viagem de treinamento no Paquisto (4). Segundo a verso oficial do caso, um cidado norte-americano,
nascido e criado nos Estados Unidos, Jose Padilla (nome que aponta razes hispnicas, ligado s ltimas
levas de imigrantes, pobremente assentadas, da longa lista de filiaes tnicas), converteu-se ao
islamismo, assumiu o nome de Abdullah alMujahir e prontamente procurou seus irmos muulmanos em
busca de instrues sobre como prejudicar sua terra natal. Foi instrudo na arte tosca de fabricar "bombas
sujas" -- "assustadoramente fceis de montar" a partir de alguns gramas de explosivos convencionais
amplamente disponveis e de "praticamente qualquer tipo de material radioativo" em que potenciais
terroristas "possam pr as mos" (no ficou clara por que era necessrio treinamento sofisticado para
produzir armas "assustadoramente fceis de montar", mas, quando se trata de lanar as sementes do dio,
a lgica  irrelevante). "Uma nova expresso entrou no vocabulrio de muitos norte-americanos mdios
depois do 11 de setembro: bomba suja", anunciaram os reprteres Nichols, Hall e Eisler, do USA Today.
         O caso foi um golpe de mestre: a armadilha ao Sonho Americano foi habilmente contornada pelo
fato de Jose Padilla ser um estrangeiro e um estranho por sua prpria e livre escolha como norte-
americano. E o terrorismo foi vividamente retratado como algo ao mesmo tempo de origem estrangeira e
ubiquamente domstico, oculto atrs de cada esquina e se espalhando por todos os bairros -- tal como os
antigos "comunistas debaixo da cama". E foi assim uma metfora impecvel e um escoadouro totalmente
confivel para os medos e apreenses, igualmente ubquos, da vida precria.
No entanto esse expediente revelou-se equivocado. Quando vistos de outras agncias da administrao
federal, os ativos do caso ficavam parecendo passivos. A "bomba suja", "assustadoramente fcil de
montar" exporia a loucura de um "escudo antimsseis" multibilionrio. As credenciais nativas de al-
                                                                                                    68
Mujahir poderiam acrescentar um grande ponto de interrogao  planejada cruzada contra o Iraque e a
todas as suas seqelas ainda inominadas. O que era alimento para alguns departamentos federais tinha o
gosto de veneno para outros. Estes ltimos parecem estar em vantagem no momento, j que o pescoo
desse caso promissor foi pronta, rpida e diligentemente torcido. Mas no porque seus responsveis
tenham deixado de tentar...

A modernidade produziu desde o incio, e continua a produzir, enormes quantidades de lixo
humano.
        A produo de lixo humano era particularmente ampla em dois ramos da indstria moderna (ainda
totalmente produtivos e operando a todo vapor).
        A funo manifesta do primeiro deles era a produo e reproduo da ordem social. Todo modelo
de ordem  seletivo e exige que se cortem, aparem, segreguem, separem ou extirpem as partes da matria-
prima humana que sejam inadequadas para a nova ordem, incapazes ou desprezadas para o preenchimento
de qualquer de seus nichos. Na outra ponta do processo de construo da ordem, essas partes emergem
como "lixo", distintas do produto pretendido, considerado "til".
        O segundo ramo da indstria moderna conhecido pela produo contnua de grandes quantidades
de lixo humano era o progresso econmico, o qual, por sua vez, exige a incapacitao, o
desmantelamento e a aniquilao final de certo nmero de formas e meios de os seres humanos ganharem
a vida -- modos de subsistncia que no podiam nem iriam ajustar-se a padres de produtividade e
rentabilidade em constante elevao. Via de regra, os praticantes dessas formas de vida desvalorizadas
no podem ser acomodados en masse nos novos arranjos da atividade econmica, mais esguios e
inteligentes. Eles tiveram negado o acesso a esses modos de subsistncia na medida em que os novos
arranjos se tornaram legtimos/obrigatrios, enquanto os modos ortodoxos, agora desvalorizados, no
mais permitem que se sobreviva. Eles so, por esse motivo, o lixo do progresso econmico.
        Mas as conseqncias potencialmente desastrosas da acumulao de lixo humano foram, por boa
parte da histria humana, evitadas, neutralizadas ou ao menos mitigadas graas a outra inovao
moderna: a indstria de manejo do lixo. Ela cresceu porque amplas partes do globo se transformaram em
aterros sanitrios para onde os "excedentes da humanidade" o lixo humano produzido nos setores do
planeta em processo de modernizao, podiam ser transportados para serem tratados e descontaminados,
afastando assim o perigo de autocombusto e exploso.
        O planeta est se tornando carente desses aterros, em grande parte por causa do sucesso
espetacular -- a difuso planetria --do modo de vida moderno (pelo menos desde a poca de Rosa
Luxemburgo, a modernidade tem sido suspeita de uma tendncia essencialmente suicida, "cobra
mordendo o prprio rabo"). A oferta de aterros sanitrios  cada vez menor. Enquanto a produo de lixo
humano prossegue inabalvel (se  que no est aumentando em funo dos processos de globalizao), a
indstria de tratamento do lixo passa por duras dificuldades. As formas de lidar com o lixo humano que
se transformaram na tradio moderna no so mais viveis, e novas maneiras no foram inventadas,
muito menos postas em operao. Pilhas de lixo humano crescem ao longo das linhas defeituosas da
desordem mundial, e se multiplicam os primeiros sinais de uma tendncia  autocombusto, assim como
os sintomas de uma exploso iminente.

A crise da indstria de tratamento do lixo humano est por trs da atual confuso, revelada pelo
alvoroo desesperado -- embora amplamente irracional e desmedido -- em torno da administrao
da grave conjuntura desencadeada pelo 11 de setembro.
        Mais de dois sculos atrs, em 1784, Kant observou que nosso planeta  uma esfera, e extraiu
conseqncias desse fato reconhecidamente banal: como permanecemos na superfcie dessa esfera e nela
nos movemos, no temos outro lugar para ir e portanto estamos destinados a viver para sempre na
vizinhana e companhia de outros. A longo prazo, manter a distncia, que dir ampli-la, est fora de
questo: nosso movimento em torno da superfcie esfrica acabar reduzindo a distncia que
pretendamos alargar. E assim die volkommende brgeliche Vereinigung in der Menschengattung (a
perfeita unificao da espcie humana por meio de uma cidadania comum)  o destino que a Natureza nos
reservou ao nos colocar na superfcie de um planeta esfrico. A unidade da humanidade  o derradeiro
horizonte de nossa histria universal. Um horizonte que ns, seres humanos, estimulados e guiados pela
razo e pelo instinto de autopreservao, estamos destinados a perseguir e, na plenitude do tempo,
                                                                                                         69
alcanar. Mais cedo ou mais tarde, advertiu Kant, no haver uma nica nesga de espao vazio onde
possam procurar abrigo ou resgate os que considerem os espaos j ocupados muito apinhados, inspitos,
inconvenientes ou inadequados. E assim a Natureza nos obriga  viso da hospitalidade (recproca) como
o preceito supremo que precisamos -- e acabaremos sendo forados a -- abraar e obedecer para pr fim
 longa cadeia de tentativas e erros, s catstrofes causadas por esses erros e s devastaes que elas
deixam em sua esteira.
        Os leitores de Kant puderam aprender tudo isso em seu livro dois sculos atrs. O mundo,
contudo, mal prestou ateno. Parece que, em vez de escutar atentamente seus filsofos, sem falar em
seguir suas advertncias, prefere homenage-los com placas. Os filsofos podem ter sido os principais
heris do drama lrico do Iluminismo, mas a tragdia pica ps-iluminista quase apagou suas falas.
        Preocupado em arranjar o casamento das naes com os Estados, dos Estados com a soberania e
desta com territrios cercados por fronteiras estritamente fechadas e diligentemente controladas, o mundo
parecia perseguir um horizonte bem diferente daquele traado por Kant. Durante 200 anos, o mundo se
ocupou em fazer do controle dos movimentos dos seres humanos uma prerrogativa exclusiva dos poderes
estatais, em erigir barreiras queles que no era possvel controlar e em lot-las de guardas atentos e
fortemente armados. Passaportes, vistos de entrada e sada, alfndegas e controles de imigrao foram
invenes originais da moderna arte de governar.
        O advento do Estado moderno coincidiu com a emergncia das "pessoas sem Estado", os sans
papiers, e da idia de unwertes Leben, a reencarnao mais recente (5) da antiga instituio do homo
sacer, derradeira personificao do direito soberano de descartar e excluir qualquer ser humano que tenha
sido lanado alm dos limites das leis humanas e divinas, e de transform-lo num ser a que as leis no se
aplicam e cuja destruio no acarreta punies, despida que  de qualquer significado tico ou religioso.

A derradeira sano do poder soberano moderno resultou no direito de excluso da humanidade.
        Poucos anos depois de Kant ter publicado suas concluses, surgiu outro documento, mais curto,
que teria, nos dois sculos de histria seguintes, bem como nas mentes de seus principais atores, um peso
muito maior que o livrinho do filsofo. Era a Dclaration des Droits de L'Homme e du Citoyen, em
relao  qual Giorgio Agamben observaria, com o benefcio de uma perspectiva de 200 anos, no estar
claro se "os dois termos [homem e cidado] deveriam identificar duas realidades distintas" ou se, em vez
disso, o primeiro deles sempre quis dizer "j contido no segundo" (6) - ou seja, o portador dos direitos era
o homem que tambm fosse (ou na medida em que fosse) um cidado.
        Essa falta de clareza, com todas as suas conseqncias repulsivas, fora observada antes por
Hannah Arendt num mundo que rapidamente se enchia de "pessoas deslocadas". Ela relembrou a antiga
premonio de Edmund Burke, genuinamente proftica, de que o maior perigo para a humanidade era a
abstrata nudez de "no ser nada alm de humana" (7). "Os direitos humanos", como Burke observou,
eram uma abstrao, e os seres humanos no poderiam esperar que eles garantissem muita proteo, a
menos que essa abstrao fosse preenchida com a substncia em que consistiam os direitos dos ingleses
ou franceses. "O mundo nada descobriu de sagrado na abstrata nudez do ser humano", como Arendt
resumiu a experincia dos anos que se seguiram s observaes de Burke. "Os direitos do homem,
supostamente inalienveis, mostraram-se inaplicveis ... onde quer que tenham aparecido pessoas que no
eram mais cidads de algum Estado soberano." (8)
        Com efeito, pessoas dotadas de "direitos humanos", mas nada alm disso -- sem outros direitos,
mais defensveis porque institucionalmente enraizados, para conter e manter no lugar os direitos
"humanos" --, no podiam ser encontradas em lugar algum e eram, para todos os fins prticos,
inimaginveis. Obviamente, era necessria uma puissance, potenza, might ou Macht (9) essencialmente
social para endossar a humanidade dos seres humanos. E por toda a era moderna essa "potncia" veio a
ser, invariavelmente, aquela que traou a fronteira entre humano e inumano, disfarada, nos tempos
modernos, na que divide cidados e estrangeiros. Nesta terra fatiada em Estados soberanos, os sem-teto
so tambm sem-direitos, e sofrem, no por no serem iguais perante a lei, mas porque no existe lei que
se aplique a eles e nas quais possam se pautar, ou a cuja proteo possam recorrer, em seus protestos
contra a rigorosa condio a que foram submetidos.
        Em seu ensaio sobre Karl Jaspers, escrito alguns anos depois de As origens do totalitarismo,
Hannah Arendt observava que, embora para todas as geraes precedentes a "humanidade" tivesse sido
apenas um conceito ou ideal (podemos acrescentar: um postulado filosfico, um sonho de humanistas, por
                                                                                                        70
vezes um grito de guerra, mas dificilmente um princpio organizador da ao poltica), ela havia "se
tornado algo dotado de uma realidade urgente" (10). Transformara-se em um assunto de extrema urgncia
porque o impacto do Ocidente tinha no apenas saturado o restante do mundo com os produtos de seu
desenvolvimento tecnolgico, mas tambm exportado "seus processos de desintegrao" -- entre eles a
ruptura das crenas religiosas e metafsicas, os avanos espantosos das cincias naturais e a ascenso do
Estado-nao como praticamente a nica forma de governo apresentada de modo mais proeminente.
Foras que tinham precisado de sculos para "minar as antigas crenas e formas de vida poltica" no
Ocidente "levaram apenas algumas dcadas para derrub-las ... em todas as outras partes do mundo".
       Esse tipo de unificao, assinala Arendt, no poderia seno produzir um tipo "inteiramente
negativo" de "solidariedade do gnero humano". Cada parte da populao humana sobre a terra  tornada
vulnervel por todas as outras e cada uma delas. Trata-se, podemos dizer, de uma "solidariedade" de
perigos, riscos e temores. Na maior parte do tempo e para a maioria das pessoas, a "unidade do planeta"
se resume ao horror diante de ameaas geradas ou incubadas em lugares distantes num mundo "em
ampliao, mas fora do alcance".

Juntamente com o produto pretendido, toda fbrica gera lixo. A fbrica da moderna soberania de
base territorial no foi exceo.
        Por cerca de 200 anos aps a publicao das advertncias de Kant, o progressivo "preenchimento
do mundo" -- e assim, conseqentemente, o impulso a admitir que a totalidade do planeta (por ele
considerada um veredicto inevitvel da Razo e da Natureza combinadas numa s, sem apelo permitido)
era de fato iminente -- sofreu retaliao com a ajuda da [anti] santssima trindade formada por territrio,
nao e Estado.
        O Estado-nao, como observa Giorgio Agamben,  um Estado que faz da "natividade ou
nascimento" o "pilar de sua prpria soberania" "A fico aqui implcita", assinala Agamben, " que o
nascimento [nascita] imediatamente ganha existncia como nao, de modo que no pode haver diferena
alguma entre os dois momentos." (11) A pessoa nasce, por assim dizer, na "cidadania do Estado".
        A nudez da criana recm-nascida, mas ainda no envolta nos ornamentos jurdico-legais, fornece
o locus em que a soberania do poder de Estado  perpetuamente construda, reconstruda e assistida com o
auxlio das prticas de incluso/excluso destinadas a todos os outros demandantes da cidadania que caem
sob o alcance dessa soberania. Podemos propor a hiptese de que a reduo de bios para zo, que
Agamben considera a essncia da soberania moderna (ou, poderamos tambm dizer, a reduo do Leib, o
corpo vivo em ao, ao Krper, um corpo sobre o qual se pode agir, mas destitudo de ao),  uma
concluso precipitada, j que o nascimento  eleito a nica forma de ingresso "natural" nessa nao, sem
exigncia de testes nem questionrios.
        Todos os outros demandantes que podem bater  porta do Estado soberano pedindo admisso
tendem, em primeiro lugar, a ser submetidos ao ritual de desnudamento. Como indicou Victor Turner,
seguindo o esquema em trs estgios do rite de passage elaborado por Van Genep, antes que os recm-
chegados em busca de admisso a um locus social ganhem acesso (se isso ocorrer) quele novo guarda-
roupa onde so guardadas as vestimentas adequadas e reservadas para isso, eles precisam despir-se (tanto
metafrica quanto literalmente) de todos os adornos de seu encargo anterior. Devem permanecer por
algum tempo em estado de "nudez social". Passam a quarentena num no-espao "nem um nem outro"
onde trajes de importncia socialmente definida e aprovada no so oferecidos nem permitidos. So
isolados de seus pertences pelo purgatrio do "espao de nenhures" intermedirio que separa entre si as
tramas constituintes de um mundo nelas dividido, concebido como uma agregao de tramas afastadas
espacialmente. A incluso, se for oferecida, deve ser precedida de uma excluso radical.
        Segundo Turner, a mensagem transmitida pela parada obrigatria num acampamento
cuidadosamente limpo de quaisquer implementos capazes de elevar os acampados do nvel zo ou Krper
ao bios ou Leib ("a importncia social de reduzi-los a algum tipo de primo materia humana, destituda de
uma forma especfica e restrita, a uma condio que, embora ainda social, est fora ou alm de todas as
formas aceitas de status"), essa mensagem  de que no h um caminho direto que conduza de um status
socialmente aprovado para outro. Antes que se possa fazer isso,  preciso imergir e dissolver-se numa
"communitas desestruturada, ou estruturada apenas de modo rudimentar, e relativamente
indiferenciada..." (12).
                                                                                                                          71
        Hannah Arendt situou o fenmeno posteriormente estudado por Turner no domnio, operado
pelo poder, da expulso, do exlio, da excluso e da dispensa. A humanidade que assume "a forma de
fraternidade" inferiu ela, " o grande privilgio dos povos prias", referidos nos debates pblicos do
sculo XVIII sob o nome genrico de les malheureux, substitudo no sculo seguinte por les misrables e,
desde meados do sculo XX, pelo saco de gatos da noo de "refugiados" -- mas que sempre foram
privados de um lugar prprio no mapa-mndi mental desenhado pelos povos que cunhavam e
empregavam esses nomes. Comprimidos, confinados e esmagados por mltiplas rejeies, "os
perseguidos tm se movido a uma tal proximidade que o espao intermedirio que chamamos de mundo
(e que evidentemente havia entre eles antes da perseguio, mantendo-os a uma distncia uns dos outros)
simplesmente desapareceu" (13).
        Para todos os fins e propsitos prticos, as categorias prias/proscritas estavam fora do mundo --
do mundo de categorias e finas distines que os poderes constitudos haviam gerado e dado a conhecer
sob o nome de "sociedade". O nico mundo a ser habitado pelos seres humanos e capaz de transform-los
em cidados, portadores e praticantes de direitos. Eles eram uniformes, compartilhando um tipo de falta
de atributos que os falantes do vernculo seriam capazes de notar, apreender, nomear e compreender. Ou
pelo menos era isso que pareciam ser, devido  aliana entre a pobreza do vernculo e a homogeneizao
obtida com a anuncia do poder e concretizada mediante a expropriao de direitos.

Se nascimento e nao constituem uma s coisa, ento todos os outros que ingressam ou desejam
ingressar na famlia nacional devem imitar a nudez do recm-nascido -- ou sero compelidos a isso.
        O Estado -- guardio e agente penitencirio, porta-voz e censor-chefe da nao -- garantiria que
essa condio fosse alcanada.
Como adverte Carl Schmitt, reconhecidamente um dos intelectuais mais lcidos e realistas que se
dedicam a traar a anatomia do Estado moderno: "Quem determina um valor sempre fixa, eo ipso, um
no-valor. O sentido dessa determinao  que este ltimo seja aniquilado." (14) Determinar o valor
estabelece os limites do normal, do comum, do regular. O no-valor  uma exceo que assinala essa
fronteira.

       A exceo  aquilo que no pode ser subsumido. Ela desafia a codificao geral, mas ao mesmo tempo revela um
       elemento formal especificamente jurdico: a deciso em absoluta pureza ... No h regra aplicvel ao caos.  preciso
       estabelecer a ordem para que a ordem jurdica faa sentido. Deve-se criar uma situao regular, e  soberano quem
       decide definitivamente se essa situao  de fato efetiva ... A exceo no apenas confirma a regra -- esta, como tal,
       vive apenas da exceo. (15)

       Giorgio Agamben comenta: "A regra se aplica  exceo ao no mais se aplicar, ao se retrair em
relao a ela. Assim, o estado de exceo no  o caos que precedeu a ordem, mas a situao resultante de
sua suspenso. Nesse sentido, a exceo  verdadeiramente, segundo sua raiz etimolgica, removida
(excapere), e no simplesmente excluda." (16)
       Permitam-me observar que  precisamente essa a circunstncia que os soberanos construtores de
regras precisam ocultar a fim de legitimar suas aes e torn-las compreensveis. A construo da ordem
tende a ser, como regra, empreendida em nome do combate ao caos. Mas no haveria caos se j no
houvesse a inteno de ordenar e se a "situao regular" j no estivesse antecipadamente concebida para
que sua promoo pudesse ser iniciada com seriedade. O caos nasce como no-valor, como exceo. A
pressa em ordenar  seu lugar de nascena, e ele no tem outros pais nem outro lar que sejam legtimos.

O poder de excluir no seria um marco da soberania se o poder soberano no tivesse primeiro se
unido ao territrio.
       Penetrante e perspicaz como costuma ser ao esquadrinhar a lgica bizarra e paradoxal da
Ordnung, Carl Schmitt endossa, nesse ponto crucial, a fico cultivada pelos guardies/promotores da
ordem, os detentores do poder soberano da exceo. Tal como no conjunto da prtica dos soberanos,
tambm no modelo terico de Schmitt se presume que as fronteiras do territrio no qual se conduz o
trabalho da Ordnung constituam os limites externos do mundo dotado de relevncia tpica para os
esforos e intenes de ordenar.
       Na viso de Schmitt, tal como na doia dos legisladores, a soma total dos recursos exigidos para
que se realize o trabalho de ordenar, assim como a totalidade dos fatores necessrios para justificar essa
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operao e seus efeitos, est contida no interior desse mundo. A soberania produz a distino entre um
valor e um no-valor, uma regra e uma exceo. Mas essa operao  precedida da distino entre o lado
de dentro e o de fora do reino soberano, sem o que suas prerrogativas no poderiam ser reclamadas nem
obtidas. A soberania, tal como praticada pelos modernos Estados-nao e teorizada por Schmitt, est
inextricavelmente limitada a um territrio.  impensvel sem um "lado de fora", inconcebvel de qual-
quer outra forma que no a de uma entidade localizada. A viso de Schmitt  to "localizada" quanto a
soberania cujo mistrio ele pretende desenredar. Ela no avana alm da prtica e do horizonte cognitivo
do celestial casamento do territrio com o poder.
        Na medida em que o "Estado de direito" foi se transformando, de modo gradual mas irresistvel (j
que sob as constantes presses da construo de legitimidade e da mobilizao ideolgica), no "Estado-
nao, esse casamento se transformou num mnage  trois: uma trindade constituda de territrio, Estado
e nao. Pode-se supor que o advento dessa trindade tenha sido um acidente histrico, ocorrido numa
nica e relativamente diminuta parte do globo; mas uma vez que essa parte, embora pequena, veio a
reclamar a posio de metrpole dotada de recursos suficientes para transformar o resto do planeta em
periferia, e arrogante o bastante para esquecer ou desacreditar suas prprias peculiaridades, e como 
prerrogativa da metrpole estabelecer e impor as regras pelas quais a periferia  obrigada a viver, a
superposio/mistura de nao, Estado e territrio se tornou uma norma de vinculao global.
        Qualquer um dos membros dessa trindade, se no estivesse associado aos outros dois nem fosse
apoiado por eles, se transformaria numa anomalia, numa monstruosidade candidata a uma drstica
cirurgia ou a receber um coup de grce caso fosse considerado irredimvel. Um territrio sem Estado-
nao se tornava uma terra de ningum. Uma nao sem Estado virava um aleijo com a opo de
desaparecer voluntariamente ou ser executado. Um Estado sem nao, ou com mais de uma nao,
transformava-se num resduo do passado ou num mutante confrontado pela opo de modernizar-se ou
perecer. Por trs da nova normalidade avultava o princpio da territorialidade dando sentido a qualquer
poder que apostasse na soberania e tivesse uma chance de ganhar a aposta.
        Toda aposta na pureza produz sujeira, toda aposta na ordem cria monstros. Os monstros sujos da
era de promoo da trindade territrio/nao/Estado foram naes sem Estados, Estados com mais de uma
nao e territrios sem Estado-nao. Foi graas  ameaa e ao medo desses monstros que o poder
soberano pde exigir e adquirir o direito de negar direitos e estabelecer condies de humanidade que
grande parte desta no poderia satisfazer -- como de fato ocorreu.

Sendo a soberania o poder de definir os limites da humanidade, as vidas dos seres humanos que
caram ou foram jogados para fora desses limites no valem a pena.
        Em 1920 foi publicado um livreto sob o ttulo Die Freigabe der Vernichtung lebensunwerten
Leben (Permitindo a destruio da vida que no vale a pena ser vivida), de autoria de um especialista em
direito penal, Karl Binding, e de um professor de medicina, Alfred Hoche, que comumente recebe o
crdito por ter introduzido o conceito de unwertes Leben ("vida que no vale a pena ser vivida"),
acrescido da indicao de que, nas sociedades humanas conhecidas, esse tipo de vida tem sido at agora
indevida e injustamente protegido  custa de tipos de existncia plenamente amadurecidos que deveriam
receber toda a ateno e o cuidado que a humanidade merece. Os sbios autores no viam razo (fosse
jurdica, social ou religiosa) pela qual o extermnio da unwertes Leben devesse ser visto como um crime
passvel de punio.
        Na concepo de Binding/Hoche, Giorgio Agamben enxerga a ressurreio e uma articulao
moderna e atualizada da antiga categoria do homo sacer: um ser humano que se pode matar sem medo de
punio, mas no pode ser usado no sacrifcio religioso -- que, em outras palavras,  totalmente excludo,
situando-se alm dos limites da lei, seja ela humana ou divina. Agamben tambm observa que o conceito
de "vida que no vale a pena ser vivida" , tal como sempre foi o de homo sacer, no-tico, mas que em
sua verso moderna adquire profunda significao poltica como uma categoria "sobre a qual se funda a
soberania".

       Na moderna biopoltica, o soberano  aquele que decide sobre o valor ou no-valor da vida como tal. Esta -- que com
       a declarao de direitos foi investida do princpio da soberania -- torna-se agora o local da deciso soberana. (17)
                                                                                                        73
        Com efeito, parece ser esse o caso. Observemos, contudo, que s o pode ser na medida em que
a trindade territrio/Estado/nao tenha sido elevada  condio de princpio universal da coabitao
humana, imposto e obrigado a sujeitar todos os recessos e frestas do planeta, incluindo reas que por
sculos no conseguiram atingir as condies necessrias para essa trindade (ou seja, homogeneidade
populacional e/ou estabelecimento permanente resultando num "arraigamento ao solo").  por causa
dessa universalidade do princpio trinitrio, tramada, arbitrria e imposta, que, como assinala Hannah
Arendt, "quem  rejeitado por uma dessas comunidades rigorosamente organizadas se v rejeitado por
toda a famlia das naes" (18) (e assim, na medida em que a espcie humana se torna idntica  "famlia
das naes", pela esfera da humanidade), lanado  terra de ningum dos homini sacri.

A intensa produo de lixo exige uma indstria de tratamento eficiente. Isso produziu uma das
mais impressionantes histrias de sucesso dos tempos modernos -- o que explica por que a
advertncia/premonio ficou na gaveta por dois sculos.
       Apesar das quantidades crescentes e das dores cada vez mais profundas, os detritos humanos
acumulados pelo fervor e dedicao de incluir/excluir, desencadeados e consistentemente reforados pelo
princpio e pela prtica da trindade territrio/Estado/nao, puderam ser legitimamente desprezados como
uma irritao transitria e essencialmente curvel, em vez de serem vistos e tratados como pressgios de
uma catstrofe iminente. As nuvens escuras pareciam mais claras e as premonies sombrias podiam ser
afogadas em riso como "profecias do juzo final", graas principalmente ao moderno empreendimento
que entrou para a histria sob os rtulos de "imperialismo" e "colonizao" Juntamente com outras
funes, esse empreendimento serviu de unidade de depsito e reciclagem para os crescentes suprimentos
de lixo humano. As atordoantes vastides de "terras virgens" abertas  colonizao pelo impulso
imperialista de invadir, conquistar e anexar podiam ser usadas como depsitos de lixo para os indesejados
e funcionar como terra prometida para os que subissem ou fossem atirados a bordo enquanto a nau do
progresso ganhava velocidade e prosseguia.

Assim, o mundo parecia tudo menos cheio. "Cheio"  outra expresso -- "objetivada" -- para o
sentimento de estar lotado. Superlotado, para ser preciso.
        Nada de Esttuas da Liberdade prometendo congregar as massas oprimidas e abandonadas. Nada
de rotas de fuga nem esconderijos, a no ser para uns poucos malfeitores e criminosos. Mas tambm (o
que , reconhecidamente, o efeito mais surpreendente da plenitude do mundo h pouco revelada) nada
daquele chez soi seguro e aconchegante, como os eventos do 11 de setembro provaram de modo
dramtico e acima de qualquer dvida razovel.
        A colonizao permitiu que as premonies de Kant ficassem engavetadas. Mas tambm fizeram
com que parecessem, quando finalmente se abriu a gaveta, uma profecia do apocalipse em lugar da alegre
utopia pretendida pelo filsofo. A viso de Kant agora parece assim porque, devido  enganadora
abundncia de "terras de ningum", no curso desses dois sculos nada tinha de ser feito, e portanto no o
foi, para preparar a humanidade para a revelao da definitiva plenitude do mundo.
        Quando os ltimos locais portando o rtulo de ubi leones desaparecem rapidamente do mapa-
mndi e as ltimas das muitas terras de fronteira distantes so reclamadas por foras suficientemente
poderosas para fechar divisas e negar vistos de entrada, o mundo como um todo est se transformado
numa terra de fronteira planetria...

Em qualquer poca as terras de fronteira foram conhecidas ao mesmo tempo como fatores de
deslocamento e unidades de reciclagem dos deslocados. Nada mais se pode esperar de sua nova
variedade global -- exceto,  claro, a nova escala planetria de produo e reciclagem dos
problemas.
         Permitam-me repetir: no h solues locais para problemas globais, embora sejam locais as
solues procuradas com avidez, ainda que em vo, pelas instituies polticas existentes, as nicas que
at agora inventamos e de que dispomos coletivamente.
         Enredadas como essas instituies tm sido, desde o incio e ao longo de sua histria, em esforos
apaixonados (hercleos na inteno, sisficos na prtica) para selar a unio do Estado e da nao com o
territrio, no surpreende que todas elas tenham se tornado e permanecido locais, e que seu poder
soberano de empreender aes viveis (ou, mesmo, legtimas) seja localmente circunscrito.
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H, salpicadas em toda parte do mundo, "guarnies de extraterritorialidade", aterros sanitrios
para o lixo no-despejado e ainda no-reciclado da terra de fronteira global.
        Durante os dois sculos da histria moderna, as pessoas que no conseguiam transformar-se em
cidados -- os refugiados, os migrantes voluntrios e involuntrios, os "deslocados" tout court -- foram
naturalmente assumidas como um problema do pas hospedeiro e tratadas como tal.
        Poucos, se  que algum, dos Estados-nao que preencheram o mapa-mndi moderno estavam
fixados to localmente quanto suas prerrogativas soberanas. Algumas vezes de boa vontade, outras com
relutncia, praticamente todos tiveram de aceitar a presena de estrangeiros no territrio apoderado e
admitir sucessivas levas de imigrantes fugindo ou expulsos dos domnios de outros Estados-nao
soberanos. Uma vez l dentro, porm, tanto os estrangeiros estabelecidos quanto os recm-chegados
caam sob a jurisdio exclusiva e indivisa do pas hospedeiro. Este ltimo estava livre para apresentar
verses atualizadas e modernizadas das duas estratgias descritas por Lvi-Strauss em Tristes trpicos
como formas alternativas de lidar com a presena de estrangeiros. Recorrendo a essas estratgias, o pas
poderia contar com o apoio entusistico de todas as outras potncias soberanas do planeta, preocupadas
em preservar o carter inviolvel da trindade territrio/Estado/nao.
        A opo disponvel para o problema do estrangeiro oscilava entre as solues antropofgica e
antropomica. A primeira delas resumia-se em "comer os estrangeiros at o fim". Fosse literalmente, pela
carne (como no canibalismo supostamente praticado por certas tribos antigas), ou em sua verso
sublimada, espiritual --como na assimilao cultural praticada quase universalmente, com a anuncia do
poder, pelos Estados-nao na inteno de ingerir no corpo nacional os portadores de culturas estranhas,
expelindo ao mesmo tempo as partes indigestas de seus dotes culturais. A segunda soluo significava
"vomitar os estrangeiros" em vez de devor-los: recolh-los e expeli-los (exatamente o que Oriana
Fallaci, a formidvel jornalista e formadora de opinio italiana, sugeriu que ns, europeus, deveramos
fazer com pessoas que adoram outros deuses e adotam estranhos hbitos de higiene), fosse do domnio do
poder de Estado ou do prprio mundo dos vivos.
        Observemos, contudo, que perseguir uma dessas duas solues s fazia sentido com base em
pressupostos gmeos: o da clara diviso territorial entre o "dentro" e o "fora" e o da inteireza e
indivisibilidade da soberania do poder de escolha estratgica no interior de seu domnio. Nenhum dos
dois goza de muita credibilidade nos dias de hoje, em nosso lquido mundo moderno. E assim as chances
de empregar uma das duas estratgias ortodoxas so no mnimo reduzidas.
        Com as formas de ao testadas no estando mais disponveis, parece que ficamos sem uma boa
estratgia para lidar com recm-chegados. Numa poca em que nenhum modelo cultural pode afirmar, de
modo peremptrio e efetivo, sua superioridade sobre os concorrentes, e quando a mobilizao patritica
voltada  construo nacional deixou de ser o principal instrumento de integrao social e de auto-
afirmao do Estado, a assimilao cultural no figura mais no programa. J que deportaes e expulses
criam imagens de televiso dramticas e perturbadoras, e podem desencadear os clamores do pblico,
maculando as credenciais internacionais dos responsveis, a maioria dos governos prefere, se possvel,
passar ao largo do problema fechando as portas queles que batem em busca de abrigo.
        A atual tendncia a reduzir drasticamente o direito de asilo poltico, acompanhada pela firme
recusa ao ingresso de "migrantes econmicos" (exceto nos momentos, poucos e transitrios, em que as
empresas ameaam mudar-se para onde a mo-de-obra est se esta no for trazida para onde elas esto),
essa tendncia assinala no uma nova estratgia com relao ao fenmeno dos refugiados, mas uma
ausncia de estratgia, assim como o desejo de evitar uma situao em que essa ausncia acarrete
embaraos polticos. Nessas circunstncias, o ataque terrorista de 11 de setembro ajudou enormemente os
polticos. Alm das acusaes comuns de viverem  custa da previdncia social e de roubarem empregos,
(19) ou de trazerem para o pas doenas h muito esquecidas, como a tuberculose, ou recentemente
surgidas, como a aids, (20) os refugiados podem agora ser acusados de fazer o papel de "quinta coluna"
em favor da rede terrorista global. H finalmente um motivo "racional" inatacvel para recolher,
encarcerar e deportar pessoas com as quais no se sabe mais lidar nem se deseja ter o trabalho de
descobrir. Nos Estados Unidos, e logo depois na Inglaterra, sob a bandeira da "campanha contra o
terrorismo", estrangeiros foram prontamente privados de direitos humanos essenciais que at ento
haviam resistido a todas as vicissitudes da histria desde a Magna Carta e do habeas corpus. Estrangeiros
podem agora ser detidos indefinidamente sob acusaes das quais no podem se defender porque no lhes
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dizem quais so elas. Na observao cida de Martin Thomas, (21) de agora em diante, numa
dramtica reverso do princpio bsico do direito civilizado, a "prova de uma acusao criminal  um
complicados redundante" -- ao menos no que se refere aos refugiados estrangeiros.
        As portas podem estar fechadas, mas o problema no ir embora, por mais bem resistentes que
sejam as trancas. Elas nada podem fazer para suavizar ou debilitar as foras que causam o deslocamento e
transformam seres humanos em refugiados. As trancas podem ajudar a manter o problema fora da vista e
da mente, mas no podem for-lo a se afastar de nossa vida.

E assim, cada vez mais, os refugiados se vem sob fogo cruzado --mais exatamente, numa
encruzilhada.
        Eles so expulsos  fora ou afugentados de seus pases nativos, mas sua entrada  recusada em
todos os outros. No mudam de lugar -- perdem seu lugar na terra, catapultados para lugar algum, para
os "non-lieux" de Aug, as "nowherevilles" de Garreau ou as "Narrenschiffen" de Michel Foucault. Para
um flutuante "lugar sem lugar, existente por si mesmo, fechado em si mesmo e ao mesmo tempo
abandonado na infinidade do mar" (22). OU (como sugere Michel Algier num artigo a ser publicado na
revista Ethnography) para um deserto, por definio uma terra desabitada, avessa aos seres humanos e
raramente visitada.
        Os refugiados se tornaram,  imagem caricatural da nova elite do poder no mundo globalizado, a
eptome daquela extraterritorialidade em que se fincam as razes da atual precarit da condio humana,
que tem lugar de destaque entre os temores e ansiedades de nossos dias. Esses temores e ansiedades,
procurando em vo por outros escoadouros, despejaram-se sobre o ressentimento e o medo que os
refugiados provocam. No podem ser desativados nem dispersos num confronto direto com a outra
encarnao da extraterritorialidade, a elite global flutuando alm do alcance do controle humano,
poderosa demais para que se possa enfrent-la. Os refugiados, ao contrrio, so um alvo fixo em que se
descarregar o excesso de angstia...
        De acordo com o Alto Comissariado das Naes Unidas para Refugiados (ACNUR), h entre 13 e
18 milhes de "vtimas de deslocamento forado" lutando para sobreviver alm das fronteiras dos seus
pases de origem (sem contar os milhes de refugiados "internos" no Burundi e em Sri Lanka, na
Colmbia e em Angola, no Sudo e no Afeganisto, condenados ao nomadismo por fora de
interminveis guerras tribais). Destes, mais de seis milhes esto na sia, e de sete a oito milhes na
frica. H trs milhes de refugiados palestinos no Oriente Mdio. Essa estimativa , com certeza,
conservadora. Nem todos os refugiados so (ou desejam ser) reconhecidos como tais -- s algumas das
pessoas deslocadas tiveram a sorte de serem registradas pelo ACNUR e ficarem sob seus cuidados.
        Aonde quer que vo, os refugiados so indesejados, e no deixam dvidas sobre isso. Os
identificados como "migrantes econmicos" (ou seja, pessoas que seguem os preceitos da "escolha
racional" e assim tentam encontrar formas de subsistncia onde elas podem ser encontradas, em vez de
ficarem onde elas no existem) so abertamente condenados pelos mesmos governos que fazem de tudo
para que a "flexibilidade da fora de trabalho" se transforme na principal virtude de seu eleitorado, e que
exortam os desempregados de seus prprios pases a "correrem atrs" dos compradores de mo-de-obra.
Mas a suspeita de motivao econmica tambm respinga sobre aqueles recm-chegados que, no muito
tempo atrs, eram vistos como pessoas no exerccio de seus direitos humanos procurando abrigar-se da
discriminao e da perseguio. Por associao repetida, a expresso "em busca de asilo" adquiriu um
sabor pejorativo. Grande parte do tempo e da capacidade cerebral dos estadistas da "Unio Europia" 
empregada no planejamento de formas cada vez mais sofisticadas de fechar e fortificar fronteiras, bem
como dos processos mais eficazes para se livrarem de pessoas em busca de po e abrigo que, apesar de
tudo, tenham conseguido cruz-las.
        Para no ficar atrs, David Blunkett, ministro do Interior britnico, ameaou cortar a ajuda dos
pases de origem dos refugiados caso eles no levassem de volta os "desqualificados em busca de asilo"
(23). Essa no foi a nica idia nova. Blunkett pretende "forar o ritmo da mudana", queixando-se de
que, devido  falta de energia de outras lideranas europias, "o progresso tem sido muito lento" Ele
deseja a criao de uma "fora de operaes conjuntas", com a participao de todos os pases europeus, e
de "uma fora-tarefa de especialistas nacionais" para "elaborar avaliaes de riscos comuns, identificar os
pontos fracos nas ... fronteiras externas da Unio Europia, abordar a questo da migrao ilegal por via
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martima e pr fim ao trfico [novo termo destinado a substituir o conceito de 'trnsito, anteriormente
nobre] de seres humanos".
Com a cooperao ativa de governos e pessoas influentes que encontram no favorecimento e na
instigao de preconceitos populares o nico substituto disponvel para o confronto das fontes genunas
da incerteza existencial que assalta seus eleitores, as "pessoas em busca de asilo" (como aquelas que
renem suas foras nos inmeros Sangattes da Europa, preparando-se para a invaso das ilhas britnicas,
ou as que esto para se estabelecer, a menos que as impeam, em acampamentos estratgicos a poucos
quilmetros das residncias dos eleitores), essas pessoas esto tomando o lugar das bruxas, dos fantasmas
de malfeitores impenitentes e de outros espectros e demnios das lendas urbanas. O novo folclore urbano,
em rpida expanso, com as vtimas dessa expulso planetria no papel de protagonistas mal-
intencionados, assimila e recicla a tradio oral das arrepiantes histrias de terror que no passado
encontravam uma vida demanda, gerada, tal como agora, pelas inseguranas da vida na cidade.
        Aqueles migrantes que, apesar dos estratagemas mais engenhosos, no podem ser rapidamente
deportados, o governo prope confinar em campos construdos em lugares possivelmente remotos e
isolados -- medida que transforma em profecia auto-cumprida a crena de que eles no desejam ou no
podem ser assimilados  vida econmica do pas. Assim, como observa Gary Young, "efetivamente
erigem bantustes em torno da zona rural da Inglaterra, encurralam os refugiados de formas que os
deixam isolados e vulnerveis" (24). (Pessoas em busca de asilo, assinala Young, "so mais propensas a
serem vtimas de crimes do que a comet-los")
        Segundo os registros do ACNUR, esto confinados nesses campos 83,2% dos refugiados na
frica e 95,9% na sia. Na Europa, at agora so apenas 14,3%. Mas, at o momento, h poucos sinais
de que essa diferena em favor da Europa se sustentar por muito tempo.

Os campos de refugiados ou as pessoas em busca de asilo so artfices de uma instalao temporria
que o bloqueio das sadas torna permanente.
        Os internos dos campos de refugiados ou as pessoas em busca de asilo no podem voltar "ao lugar
de onde vieram", j que os pases de origem no os querem de volta, suas formas de subsistncia foram
destrudas e seus lares, pilhados, demolidos ou roubados. Mas tambm no existe um caminho  frente --
nenhum governo teria satisfao em ver o influxo de milhes de sem-teto, e qualquer um faria o possvel
para evitar que os recm-chegados se estabelecessem.
        Quanto  sua nova localizao "permanentemente temporria, os refugiados "esto nela, mas no
so dela". No pertencem verdadeiramente ao pas em cujo territrio foram montadas suas cabanas ou
tendas portteis. So separados do restante dele por uma cortina de suspeitas e ressentimentos que 
invisvel, mas ao mesmo tempo espessa e impenetrvel. Esto suspensos num vcuo espacial em que o
tempo foi interrompido. No se estabeleceram nem esto em movimento. No so sedentrios nem
nmades.
        Nos termos em que habitualmente se descrevem as identidades humanas, eles so inefveis. So,
em carne e osso, os "indecidveis" de Jacques Derrida. Entre pessoas como ns, que outras valorizam e
que se vangloriam das artes da reflexo e auto-reflexo, eles no so apenas intocveis, mas tambm
impensveis. Num mundo transbordando de comunidades imaginadas, so inimaginveis. E  recusando-
lhes o direito de serem imaginados que os outros, agregados em comunidades genunas ou aspirantes a
isso, buscam credibilidade para os seus prprios esforos de imaginao.

A proliferao de campos de refugiados  um produto/manifestao to integral da globalizao
quanto o denso arquiplago de nowherevilles atravs do qual se movem os membros da nova elite
em suas viagens ao redor do mundo.
        O atributo compartilhado por globetrotters e refugiados  sua extraterritorialidade: no
pertencerem ao lugar, estarem "no" mas no serem "do" espao que fisicamente ocupam (os globetrotters
numa sucesso de momentos reconhecidamente fugazes, os refugiados numa srie de momentos
infinitamente ampliada).
        Pelo que sabemos, as nowherevilles dos campos de refugiados -- tal como as pousadas
eqidistantes em que se hospedam os comerciantes supranacionais capazes de viajar livremente -- podem
ser as cabeas-de-ponte de uma extraterritorialidade que avana, ou (numa perspectiva mais longa)
laboratrios em que a dessemantizao do lugar, a fragilidade e descartabilidade dos meios, a
                                                                                                         77
indeterminao e a plasticidade das identidades, e acima de tudo a nova permanncia da transitoriedade
(todas elas tendncias constitutivas da fase "lquida" da modernidade) so vivenciadas sob condies
extremas: testadas como os limites da elasticidade e da submisso humanas, assim como as formas de
atingi-los, foram testados nos campos de concentrao no estgio "slido" da histria moderna.
        Como todas as outras nowherevilles, os campos de refugiados so marcados por uma
transitoriedade intencional, pr-programada e embutida. Todas essas instalaes so concebidas e
planejadas como um buraco tanto no tempo como no espao, uma suspenso transitria na seqncia
temporal da construo de identidades e da atribuio territorial. Mas as faces que as duas variedades de
nowherevilles apresentam a seus respectivos usurios/internos diferem agudamente. Os dois tipos de
extraterritorialidade sedimentam-se, por assim dizer, em lados opostos do processo de globalizao.
        O primeiro oferece a transitoriedade como uma instalao livremente escolhida; o segundo a torna
permanente -- um destino irrevogvel e inelutvel. Essa  uma diferena parecida com a que separa os
dois equipamentos da permanncia segura: as comunidades fechadas dos ricos discriminadores e os
guetos dos pobres discriminados. E as causas dessa diferena tambm so semelhantes: de um lado,
entradas estritamente guardadas e vigiadas, mas sadas escancaradas; de outro, uma entrada amplamente
indiscriminada, mas sadas cuidadosamente fechadas.  o fechamento das sadas, em particular, que
perpetua o estado de transitoriedade sem substitu-lo pela permanncia. Nos campos de refugiados, o
tempo est excludo da mudana qualitativa. Continua sendo tempo, mas no  mais histria.
        Os campos de refugiados apresentam uma nova qualidade: uma "transitoriedade congelada", um
estado contnuo, permanente, de temporalidade, uma durao de momentos remendados, nenhum dos
quais vivido como um elemento da perpetuidade, muito menos como contribuio a ela. Para os internos
dos campos de refugiados, a perspectiva de seqelas a longo prazo e de suas conseqncias no faz parte
da experincia. Eles vivem, literalmente, um dia aps o outro, e os contedos da vida cotidiana no so
afetados pelo conhecimento de que os dias se combinam para formarem meses e anos. Tal como nas
prises e "hiperguetos" esmiuados e vivamente descritos por Loc Wacquant, esses refugiados
"aprendem a viver, ou melhor, sobreviver [(sur)vivre] dia a dia na imediao do momento, banhando-se
no ... desespero que cresce dentro dos muros". (25)

A corda que prende os refugiados aos campos  tranada por foras de atrao e repulso.
        Os poderes que governam o local onde as tendas ou barracas foram armadas, e tambm as terras
em torno do campo, fazem o possvel para evitar que os internos escapem e se espalhem sobre o territrio
adjacente. Mesmo na ausncia de guardas armados nas sadas, o lado de fora do campo est,
essencialmente, fora dos limites estabelecidos para os internos. , na melhor das hipteses, inspito, cheio
de pessoas circunspectas, insensveis e desconfiadas, vidas por observar, registrar e sustentar contra eles
qualquer erro, real ou suposto, assim como qualquer passo em falso que possam dar -- coisa que os
refugiados, afastados de seu elemento e desconfortveis num ambiente estranho, esto propensos a fazer.
        Na terra em que suas tendas temporrias/permanentes foram armadas, os refugiados continuam
sendo evidentes "outsiders", uma ameaa  segurana que os "estabelecidos" extraem de sua rotina diria
at ento inconteste. So um desafio  viso de mundo que vinha sendo universalmente compartilhada e
uma fonte de perigos ainda no confrontados, ajustando-se com dificuldade s brechas familiares e
evitando as formas habituais de resolver problemas. (26)
        O encontro de nacionais e refugiados , com certeza, a espcie mais espetacular de "dialtica dos
estabelecidos e outsiders" (que parece ocupar em nossos dias o papel de fixador de padres que j
pertenceu  dialtica senhor-escravo), descrita pela primeira vez por Elias e Scotson. (27) Os
"estabelecidos" usando seu poder de definir a situao e impor essa definio a todos os envolvidos,
tendem a trancar os recm-chegados numa gaiola de esteretipos, "uma representao altamente
simplificada das realidades sociais"* Estereotipar cria "um modelo em preto e branco" que no deixa
"espao para as diversidades". Os outsiders so culpados at prova em contrrio, mas como so os
estabelecidos que combinam os papis de promotores, juzes de instruo e magistrados, de modo que
simultaneamente apresentam as acusaes, julgam e proferem a sentena, as chances de absolvio dos
outsiders so reduzidas, para no dizer nulas. Como Elias e Scotson descobriram, quanto mais ameaada
a populao estabelecida se sente, mais tende a levar suas crenas "aos extremos da iluso e da rigidez
doutrinria". Confrontada com um influxo de refugiados, essa populao tem todas as razes para se
sentir ameaada. Alm de representarem o "grande desconhecido" que todos os estrangeiros encarnam, os
                                                                                                        78
refugiados trazem consigo os rudos de uma guerra distante e o fedor de lares pilhados e aldeias
incendiadas que s podem lembrar aos estabelecidos a facilidade com que o casulo de sua rotina segura e
familiar (segura porque familiar) pode ser rompido ou esmagado. Os refugiados, como assinalou Bertold
Brecht em Die Landschaft des Exils [A paisagem do exlio], so "ein Bote des Unglcks" ("um arauto das
ms notcias").
        Aventurando-se do campo para um distrito vizinho, os refugiados se expem a um tipo de
incerteza que descobrem ser difcil de suportar depois da rotina diria do campo, estagnante e congelada
mas confortavelmente previsvel. A poucos passos do permetro do campo, eles se encontram num
ambiente hostil. Seu direito de ingresso no "lado de fora" , na melhor das hipteses, um assunto em
debate, podendo ser contestado por qualquer transeunte. Em comparao com essa solido externa, o
interior do campo pode muito bem passar por um refgio seguro. S o imprudente e o aventureiro
desejariam deix-lo por um tempo considervel, e bem poucos ousariam concretizar esse desejo.
        Usando termos tirados das anlises de Loc Wacquant, (28) podemos dizer que os campos de
refugiados misturam, combinam e consolidam os traos distintivos da "comunidade- gueto" da era Ford-
Keynes com os do "hipergueto" de nossos tempos ps-fordistas e ps-keynesianos. Se as "comunidades-
guetos" eram semelhantes a totalidades sociais auto-sustentveis e auto-reprodutoras, com rplicas em
miniatura da estratificao, das divises funcionais e das instituies caractersticas da sociedade mais
ampla, destinadas a atender  totalidade de necessidades da vida comunal, os "hiperguetos" so tudo,
menos comunidades auto-sustentveis. So grupamentos populacionais truncados, artificiais e
evidentemente incompletos; agregados, mas no comunidades; condensaes topogrficas incapazes de
viver por si mesmas. J que as elites conseguiram sair do gueto e deixaram de alimentar a rede de
empreendimentos econmicos que sustentava (ainda que precariamente) a subsistncia de sua populao,
as agncias estatais de proteo e controle (duas funes, via de regra, intimamente interligadas)
ocuparam seu lugar. O "hipergueto" est preso por cordas que se originam alm de suas fronteiras e que
certamente esto fora do seu controle.
        Michel Agier enxergou nos campos de refugiados traos de "comunidades-guetos" interligados,
numa estreita rede de dependncia mtua, com os atributos do "hipergueto (29) Podemos supor que essa
combinao aperte com ainda mais fora os laos que prendem os internos do campo. A fora de atrao
que mantm juntos os moradores da "comunidade-gueto" e a de repulso que condensa os proscritos no
"hipergueto", ambas poderosas, se superpem e se reforam mutuamente. Combinadas com a
efervescente e inflamante hostilidade do ambiente externo, elas produzem uma fora centrpeta
esmagadora, difcil de resistir, tornando totalmente redundantes as tcnicas de conteno e isolamento
desenvolvidas pelos administradores e supervisores dos Auschwitzes ou Gulags. Mais que quaisquer
outros micromundos sociais arquitetados, os campos de refugiados se aproximam do tipo ideal de
"instituio total" de Erving Goffman: oferecem, por ao ou omisso, uma "vida total" de que no se
pode escapar, com o acesso a qualquer outra forma de vida efetivamente barrado.

Tendo abandonado, voluntariamente ou  fora, seu ambiente antigo e familiar, os refugiados
tendem a ser despidos das identidades definidas, sustentadas e reproduzidas por aquele meio.
        Socialmente, so como "zumbis": suas antigas identidades sobrevivem principalmente como
fantasmas, assombrando as noites dos campos de modo ainda mais doloroso por serem totalmente
invisveis  luz do dia. Mesmo as mais confortveis, prestigiosas e invejveis dentre as velhas identidades
tornam-se desvantajosas --dificultam a busca por novas identidades mais adequadas ao novo meio,
impedem que se seja obrigado a enfrentar as novas realidades e retardam o reconhecimento da
permanncia dessa nova condio.
        Para todos os fins prticos, os refugiados foram consignados quele estgio intermedirio, "nem
um nem outro", da passagem em trs etapas de Van Gennep e Victor Turner (30) -- mas sem que essa
consignao tenha sido reconhecida pelo que , sem um tempo de durao determinado, sobretudo sem a
conscincia de que a opo de retorno  condio anterior no existe mais, e sem uma indicao da
natureza dos ambientes que podem aparecer pela frente. Relembremos que, no esquema de "passagem"
tripartido, o desnudamento que privou os portadores dos antigos papis dos atributos sociais e smbolos
culturais do status que um dia tiveram (a produo social, com a anuncia do poder, do "corpo nu", como
diria Giorgio Agamben (31)) no era seno um estgio preliminar necessrio para recobrir os
"socialmente nus" com a parafernlia de seu novo papel social. A nudez social (freqentemente tambm
                                                                                                      79
corprea) era apenas um breve intermezzo a separar os dois movimentos, dramaticamente distintos, da
pera da vida -- assinalando a separao entre os dois meios, sucessivamente assumidos, de direitos e
obrigaes sociais.  diferente, contudo, no caso dos refugiados. Embora sua condio comporte todos os
traos (e conseqncias) da nudez social caracterstica do estgio de passagem intermedirio, transitrio
(falta de definio social e de direitos e deveres codificados), ela no  um "estgio" intermedirio ou
transitrio que leve a algum "estado estacionrio" especfico e socialmente definido. Na difcil situao
dos refugiados, a condio designada como "intermediao personificada" se estende indefinidamente
(uma verdade que o destino dramtico dos campos de refugiados palestinos trouxe recentemente, de modo
violento,  ateno do pblico). O "estado estacionrio" passvel de emergir s pode ser um efeito
colateral no-planejado e indesejado do desenvolvimento suspenso ou interrompido -- de tentativas
fluidas, reconhecidamente temporrias e experimentais, de sociao [sociation] congelando-se
imperceptivelmente em estruturas rgidas, no mais negociveis, que prendem os internos com mais
firmeza do que guardas armados e arame farpado.
        A permanncia da transitoriedade, a durabilidade do transitrio, a determinao objetiva no
refletida na seqencialidade subjetiva das aes, o papel social perpetuamente subdefinido, ou mais
corretamente uma insero no fluxo da existncia sem a ncora de um papel social -- todos esses traos
da lquida vida moderna, assim como outros correlates, foram expostos e documentados nos achados de
Agier. Na extraterritorialidade territorialmente fixada do campo de refugiados, eles aparecem numa forma
muito mais extrema, no-diluda e assim mais claramente visvel do que em qualquer outro segmento da
sociedade contempornea.
        Pode-se imaginar em que medida os campos de refugiados seriam laboratrios onde (talvez de
forma inadvertida, mas nem por isso menos poderosa) o novo padro de vida lquido-moderno,
"permanentemente transitrio", est sendo testado e ensaiado.
        Em que medida as nowherevilles dos refugiados seriam exemplos antecipados do mundo que est
por vir, e seus internos lanados/empurrados/forados a assumir o papel de exploradores pioneiros?
Questes desse tipo s podem ser respondidas em retrospecto -- se  que podem.
        Por exemplo, podemos ver agora -- com o benefcio do retrospecto -- que os judeus que
deixaram os guetos no sculo XIX foram os primeiros a experimentar e compreender em sua totalidade a
incongruncia do projeto de assimilao, assim como as contradies internas do preceito corrente de
auto-afirmao, vivenciadas mais tarde por todos os habitantes da modernidade emergente. E agora
comeamos a ver, novamente com o beneficio do retrospecto, que os membros da intelligentsia
multitnica ps-colonial (como Ralph Singh, nos Mmicos de Naipaul, que no conseguia se esquecer de
ter oferecido uma ma a sua professora favorita, como se supe que faa toda criana inglesa bem-
educada, embora soubesse muito bem que no h mas na ilha caribenha em que ficava a escola) foram
os primeiros a experimentar e compreender as falhas, a incoerncia e a falta de coeso fatais do preceito
da construo de identidade que seriam vivenciadas pouco depois pelos demais habitantes do lquido
mundo moderno.
        Talvez chegue o momento de se descobrir o papel de vanguarda desempenhado pelos atuais
refugiados -- de explorar o sabor da vida na nowhereville e a obstinada permanncia da transitoriedade
que pode se tornar o hbitat comum dos moradores de nosso planeta total e globalizado.

S o tipo de comunidade que ocupa a maior parte do discurso poltico de hoje, mas no pode ser
encontrada em nenhum outro lugar -- a comunidade global, uma comunidade inclusiva, mas no
exclusiva, que se ajusta  viso de Kant da allgemeine Vereinigung in der Menschengattung --,
poderia tirar os atuais refugiados do vcuo sociopoltico ao qual foram relegados.
        Todas as comunidades so imaginadas. A "comunidade global" no  exceo. Mas a imaginao
tende a se transformar numa fora integradora tangvel, potente e efetiva quando auxiliada pelas
instituies socialmente produzidas e politicamente sustentadas da auto-identificao e do autogoverno
coletivos. Isso j aconteceu antes -- no caso das naes modernas, casadas, na alegria e na tristeza, at
que a morte os separe, com os modernos Estados soberanos.
        No que se refere  comunidade global imaginada, uma rede institucional similar (que agora s
pode ser constituda por agencias globais de controle democrtico, por um sistema jurdico globalmente
sustentado e por princpios ticos globalmente defendidos)  totalmente inexistente. E isso, sugiro eu, 
                                                                                                                  80
uma causa importante, talvez a principal, daquela macia produo de desumanidade a que,
eufemisticamente, se deu o nome de "problema dos refugiados".
         poca em que Kant anotou seus pensamentos sobre a comunidade humana, totalmente humana,
que a Natureza decretou ser o destino de nossa espcie, a universalidade da liberdade individual foi
declarada o propsito e a viso orientadora cujo advento os homens da prtica, inspirados e observados de
perto pelos homens do pensamento, deveriam e seriam instados a perseguir e acelerar. A comunidade
humana e a liberdade individual eram vistas como duas faces da mesma tarefa (ou, com mais preciso,
como irms siamesas), j que a liberdade (para citar o estudo de Alain Finkielkraut sobre a herana do
sculo XX publicado sob o adequado ttulo de "A perda da humanidade" (32)) era concebida como
equivalente  "irredutibilidade do indivduo  sua posio, status, comunidade, nao, origens e
linhagem". Os destinos da comunidade planetria e da liberdade individual eram considerados, com boa
razo, inseparveis. Presumia-se, quando se pensava sobre o tema, que a Vereinigung in der
Menschengattung e a liberdade de todos os seus membros s poderiam prosperar juntas, ou juntas fenecer
e morrer, mas nunca nascer sozinhas ou viver separadas. Ou a participao na espcie humana supera
todas as outras atribuies e alianas, mais particulares, quando se trata da formulao e alocao de leis e
direitos produzidos pelo homem, ou a causa da liberdade como direito humano inalienvel est
comprometida ou mesmo totalmente perdida. Tertium non datur.
        Esse axioma logo perdeu sua incipiente auto-evidncia e veio a ser quase esquecido conforme os
seres humanos, libertos do confinamento em propriedades e linhagens hereditrias, eram prontamente
encarcerados na nova priso trina da aliana territrio/nao/Estado, enquanto os "direitos humanos"-- na
prtica poltica, se no na teoria filosfica -- eram redefinidos como produto da unio pessoal entre o
sdito de um Estado, o membro de uma nao e o residente legtimo de um territrio. A "comunidade
humana" parece to distante da atual realidade planetria quanto no incio da aventura moderna. Nas
presentes vises do futuro, o lugar que se tende a atribuir-lhe -- se  que de fato se contempla tal
atribuio -- est ainda mais distante do que h dois sculos. Ela no parece mais iminente nem
inescapvel.

At aqui, as perspectivas so sombrias.
        Em sua recente e sbria avaliao da atual tendncia, David Held considera que a afirmao do
"status moral irredutvel de todas as pessoas e de cada uma delas" e a rejeio da "viso dos
particularistas morais de que pertencer a determinada comunidade limita e determina o valor moral dos
indivduos e a natureza de sua liberdade" ainda so tarefas importantes e amplamente vistas como
"desconfortveis". (33)
        Held observa uns poucos acontecimentos que trazem esperana -- em especial a Declarao dos
Direitos Humanos, das Naes Unidas, de 1948 e o Estatuto do Tribunal de Crimes Internacionais de
1998, embora este ltimo ainda esteja esperando em vo pela ratificao e seja sabotado de modo ativo
por alguns dos principais atores globais --, mas assinala ao mesmo tempo "fortes tentaes no sentido de
simplesmente fechar as portas e defender apenas a posio de alguns pases e naes", As perspectivas
ps-11 de setembro tambm no so particularmente animadoras. Elas contm uma chance de "reforar as
instituies multilaterais e os acordos jurdicos internacionais", mas ainda h a possibilidade de reaes
que "poderiam afastar-nos dessas frgeis conquistas, na direo de um mundo com maiores antagonismos
e divises --uma sociedade nitidamente incivil" Mas nosso consolo (o nico disponvel, mas tambm --
permitam-me acrescentar -- o nico de que a humanidade necessita quando cai numa era sombria)  o
fato de que "a histria ainda est conosco e pode ser construda".
        De fato. A histria no terminou, de modo que escolhas ainda podem ser feitas -- e
inevitavelmente sero. Cabe indagar, porm, se as escolhas feitas nos ltimos dois sculos nos colocaram
mais perto do alvo visado por Kant, ou se, ao contrrio, aps 200 anos de ininterrupta promoo,
consolidao e predomnio do Princpio Trinitrio, nos encontramos mais longe desse alvo do que no
incio da aventura moderna.

       O mundo no  humano s por ser feito de seres humanos, nem se torna assim somente porque a voz humana nele
       ressoa, mas apenas quando se transforma em objeto do discurso ... Ns humanizamos o que se passa no mundo e em
       ns mesmos apenas falando sobre isso, e no curso desse ato aprendemos a ser humanos.
       Esse humanitarismo a que se chega no discurso da amizade era chamado pelos gregos de filantropia, o "amor do
       homem", j que se manifesta na presteza em compartilhar o mundo com outros homens.
                                                                                                                        81

        Essas palavras de Hannah Arendt poderiam -- deveriam -- ser lidas como prolegmenos a
quaisquer esforos futuros com o objetivo de reverter a tendncia e aproximar a histria do ideal de
"comunidade humana". Seguindo Lessing, seu heri intelectual, Arendt adverte que a "abertura aos
outros"  "a precondio da 'humanidade' em qualquer sentido dessa palavra ... O dilogo
verdadeiramente humano difere da mera conversa ou at da discusso por ser totalmente permeado pelo
prazer com a outra pessoa e com o que ela diz". (34) O grande mrito de Lessing, na viso de Arendt, foi
ficar "satisfeito com o nmero infinito de opinies que aparecem quando os homens discutem os assuntos
deste mundo" Lessing

       alegrava-se com aquilo que sempre -- ou pelo menos desde Parmnides e Plato -- perturbou os filsofos: que a
       verdade, to logo proferida,  imediatamente transformada numa opinio entre muitas, contestada, reformulada,
       reduzida a um tema de discurso entre tantos outros. A grandeza de Lessing no consiste meramente no insight terico
       de que no pode haver uma nica verdade no mundo humano, mas em sua alegria pelo fato de que ela no existe e
       que, portanto, o infindvel discurso entre os homens jamais terminar enquanto estes existirem. Uma nica verdade
       absoluta ... teria sido a morte de todas essas disputas ... e isto poderia ter significado o fim da humanidade. (35)

        O fato de outros discordarem de ns (no prezarem o que prezamos, e prezarem justamente o
contrrio; acreditarem que o convvio humano possa beneficiar-se de regras diferentes daquelas que
consideramos superiores; acima de tudo, duvidarem de que temos acesso a uma linha direta com a
verdade absoluta, e tambm de que sabemos com certeza onde uma discusso deve terminar antes mesmo
de ter comeado), isso no  um obstculo no caminho que conduz  comunidade humana. Mas a
convico de que nossas opinies so toda a verdade, nada alm da verdade e sobretudo a nica verdade
existente, assim como nossa crena de que as verdades dos outros, se diferentes da nossa, so "meras
opinies", esse sim  um obstculo. Ao logo da histria, tais convices e crenas extraem sua
credibilidade da superioridade material e/ou do poder de resistncia de seus portadores -- e estes baseiam
sua fora na firmeza da Regra Trinitria. Com efeito, o "complexo de soberania" entrincheirado na
[anti]santssima unio de territrio, nao e Estado exclui efetivamente o discurso que Lessing e Arendt
consideravam a "precondio da humanidade"* Permite que os parceiros/adversrios adulterem os dados
e embaralhem maliciosamente as cartas antes de comearem o jogo da comunicao mtua, e que
interrompam o debate antes que se esteja perigosamente perto de descobrir a trapaa.
        A Regra Trinitria tem um impulso autoperpetuador. Ele confirma sua prpria verdade  medida
que ganha ascendncia sobre as vidas e mentes humanas. Um mundo dominado por essa regra  um
mundo de "populaes nacionalmente frustradas" que, estimuladas por sua frustrao, acabam
convencidas de que "a verdadeira liberdade, a verdadeira emancipao" s podem ser obtidas "com a
plena emancipao nacional" (36) -- ou seja, mediante a mgica mistura da nao com um territrio e um
Estado soberano. Foi a Regra Trinitria que causou a frustrao, e  ela mesma que se oferece como
remdio. A dor sofrida pelos excludos da aliana territorial/nacional/estatal alcana suas vtimas depois
de pre viamente reprocessada na aparelhagem trinitria, e  fornecida juntamente com um folheto
explicativo e com sua receita certa de cura, travestida de sabedoria empiricamente validada. Durante o
reprocessamento, a aliana  transmutada, como num milagre, de maldio em bno, de causa da dor
em anestsico.

Arendt conclui seu ensaio "Sobre a humanidade em tempos sombrios" com uma citao de
Lessing: "Jeder sage, was ihm Wahrheit dnkt,/ und die Wahrheit selbst sei Gott empfohlen"
("Que cada homem diga o que considera a verdade,/ e que a prpria verdade seja confiada a Deus"
). (37)
        A mensagem de Lessing/Arendt  muito direta. Confiar a verdade a Deus significa deixar em
aberto a questo da verdade (de "quem est certo"). A verdade s pode emergir bem no final da conversa
-- e numa conversa genuna (quer dizer, que no seja um solilquio disfarado). Nenhum parceiro tem
certeza, ou capacidade, de saber qual pode ser esse final (se  que ele existe). Um orador, e tambm um
pensador que pensa do "modo orador", no pode, como assinala Franz Rosenzweig, "prever coisa alguma;
deve ser capaz de esperar porque depende da palavra do outro -- precisa de tempo". (38) E como aponta
Nathan Glazer, o mais perspicaz dos discpulos de Rosenzweig, h "um curioso paralelo" entre esse
modelo de pensador no "modo orador" e o conceito processual/dialtico de verdade proposto por William
                                                                                                        82
James: "A verdade acontece a uma idia. Ela se torna verdade,  transformada em verdade pelos
eventos. Sua veracidade  de fato um evento, um processo: o de verificar-se, sua veri-ficao. Sua
validade  o processo de sua validao." (39) A afinidade, com efeito,  impressionante -- embora, para
Rosenzweig, a fala que se engaja honesta e esperanosamente num dilogo, uma fala incerta do resultado
deste e portanto de sua prpria verdade, seja a principal substncia do "evento" em que se "faz" a verdade,
e o principal instrumento desse "fazer"
        A verdade  um conceito eminentemente agonstico. Nasce do confronto entre crenas que
resistem  conciliao e entre seus portadores relutantes em chegar a um acordo. Sem esse confronto, a
idia de "verdade" dificilmente teria ocorrido, para comeo de conversa. "Saber como ir em frente" seria
tudo de que se precisaria -- e o ambiente em que se faz necessrio "ir em frente", a menos que desafiado
e assim tornado "estranho" e esvaziado de sua "auto-evidncia", tende a se completar com a inequvoca
prescrio de "ir em frente". Debater a verdade  uma resposta  "dissonncia cognitiva" Ela  instigada
pelo impulso a desvalorizar e desempoderar (despotencializar) outra leitura do ambiente e/ou outra
prescrio de ao que lance dvida sobre a leitura e a rotina de ao de algum. Esse impulso crescer de
intensidade quanto mais as objees/obstculos se tornarem vociferantes e difceis de abafar. O interesse
em debater a verdade, e o principal propsito de sua auto-afirmao,  prova de que o parceiro/adversrio
est errado e de que, portanto, as objees so invlidas e podem ser desprezadas.
        Quando se trata de discutir a verdade, as chances de uma "comunicao no-distorcida", tal como
foi postulado por Jrgen Habermas, se tornam diminutas. (40) Os protagonistas dificilmente resistiro 
tentao de recorrer a outros meios, mais efetivos, que no a elegncia lgica e o poder persuasivo de
seus argumentos. Em vez disso, faro o possvel para tornar os argumentos do adversrio inconseqentes,
de preferncia inaudveis ou, melhor ainda, jamais vocalizados, pela desqualificao daqueles que, se
pudessem, os vocalizariam. Um argumento que tem grande chance de ser apresentado  o da
inelegibilidade do adversrio como interlocutor pelo fato de ele ser inepto, mentiroso ou inconfivel, mal-
intencionado ou claramente inferior.
        Se isso fosse possvel, em vez de argumentar seria prefervel recusar a conversa ou abandonar o
debate. Entrar na discusso , afinal, uma confirmao oblqua das credenciais do parceiro e uma
promessa de seguir as regras e padres do discurso (contrafactualmente) lege artis e bona fide. Acima de
tudo, entrar na discusso significa, como apontou Lessing, confiar a verdade a Deus. Em termos mais
objetivos, significa fazer do resultado do debate um refm do destino.  mais seguro, se possvel, declarar
os adversrios errados a priori e priv-los da capacidade de apelar do veredicto do que tentar enred-los
num litgio judicial e expor o prprio argumento a um interrogatrio rigoroso, arriscando que seja
rejeitado ou derrotado.
        O expediente de desqualificar o adversrio num debate sobre a verdade  usado com maior
freqncia pelo lado mais forte -- nem tanto por sua maior iniqidade, mas por sua maior engenhosidade.
Podemos dizer que a capacidade de ignorar os adversrios e fechar os ouvidos s causas que eles
promovem  o ndice pelo qual se pode medir o volume e o poder relativos dos recursos. Inversamente,
voltar atrs na recusa para debater e concordar em negociar a verdade  com muita freqncia um sinal de
fraqueza -- circunstncia que torna o lado mais forte (ou algum que deseje demonstrar sua fora
superior) ainda mais relutante em abandonar sua posio de rejeio.
        A rejeio do estilo de Rosenzweig de "pensamento orador"  capaz de se perpetuar e fortalecer.
Do lado do mais forte, a recusa em conversar pode passar por um sinal de que se "tem razo", mas para o
lado oposto a negao do direito de defender sua causa que essa recusa acarreta, e conseqentemente a
recusa em reconhecer seu direito de ser ouvido e levado a srio como um portador de direitos humanos,
constituem as maiores afrontas e humilhaes -- ofensas que no podem ser aceitas placidamente sem
que se perca a dignidade...
        A humilhao  uma arma poderosa -- mas do tipo bumerangue. Pode ser usada para demonstrar
ou provar a desigualdade fundamental e irreconcilivel entre quem humilha e quem  humilhado. Mas,
contrariando essa inteno, ela de fato autentica, verifica a simetria, a semelhana, a paridade de ambos.
        Porm o grau da humilhao invariavelmente provocada por todo ato de recusa em conversar no
 a nica razo para que esta se autoperpetue. Na terra de fronteira em que nosso planeta est rapidamente
se transformando, em conseqncia da globalizao unilateral, (41) as repetidas tentativas de superar,
despotencializar e desqualificar o adversrio freqentemente atingem os efeitos pretendidos, embora com
resultados que vo muito alm daquilo que seus perpetradores previam ou gostariam. Grandes partes da
                                                                                                        83
frica, sia e Amrica Latina esto cobertas de traos duradouros deixados por antigas campanhas de
despotencializao: as numerosas terras de fronteira locais, efeitos colaterais, ou dejetos, de que padecem
as foras beneficirias das condies da terra de fronteira global, as quais elas no podem deixar de
disseminar e propagar.
        Os exerccios de despotencializao so considerados "bem-sucedidos" se o desarmamento do
adversrio for feito de tal forma que elimine a esperana de recuperao. As estruturas de autoridade so
desmanteladas, os laos sociais, cortados, as fontes costumeiras de subsistncia, devastadas e postas fora
de operao (na terminologia poltica da moda, os territrios assim afligidos so ditos "Estados fracos"
embora o termo "Estado", apesar da restrio, s possa se justificar nesse caso por ser empregado sons
rature, como diria Derrida). Quando sustentadas por um arsenal hightech, as palavras tendem a se
transformar em carne, obliterando assim sua prpria necessidade e propsito. Nas terras de fronteira
locais, no ficou nenhuma para contar a histria -- CQD.

Numa piada irlandesa, quando um motorista pergunta ao transeunte "como se vai daqui para
Dublin", este lhe responde: "Se eu quisesse ir para Dublin, no partiria daqui."
        Com efeito, pode-se facilmente imaginar um mundo mais adequado para a jornada rumo 
"unidade universal da humanidade" kantiana do que aquele que por acaso habitamos hoje, ao fim da era
da trindade territrio/nao/Estado. Mas no existe outro mundo, e assim no h outro lugar de onde se
partir. No entanto no iniciar a jornada, ou no inici-la logo, no  -- neste caso, sem dvida -- uma
opo.
        A unidade da espcie humana postulada por Kant pode ser, como ele sugeria, compatvel com a
inteno da Natureza, mas certamente no parece algo "historicamente determinado" O continuado
descontrole da rede j global de dependncia mtua e de "vulnerabilidade reciprocamente assegurada"
decerto no aumenta a chance de se alcanar tal unidade. Isso s significa, contudo, que em nenhuma
outra poca a intensa busca por uma humanidade comum, assim como a prtica que segue tal pressuposto,
foi to urgente e imperativa como agora.
        Na era da globalizao, a causa e a poltica da humanidade compartilhada enfrentam a mais
decisiva de todas as fases que j atravessaram em sua longa histria.
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                                                 Notas

1. Apaixonar-se e desapaixonar-se

       1. Erich Fromm, The Art of Loving. Londres, Thorsons, (1957), 1995, p.vii.
       2. Emmanuel Levinas, Le temps et i'autre. Paris, Presses Universitaires de France, 1991, p 81, 78.
       3. Guardian Weekend, 12 jan 2002.
       4. Adrienne Burgess, Will You StilI Love me Tomorrow (Londres, Vermilion,
2001), citado no Guardian Weckend, 26 jan 2002.
       5. Knud Lngstrup, Den Etiske Fordring. [Ed. ing.: The Ethical Demand. Notre Dame, University
of Notre Dame Press, 1997, p.24-5.]
       6. Erich Fromm, The Art of Loving, op.cit.
       7. David L. Norton e Mary E KiIle (orgs.), Philosophies of Love. Nova York, Helix Books, 1971.
       8. Franz Rosenzweig, Das Bchlein vom gesunden und kranken Menschenverstand. {Ed. ing.:
Understanding the sick and the healthy. Org. N.N. Glatzer, Harvard, Harvard University Press, 1999.]
       9. Guardian Weekend, 9 mar 2002.
       10. Richard Sennett, The Fall of Public Man. Londres/Nova York, Random House, 1978, p.259ss.
[Ed. bras.: (O declnio do homem pblico, So Paulo, Companhia das Letras, 1988.]
       11. Guardian Weekend, 6 abr 2002.


2. Dentro e fora da caixa de ferramentas da sociabilidade

        1. Volkmar Sigusch, "The neosexual revolution", Archives of Sexual Behavior 4, 1989, p.332-59.
        2. Erich Fromm, The Art of Loving. Londres, Thorsons, (1957), 1995.
        3. Ibid., p.41-3, 9-11.
        4. Volkmar Sigusch, "The neosexual revolution", op.cit.
        S. Milan Kundera, L'Immortalit. [Ed. ing.: Immortality. Londres, Faber, 1991, p.338-9.1
        6. Judith Butler, Bodies that Matter: On the Discursiva Limits of Sex. Londres, Routledge, 1993.
        7. Sigmund Freud, "Dia kulturelle Sexualmoral und dia moderna Nervositt". [Ed. bras.: "A moral
sexual 'civilizada' e a doena nervosa moderna", in ESB, vol. IX, Rio de Janeiro, Imago, 1976.]
        8. Jonathan Rowe, "Reach out and annoy someone", Washington Monthly, nov 2002.
        9. John Urry, "Mobility and proximity", Sociology, mai 2002, p.255-74.
        10. Ver As regras do mtodo sociolgico, de mile Durkheim. [Ed. ing. in Anthony Giddens,
mile Durkheim: Selected Writings. Cambridge, Cambridge University Press, 1972, p.71, 64.1
        11. Michael Schluter e David Lee, The R Factor. Londres, Hodder and Stoughton, 1993, p.15, 37.
        12. Louise Franca, "Love at first site", Observer Magazine, 30 jun 2002.
        13. Jonathan Rowe e Judith Silverstein, "The GDP myth: Why 'growth' isn't always a good thing",
Washington Monthly mar 1999.
        14. Aqui citado de acordo com Jonathan Rowe, "Z zycia ekonomistow , Obyawatel 2 (2002);
originalmente publicado em julho de 1999.
        15. Para o conceito de "sociabilidade", ver, de minha autoria, Postmodern ethics. Oxford, Polity,
1993, p.119. A justaposio de "sociabilidade" e "socializao"  paralela  de "espontaneidade" e
"administrao". "A sociabilidade coloca a singularidade acima da regularidade e o sublime acima do
racional, sendo portanto geralmente inspita s regras, tornando problemtica a redeno discursiva
destas ltimas e cancelando o significado instrumental da ao."
        16. Ver o profundo estudo de Valentina Fedotova, "Anarkhia i poriadok" (Anarquia e ordem).
Voprosy Filosofii 5 (1997), recentemente reimpresso numa coletnea de estudos da autora sob o mesmo
ttulo (Moscou, Editorial URSS, 2000, p.27-50).
        17. Victor Turner, The Ritual Process: Structure and Anti-structure. Londres, Routledge, 1969,
p.96.
                                                                                                       85
3. Sobre a dificuldade de amar o prximo

         1. Sigmund Freud, "Das Unbehagen in der Kultur". [Ed. bras.: "O mal-estar na civilizao", in
ESB, vol.XXI, Rio de Janeiro, Imago, 1976.]
         2. Knud Logstrup, Etiske fordring. [Ed. ing.: The Ethical Demand. Notre Dame, University of
Notre Dame Press, 1997, p.8.]
         3. Leon Shestov, "All things are perishble", in Bernard Martin (org.), A Shestov Anthology.
Columbus, Ohio State University Press, 1970, p.70.
         4. Anthony Giddens, The Transformation of Intimacy: Sexuality, Love and Eroticism in Modern
Societies. Oxford, Polity, 1992, p.58, 137.
         5. Knud Logstrup, After the Ethical Demand. Aarhus, Dinamarca, Universidade Aarhus, 2002,
p.26.
         6. Ibid., p.28.
         7. Ibid., p.25.
         8. Ibid., p.14.
         9. Martin Heidegger, Sein und Zeit, publicado pela primeira vez no Jahrbuch fr Philosophie und
Phnomenologische Forschung (1926).
         10. Knud Logstrup, After the ethical demand, op.cit., p.4, 3.
         11. Ibid., p.1-2.
         12. G. Gumpert e S. Drucker, "The mediated honre in a global village", Communication Research
4, 1996, p.422-38.
         13. Stephen Graham e Simon Marvin, Splintering Urbanism. Londres, Routledge, 2001, p.285.
         14. Ibid., p.15.
         15. M. Schwarzer, "The ghost wards; the flight of capital from history", Thresholds 16, 1998,
p.10-9.
         16. M. Castells, The Informational City. Oxford, Blackwell, 1989, p.228.
         17. Michael Peter Smith, Transnational Urbanism: Locating Globalization. Oxford, Blackwell,
2001, p.54-5; e ver John Friedman "Where we stand: A datada of world city research", in P.L. Knox e P.J.
Taylor (orgs.), World Cities in a World System. Cambridge, Cambridge University Press, 1995; David
Harvey, "Froco space to placa and back again: Reflections on the condition of postmodernity", in J. Bird
et al. (orgs.), Mapping the Futures. Londres, Routledge, 1993.
         18. Manuel Castells, The Power of Identity. Oxford, Blackwell, 1997, p.61, 25.
         19. Manuel Castells, "Grassrooting the space of flows", in J.O. Wheeler, Y. Aoyama e B. Warf
(orgs.), Cities in the Telecommunications Age: The Fracturing of Geographies. Londres, Routledge,
2000, p.20-1.
         20. Michael Peter Smith, Transnational Urbanism, op.cit., p.108.
         21. John Hannigan, Fantasy City. Londres, Routledge, 1998.
         22. B.J. Widick, Detroit: City of Race and Class Violence, Detroit, Wayne State University Press,
1989, p.210.
         23. John Hannigan, Fantasy City, op.cit., p.43, 51.
         24. Ver a entrevista de Steve Profitt ao Los Angeles Times, 12 out 1997.
         25. Michael Storper, The Regional World: Territorial Development in a Global Economy. Hove,
UK, Guilford Press, 1997, p.235.
         26. Teresa Caldeira, "Fortified andavas: The new urban segregation", Public Culture, 1996, p.303-
28.
         27. Nan Elin, "Shelter from the storm, or Forco follows fear and vice versa", in Nan Elin (org.),
Architecture of Fear. Princeton, Princeton Architectural Press, 1997, p.13, 26.
         28. Steven Flutsy, "Bulding paranoia", in Nan Elin, Architecture of Fear, op. cit., p.48-52.
         29. Richard Sennett, The Uses of Disorder: Personal Identity and City Life. Londres, Faber, 1996,
p.39,42
         30. Ibid, p.194.
         31. Ver, por exemplo, William B. Beyer, "Cyberspace or human space: Whiter cities in the age of
telecommunications?", in J.O. Wheeler, Y. Aoyama e B. Warf (orgs.), Cities in the Telecommunications
Age, po.cit., p.176-8.
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4. Convvio destrudo

         Outra verso desse captulo foi publicada, sob o ttulo "The fate of humanity in the post-
Trinitarian world" [O destino da humanidade no mundo ps-trinitrio], no Journal of Human Rights n.3
(2002).
         1. D.G. Mc Neil Jr., "Politicians pander to fear of crime", New York Times, 5-6 mai 2002.
         2. Ver Nathaniel Herzberg e Ccile Prieur, "Lionel Jospin et le 'pige' scuritaire", Le Monde, 5-6
mai 2002.
         3. Citado por D.G. Mc Neil Jr., "Politicians pander to fear of crime".
         4. Ver USA Today, 11 jun 2002, especialmente "Al-Qaeda operativa tipped off plot", "US: Dirty
bomb plot foiled" e "Dirty bomb plot: 'The future is here, I'm afraid'".
         5. Como Giorgio Agamben descobriu. Ver seu Homo sacer. Il podere sovrano e la nuda vida.
Torino, Einaudi, 1995.
         6. Giorgio Agamben, Mezzi senza fini (1996). [Ed. ing.: Means without Ends: Notes on Politics.
Minneapolis, University of Minnesota Press, 2000, p.20.]
         7. Edmund Burke, Reflections on the Revolution in France (1790), citado por Hannah Arendt a
partir da edio organizada por E.J. Oayne (Everyman's Library).
         8. Hannah Arendt, The origins of totalitarianism. Londres, Andre Deutsch, 1986, p.300, 293. [Ed.
bras.: As origens do totalitarismo. So Paulo, Companhia das Letras, 1989.]
         9. Ver a nota dos tradutores in Agamben, Means Without Ends, op.cit., p.143.
         10. "Karl Jaspers: Citizen of the world?", in Hannah Arendt, Men in Dark Times. Nova York,
Harcourt Brace, 1993, p.81-94. [Ed. bras.: Homens em tempos sombrios. So Paulo, Companhia das
Letras, 1987.]
         11. Giorgio Agamben, Means without Ends, op.cit., p.21.
         12. Victor Turner, The Ritual Process: Structure and Anti-structure. Londres, Routledge, 1969,
p.170, 96.
         13. Hannah Arendt, "On humanity in dark times: Thoughts about Lessing", in Men in Dark Times,
op.cit., p.15.
         14. Carl Schmitt, Theorie des Partisanen. Zwischenbemerkungzum Begriff des Politischen.
Berlim, Duncker and Humboldt, 1963, p.80. Ver a discusso em Giorgio Agamben, Homo sacer, op.cit.
[Ed. ing.: Homo sacer: Sovereign Power and Bare Life. Stanford, Stanford University Press, 1998, p.137.
]
         15. Carl Schmitt, Politische Theologie. Vier Kapitel sur Lebre von der Souvernitt. Berlim,
Duncker and Humboldt, 1922, p.19-21. Ver a discusso em Giorgio Agamben, Homo sacer, op.cit. [Ed.
ing.: Homo sacer, op.cit., p.15ss.]
         16. Giorgio Agamben, Homo sacer, op.cit. [Ed. ing.: Homo sacer, op.cit., p.18.]
         17. Ibid., p.142.
         18. Hannah Arendt, The Origins of Totalitarianism, op.cit., p.204.
         19. Acusao avidamente empregada, com grande proveito, por um nmero crescente de polticos
contemporneos de todos os setores do espectro, de Le Pen, Pia Kjersgaard ou Vlaam Bloc, na extrema
direita, a um nmero cada vez maior daqueles que se definem como de "centro-esquerda".
         20. Ver, por exemplo, o editorial do Daily Mail de 5 de agosto de 2002 sobre a "chegada de levas
de trabalhadores que j sofrem do vrus da Aids".
         21. Guardian, 26 nov 2001.
         22. Ver Michel Foucault, "Of other spaces", Diacritics 1, 1986, p.26.
         23. Ver Alan Travis, "UK plan for asylum crackdown", Guardian, 13 jun 2002.
         24. Gary Younge, "Villagers and the damned", Guardian, 24 jun 2002.
         25. Ver Loc Wacquant, "Symbole fatale. Quand ghetto et prison se ressemblent et s'assemblent",
Actas de la Recherche en Sciences Sociales, set 2001, p.43.
         26. Ver Norbert Elias e John L. Scotson, The Established and the Outsiders: A Sociological
Inquiry into Community Problems. Londres, Frank Cass, 1965, especialmente p.81 e 95. [Ed. bras.: Os
estabelecidos e os outsiders. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2000.]
                                                                                                       87
        27. Idem.
        28. Ver Loc Wacquant, "The new urban color line: the state and fate of the ghetto in postfordist
America", in Craig J. Calhoun (org.), Social Theory and the Politics of Identity. Oxford, Blackwell, 1994;
tambm "Elias in the dark ghetto", Amsterdams Sociologisch Tidjschrift, dez 1997.
        29. Ver Michel Agier, "Entreguerre et ville", Ethnography 3, 2002, p.317-42.
        30. O primeiro estgio consiste no desmantelamento da antiga identidade, o terceiro e ltimo na
montagem de uma nova. Ver Arnold van Gennep, The Right of Passage. Londres, Routledge and Kegan
Paul, 1960; Victor Turner, The Ritual Process, op.cit.
        31. Giorgio Agamben, Homo sacer, op.cit.
        32. Alain Finkielkraut, L'Humanit perdu. Paris, Seuil, 1996, p.43.
        33. David Held, "Violence, law and justice in a global age", Constellations, mar 2002, p.74-88.
        34. Hannah Arendt, "On humanity in dark times", in Men in Dark Times, op.cit., p.24-5, 15.
        35. Ibid., p.26-7.
        36. Hannah Arendt, The Origins of Totalitarianism, op.cit., p.272.
        37. Hannah Arendt, "On humanity in dark times", in Men in Dark Times, op.cit., p.31.
        38. Franz Rosenzweig, Das Bchlein vom gesunden und kranken Menschenverstand. [Ed. ing.:
Understanding the Sick and the Healthy. Org. N.N. Glatzer, Harvard, Harvard University Press, 1999,
p.14. ]
        39. Citado por Glatzer in ibid., p.33, seguindo William James, Pragmatism, Londres, 1907, p.201.
A ligao ntima entre as idias de Rosenzweig e de James foi sugerida pela primeira vez por Ernst Simon
em 1953.
        40. Jrgen Habermas observa corretamente que a expectativa de consenso universal  construda
em qualquer conversa e que sem ela a expectativa de comunicao seria totalmente inconcebvel. O que
ele no diz, porm,  que, se existe a crena de que o consenso ser atingido em circunstncias ideais em
funo de "uma nica verdade"  espera de ser descoberta e aceita como tal, ento algo mais se "embute"
em qualquer ato de comunicao: a tendncia a tornar redundantes todos os participantes da conversa,
exceto um, juntamente com a variedade de vises que eles sustentam e defendem. Odo Marquard, em
Abschied vom Prinzipiellen (Leipzig, Philipp Reclam, 1991), sugere que por essa interpretao o ideal de
"comunicao no-distorcida" parece uma vingana pstuma do solipsismo...
        41. Ver o captulo "Living and dying in the planetary frontier-land", em meu Society under Siege.
Oxford, Polity, 2002.
